Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Artista mineira Sonia Gomes ganha primeira mostra individual no Masp

Exposição será aberta juntamente com a mostra do baiano Rubem Valentim

Pedro Rocha, Especial para o Estado

13 Novembro 2018 | 11h13

Ao descer para o primeiro subsolo do Museu de Arte Moderna Assis Chateaubriand, o Masp, o visitante pode ter uma surpresa. As vidraças da galeria, geralmente cobertas por cortinas, estão agora completamente livres, deixando a luz exterior entrar. Luminosidade não é exatamente a melhor amiga da conservação de obras de arte, mas a liberação das cortinas foi um pedido na nova artista a ocupar o espaço, a mineira Sonia Gomes

“Quando me apresentaram essa galeria, me senti sufocada. Senti a necessidade de abrir as cortinas. Olhei no cantinho e até me chamaram a atenção, porque não podia abrir”, explica a artista, de 70 anos, numa visita ao lado do Estado à sua primeira exposição individual no museu, Ainda Assim Me Levanto, que abre ao público geral nesta quarta-feira, 14. “Um jardim maravilhoso não pode ficar escondido assim. Explicaram que determinados trabalhos não podem ser expostos à luz, precisam desse cuidado”, continua Sonia. “Mas falei que sou uma artista viva, me responsabilizo pelos trabalhos. E o que quer que aconteça também vai ser incorporado à obra, não tenho essa preocupação.”

Ao avistar, da janela, o jardim que fica atrás do museu, o público terá outra surpresa. Uma das obras da artista está lá, do lado de fora. É a única das peças apresentadas que não é inédita. Uma gaiola aberta que, segundo Sonia, já teve interferência da natureza.”A gaiola participou de uma exposição e, quando voltou para a galeria, ficou em cima de uma árvore”, conta Sonia. O resultado foi uma casa de marimbondo e muitas teias de aranha. “Disse para que deixassem como estava.” Os animais, por conta própria, se foram, mas as lembranças ficaram na obra. Mais uma vez, Sonia diz se responsabilizar caso aconteça algo com a peça. 

As demais obras foram feitas especialmente no Masp. Suas tradicionais esculturas feitas a partir de tecidos e arames agora se entrelaçam com a madeira. São galhos, troncos e raízes encontrados num sítio em Minas Gerais. A mistura dos dois elementos não foi fácil, mas apresentou um desafio que atraiu a artista. “A madeira tem uma forma rígida. Com arame e tecido eu faço o que quero, mas com a madeira não. Até descobrir isso foi bem difícil”, explica Sonia. “A madeira que me diz o que ela aceita, não sou eu quem decido.”

A “teimosia” das peças de madeira inspiraram também o título da exposição. Já com a maioria das peças prontas, a artista sugeriu aos curadores do Masp o título “Raíz”, mas que ela achou muito óbvio. Sonia diz preferir títulos mais poéticos. Foi quando, um dia, um dos troncos deu a ideia. “Foi o único que eu costurei, literalmente, na madeira. Queria colocar o tronco de pé, mas ele não se sustentava”, relembra Gomes. “Um dia acordei e pensei, ‘ainda assim me levanto’, algo que eu tinha lido anos atrás e não lembrava onde tinha visto.”

Sonia, então, redescobriu a origem da frase, de autoria de Maya Angelou, poetisa e ativista norte-americana. “Não sou uma artista ativista, o meu ativismo é silencioso. Mas achei lindo, tem a ver com a minha história e é apropriado para o momento”, diz a artista, em referência ao fato de sua exposição encerrar o ano temático Afro-Atlântico no museu, em 2018, e inicar o ano de Histórias das Mulheres/Histórias Feministas em 2019.

Reconhecimento

Além do Masp, parte da mostra Ainda Assim Me Levanto estará também na Casa de Vidro, sede do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. A casa foi onde residiram a arquiteta do prédio do Masp e seu marido, o co-criador do museu, Pietro Maria. Lá, estão apenas obras de chão, para respeitar a construção. Na galeria do Masp, os trabalhos de Sonia que estão pendurados também se adequaram à arquitetura. “Prefiro o desafio imposto pela arquitetura que o cubo branco das galerias”, diz a artista, que fez também, no Masp, uma homenagem a Lina Bo Bardi, ao preparar uma obra pensada especialmente para o cavalete de vidro criado pela arquiteta. A obra está em exposição no espaço de honra do museu, o Acervo em Transformação. “Terem colocado lá foi realmente uma surpresa, não fiz pensando nisso.”

Estar ao lado de nomes como Van Gogh e Picasso não envaidece a artista. “Sinto grande de estar ao lado deles. Ou pequena. Sei que não estou na mesma categoria deles, mas me sinto bem por estar ao lado.” A exposição de Sonia Gomes no Masp é a segunda individual da artista numa grande instituição. A primeira, também realizada este ano, foi no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que teve um caráter retrospectivo. “Precisou que eu fosse para fora para depois ser convidada por instituições importantes aqui no Brasil”, lamenta a artista, que representou o País na Bienal de Veneza de 2015. “Mas recebo as exposições com gratidão.”

Sonia, nascida em Caetanópolis, em Minas, tem uma história incomum no mundo das artes. Apesar de ter começado cedo - ela se lembra de fazer desconstrução de tecidos ainda na adolescência - só foi ser reconhecida pelo mercado das artes por volta de 45 anos. “A Sonia tem uma contribuição extraordinária para a escultura contemporânea, com esse caráter antropomórfico”, diz a curadora da mostra no Masp, Amanda Carneiro. “Ela faz inserção de diversos objetos dentro desses trabalhos, ela cria volumes que guardam memórias e segredos.”

Segundo a curadora, que acompanhou o trabalho de Sonia durante um ano, desde que a artista foi convidada pelo museu, as costuras de retalhos de tecidos são preenchidas com peças que vão desde alfinetes a balangandãs. Coisas que a artista esconde. Para a própria Sonia, a sua obra, por conta disso, fica aberta a interpretações. “Lembro de algo que li sobre o Tunga, ele falava que a obra de arte guarda segredos e me identifico com isso”, diz a artista. “Quando termino um trabalho não sei o que é. O espectador e os curadores, então, fazem leituras que eu mesma não tinha feito. Deixo a obra aberta para as interpretações das pessoas.”

Serviço

Sonia Gomes: Ainda assim me levanto

Masp. Av. Paulista, 1578. Tel. (11) 3149-5959. 4ª a dom., 10 às 19h. 3ª até às 20h. R$ 35, gratuito às terças. Até 10/3.

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