WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Artista Iole de Freitas comprova a leveza insustentável do aço

Mineira inaugura mostra ‘O Peso de Cada Um’, no MAM do Rio, com peças de 700 quilos

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 05h00

Chapas de aço de seis metros de comprimento e 700 quilos que bailam no espaço. Hastes que atravessam as pesadas estruturas como se fizessem furos numa folha de papel. A intenção de Iole de Freitas na mostra O Peso de Cada Um é impregnar o salão monumental do Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio, de leveza, um contraste com a corporeidade do material escolhido.

Retorcidas, as três esculturas que compõem a exposição, que abre hoje, têm grandes dimensões, são inéditas e somam juntas quase quatro toneladas. Duas estão suspensas e se fixam nas paredes e vigas estruturais do MAM com parafusos usados na construção civil e que suportam até 200 quilos. A terceira é apoiada no chão em apenas alguns pontos de sua estrutura.

Investigações sobre equilíbrio, densidade, tensionamento, relação entre planos e linhas e diálogo com a arquitetura, presentes no trabalho de quatro décadas da artista mineira, estão no ar, radicalizadas. Conforme o observador se desloca no salão, a percepção das obras vai se modificando.

“Queria que os trabalhos tivessem essa impregnação de peso e leveza: o que é pesado também flutua no ar, apesar de isso parecer absurdo. As hastes são como flechas que ‘amarram’ as curvaturas e torções”, afirma Iole, que precisou convencer a caldeiraria escolhida para a preparação das chapas a aceitar a tarefa – a empresa trabalha com material para a construção de barcos.

Ex-bailarina e desenhista industrial, a artista vinha trabalhando desde os anos 1980 com chapas de policarbonato e tubos de aço inox em suas pesquisas sobre movimento. As chapas de aço, ela considera “uma gelatina”, se houver uma calandra industrial (máquina com cilindros usadas para curvar metais) adequada. “Essas chapas têm muita elasticidade, mais do que plasticidade. Tendem a voltar à posição inicial, têm rebeldia.”

A finalização da mostra foi precedida de muito trabalho em maquete e protótipos, os quais Iole desenvolveu por um ano em seu ateliê no bairro de Santa Teresa. O engenheiro calculista Geraldo Filizola apenas ratifica as contas que ela, por conta da experiência acumulada, já acertara.

“Não sou prepotente, mas sei que meus cálculos estão certos. Não é só o peso, até porque, em se tratando de esculturas de grande formato, uma tonelada é uma brincadeira, mas também como o material vai se comportar, se vai cair para o lado do jeito que imaginei. Você tem que ter bom senso e não pisar em terrenos onde não há segurança estrutural. Mas é curioso: quando o trabalho não está fechado esteticamente, é porque ainda tem questões estruturais e vice-versa.”

A curadora Ligia Canongia entende essa busca como algo que vem da formação de Iole como bailarina. Dela, “Iole guardou o valor dos deslocamentos e da elasticidade que os gestos corporais ativam no espaço, assim como o caráter ao mesmo tempo preciso e volúvel dos cruzamentos entre as formas e o ambiente”, escreve Ligia no texto de apresentação da mostra. “A escolha dos suportes findou por acompanhar conceitualmente a própria concepção das obras, selecionando matérias moldáveis, transparentes ou imateriais, que apresentavam características aéreas e fugazes.” 

Iole também faz a relação. “Quando eu estava no Teatro Scala, de Milão, e vi a Margot Fontaine sendo erguida pelo Nureyev, sendo que ele era bem mais leve do que ela, entendi o que é a capacidade de flutuação.” 

Com 6,5 milímetros, as lâminas de aço são, para ela, como “lascas de parede curvadas” a dominar o espaço expositivo – surgem como desdobramento da pesquisa desenvolvida durante residência artística na Casa Daros de 2011 a 2013 e que resultou numa obra de dez por cinco metros de material translúcido e no livro Para Que Servem as Paredes do Museu?. “A troca de material surge da poética do trabalho. Eu não fui procurar, simplesmente me deparei com ele e fui usando.”


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