MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Artista plástico Andrey Zignnatto elege o tijolo para relacionar rigidez e maleabilidade

Paulista de Jundiaí está em cartaz em dois espaços em São Paulo

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 03h00

Uma olaria de Jundiaí (SP) tem sido, desde 2009, o ateliê de experimentações de Andrey Zignnatto. “Quando comecei a me interessar em criar uma pesquisa em arte contemporânea, busquei como ponto de partida algo que tivesse a ver com minha vida pessoal. E o primeiro trabalho remunerado que tive, dos 10 aos 14 anos, foi como assistente de pedreiro do meu avô. Foi uma coisa de momento, a ideia de voltar a uma fábrica de tijolos da minha cidade natal”, conta o artista, de 34 anos. Zignnatto não quer ficar estigmatizado pelo material que escolheu para suas criações, mas as potencialidades que vem conquistando com os módulos feitos de argila têm chamado a atenção do público e do meio artístico.

Na exposição Deslocamentos, em cartaz até sábado, 16, na Blau Projects, na Vila Madalena, a sala principal da galeria abriga Erosões II (2015), um monumental bloco de tijolos sobrepostos que tem como elemento surpreendente uma área na qual o artista simula a decomposição da construção, como se a obra estivesse desmanchando. Zignnatto, que remete à imagem de um acidente natural, corta à faca o material cerâmico para criar “certo desconforto ótico e físico”, escreve a curadora Rejane Cintrão. Ao mesmo tempo, a intervenção promove, ao espectador, uma nova relação com o espaço, quase inteiramente tomado pelo trabalho.

“A base da minha pesquisa conceitual é o fato de o ser humano ser o único produto da natureza que não se acomoda completamente no que ela oferece. Ele cria cada vez mais um mundo artificializado para acomodar suas necessidades e desejos”, explica o artista, diante de sua obra. “Ao mesmo tempo, o tijolo tem a rigidez, mas é esculpido, trazendo a questão da equalização de coisas distintas, como a maleabilidade da rigidez, a suavidade da força.”

“O extraordinário da instalação apresentada na Blau é que, além de ele obter um imenso bloco compacto, uma construção dentro da construção, dificultando o percurso do visitante, as entranhas do material cortado, com seus vazados retilíneos, assemelharam-se a um casario perturbador, uma estranha proliferação de casas”, opina o curador e professor Agnaldo Farias, que já convidou Andrey Zignnatto a apresentar, em agosto, uma de suas obras na Torre Santander, na Vila Nova Conceição. “O cara vai longe, sem dúvida”, garante.

Provocação. Na entrada da galeria, o artista exibe, ainda, outra criação de grande destaque, Manta I (2015), uma “cortina” feita de tijolos que encobre a fachada da Blau Projects como “uma grande casca ondulante”, descreve Farias -, deixando apenas uma fresta para o visitante ultrapassar. “Quis criar uma intervenção que provocasse o público visualmente e fisicamente, mas também ela é uma maneira de equalizar as forças institucionais que existem do artista em relação à galeria: ao mesmo tempo que a manta se acomoda sobre a fachada, ela se impõe”, conta Zignnatto, salientando o dado político da obra.

Inicialmente, na adolescência, Andrey pensou que poderia criar pinturas - chegou a realizar quadros de vertente surrealista e abstrata. Como ele lembra, até começar, aos 15 anos, a cursar a Associação dos Artistas Plásticos de Jundiaí, sua avó materna, Santa Zignnatto, era sua “patrocinadora”.

Insatisfeito com a pesquisa pictórica e com medo de “cair no limbo”, ou seja, não encontrar seu caminho artístico, ele pediu aos donos da olaria de sua cidade um espaço do local para criar seu ateliê. Sua ideia “não era fazer esculturas”, ressalta, mas vivenciar o ambiente e aprender sobre a produção e manuseio dos blocos cerâmicos. “Muitas ideias surgiram de situações do cotidiano e de questões políticas, econômicas e sociais já que o tijolo, no Brasil, é um símbolo forte”, afirma o artista. “Tenho trabalhos que são registros de performances que criei lá dentro, gravuras nas quais usei o tijolo como carimbo, produzi tinta com argila, fiz desenhos.”

Além da exposição na Blau Projects, Andrey Zignnatto acaba de inaugurar a mostra Estudos para Novas Propostas de Interpretações do Espaço Físico - Territórios Forjados, na Funarte São Paulo, onde apresenta site specifcs e peças conceituais. Mais ainda, em 21 de julho, ele vai expor no Paço das Artes como selecionado da Temporada de Projetos da instituição - para a ocasião, promete uma provocadora intervenção para a escadaria do local. Suas conquistas não param por aqui, já foi convidado a criar, em setembro, uma intervenção no jardim do Museu da República (RJ), durante a feira ArtRio. “Hoje, vivo como artista”, comemora.

ANDREY ZIGNNATTO

Blau Projects. R. Fradique Coutinho, 1.464, tel. 3467-8819. 3ª a sáb., 11 h/19 h. Grátis. Até 16/5

Funarte. Al. Nothmann, 1.058, 3662-5177. 2ª a 6ª, 10 h/18 h; sáb. e dom., 15 h/21 h. Grátis. Até 12/6 

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