Artista do Brasil não entra

Adriano Pedrosa, curador da tradicional mostra do MAM, explica por que desta vez só estrangeiros

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Uma polêmica surgiu em meados deste ano com o anúncio de que o próximo Panorama da Arte Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), marcado para 10 de outubro, seria feito apenas com obras de artistas estrangeiros. Ou seja: o tolhimento de mais um espaço para reflexão sobre a produção contemporânea brasileira? A proposta curatorial é de Adriano Pedrosa, convidado para fazer a edição de 2009 da mostra bienal e tradicional da instituição, criada em 1969.

Segundo ele, não é bem assim. A exposição vai apresentar trabalhos de cerca de 30 artistas, todos estrangeiros, sim, mas que têm a arte brasileira como referência, em especial o modernismo dos anos 1950 e o neoconcretismo nacionais.

"Vejo que as reações (ao projeto) têm em geral um caráter mais conservador, tipicamente territorialista e xenófobo. Se você pensar numa reação de esquerda, ela poderia dizer que se trata de um projeto expansionista, pois há uma ?ocupação brasileira? de territórios artísticos tidos como ?estrangeiros?", defende o curador. Para Pedrosa, a resposta ao debate que já se criou será a própria exposição, concebida, como diz, a partir de duas vertentes: a mostra em si, que ocupará todos os espaços do MAM, e o programa de residência artística feito em parceria com a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e iniciado em julho. Nove artis-tas estrangeiros ficam no País durante oito semanas.Eles não têm como obrigação criar uma obra específica para o Panorama, mas estabelecer uma relação, mesmo que rápida, com o País. A reportagem do Estado esteve na semana passada com dois desses artistas residentes, o mexicano Jose Dávila e o argentino Adrián Villar Rojas, que já terminaram sua estada por aqui (leia mais ao lado). Hospedados no Edifício Lutetia, no centro de São Paulo e pertencente à Faap (leia também abaixo), os dois estrangeiros explicaram seus trabalhos para o Panorama num modo de entender melhor a mostra, feita com orçamento em torno de R$ 900 mil.

"Esse projeto responde a diversas avaliações minhas, uma delas é a de que nosso programa de exposições em São Paulo, de um modo geral, é excessivamente voltado para a arte brasileira ou, quando é internacional, vem muitas vezes através de agências de fomento cultural ou de coleções estrangeiras", diz Adriano Pedrosa. "Nossa carência é sobretudo em relação a mostras coletivas internacionais que sejam curadas e produzidas no Brasil. Isso, porém, custa caro."

A mostra Panorama da Arte Brasileira já teve uma série de diretrizes em sua história: começou com o propósito primeiro de promover aquisições para a formação da coleção do MAM com os prêmios de suas edições; depois, eram feitas edições estritamente ligadas a linguagens e gêneros (o desenho, a pintura, a escultura, etc.); e de 1995 para hoje passou a ter um curador convidado pela instituição com autonomia para criar seu próprio projeto (o primeiro foi o de Ivo Mesquita). Em 2003, o museu chamou pela primeira vez um estrangeiro, o cubano Gerardo Mosquera para fazer a curadoria da exposição: e ele fez o Panorama da Arte Brasileira (desarrumado), que mesclou obras de artistas nacionais e internacionais. Adriano Pedrosa afirma que não está agora inventando a roda, citando até mesmo a iniciativa de Mosquera como referência.

A questão da "problemática" entre território , geografia, nacionalidade e a arte não é nova, nem mesmo na trajetória de projetos de Pedrosa, como ele afirma. "Esse Panorama é um questionamento sobre a relação entre arte e nacionalidade e, nesse sentido, sobre a categoria arte brasileira", diz o curador. Segundo ele, sua opção foi se concentrar em artistas e obras que já trabalham de alguma forma com referências a arte e cultura brasileiras, "sobretudo, com modernismo brasileiro, do meio do século, tanto arquitetura quanto artes visuais", parte de uma certa tendência de alguns criadores que "tentam buscar histórias alternativas de modernismo" e também referências sobre o neoconcretismo, impulsionado pela explosão internacional, a partir dos anos 1990, das experimentações de Lygia Clark e Hélio Oiticica. "Não podemos dizer que Portinari, Tarsila e Guignard vão fazer parte da história da arte como Lygia Clark, Hélio Oiticica ou Lygia Pape", completa Pedrosa. "Desta vez, estou buscando artistas que se engajam mais com a arte e com a cultura brasileira, não apenas aquele viajante estrangeiro que vem até aqui e registra imagens."

São artistas basicamente latinos e europeus, de uma geração nascida nas décadas de 1960 e 70, que participam da mostra (Pedrosa também é de 1965). Além dos residentes - alguns deles nunca estiveram no Brasil -, o curador conta que estarão no Panorama: o alemão Franz Ackerman, a italiana Luisa Lambri, o mexicano Damián Ortega e o inglês Cerity Wyn Evans (este com um trabalho com explosivos e uma frase de Caetano Veloso), todos eles com forte relação com o País, e o argentino Nicolas Guagnini.

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