Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Artista descobre atual endereço do local que recebeu exposição histórica de Anita Malfatti

Prédio na Rua Líbero Badaró, no Centro de São Paulo, passou por mudanças de numeração ao longo dos anos; pesquisador contou com a ajuda do Acervo do 'Estado'

Pedro Rocha, Especial para o Estado

27 Janeiro 2019 | 03h00

O gerente do restaurante Pirandello, que ocupa o andar térreo do número 332, na Rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, não parece acreditar ao ouvir que foi lá, em 1917, que Anita Malfatti realizou a sua icônica Exposição de Pintura Moderna. “Acho que pode ter sido no (edifício) Sampaio Moreira aqui do lado”, opina Erick Abreu.

Não foi. Na época, o Sampaio Moreira, primeiro arranha-céu de São Paulo, ainda não havia sido nem construído. O real endereço da exposição de Anita, ponto fundamental para o início do movimento modernista brasileiro, já foi citado inúmeras vezes pela própria pintora, em entrevistas, e aparece em registros históricos. Foi na Rua Líbero Badaró, 111. A rua, porém, passou por algumas mudanças de numeração ao longo dos anos e a memória do local histórico “se perdeu”.

Durante pesquisas e estudos sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, o artista plástico Edgard Santo Moretti se interessou especialmente pela figura de Anita Malfatti. Lendo sobre a pintora, se deparou com o endereço da exposição e teve a curiosidade de saber onde, na atual rua Libero Badaró, aconteceu a mostra. 

Sem conseguir encontrar o endereço certo, no dia 12 de dezembro de 2017, nos cem anos da exposição, Moretti reuniu amigos artistas e dançarinos na rua, com figurino de época. Mas não sossegou. “Mais eu lia sobre a exposição, mais me angustiava não saber o ‘local físico’ da mostra”, relata o artista.

Recentemente, Santo Moretti teve a ideia de consultar o registro de emplacamento da região, no acervo do Arquivo Histórico Municipal (AHM) de São Paulo. “Descobri que o número 111 começou a constar em 1915, depois mudou em 1928 para o número 43, e em 1936 mudou para 332”, explica Edgard. “Depois, descobri que, desde 1936, os números não mudaram naquele trecho da rua.”

O artista foi até o local e viu, pela primeira vez, o prédio, vizinho ao Edifício Sampaio Moreira, ainda de pé. Mas precisava de mais provas. Foi quando decidiu buscar por mais informações no Acervo do Estadão, disponível na internet. Encontrou uma foto que mostrava, ao fundo, os dois prédios. O suspeito de ser o número 111 da Rua Libero Badaró contava com um letreiro da empresa Brasital S/A. “Continuei pesquisando e encontrei anúncios da Brasital, com o endereço de Rua Libero Badaró, 111, nos anos de 1919, 1921 e 1927”, relata. 

Com a certeza de que se tratava do prédio, Edgard voltou ao Arquivo Histórico Municipal e teve acesso às plantas do edifício, onde conseguiu as provas finais. Em depoimentos resgatados pelo livro Anita Malfatti no Tempo e no Espaço, biografia escrita por Marta Rossetti Batista, a pintora relata que sua exposição ocorreu na Rua Libero Badaró, número 111, num salão térreo cedido pelo Conde de Lara. Na planta do edifício, disponível no AHM, consta a propriedade de Antonio de Toledo Lara, o Conde de Lara. 

Todos os documentos, posteriormente, foram verificados pelo Estado, em visita ao acervo do AHM. Atualmente, o prédio mantém as mesmas estruturas da planta original. As modificações, que vieram depois, também estão documentadas no órgão de registro. 

Santo Moretti se sente feliz pela descoberta. “Encontrei uma bela história!”, ele comemora. Em suas mãos, segura a biografia escrita por Marta Rossetti Batista, que serviu de referência, e um livro improvisado, feito por ele próprio com suas pesquisas.

Hoje, no salão térreo, está o restaurante Pirandello. No prédio, seus atuais moradores desconheciam a história. Mesmo tendo uma grande relação com arte, o cineasta Luciano Cury, proprietário do quinto andar - piso que não estava na planta original - só descobriu sobre a exposição quando Edgard entrou em contato. 

Além de Cury, um cenógrafo mantém seu escritório no prédio. Até poucos anos atrás, a revista de arte Amarello também funcionava no prédio. Mesmo com a memória da célebre exposição de Anita Malfatti por muito tempo esquecida, o edifício de atual número 332 na Rua Libero Badaró, com vista privilegiada, em seus apartamentos, para o Teatro Municipal de São Paulo, continua respirando arte.

Mostra fundamental 

Às 15h do dia 12 de dezembro de 1917, Anita Malfatti abriu a sua Exposição de Pintura Moderna, como ela própria intitulou. Pela primeira vez, apresentou quadros que, hoje, fazem parte da lista de obras-primas do modernismo brasileiro, como O Japonês e Homem Amarelo, quadro este comprado por Mário de Andrade, dando início à amizade entre eles, que ainda não se conheciam. 

“A exposição foi muito importante porque deu uma chacoalhada no meio artístico, apresentou uma série de trabalhos absolutamente diferentes do que estava sendo feito”, explica Regina Teixeira de Barros, curadora responsável pela exposição Anita Malfatti: 100 Anos de Arte Moderna, realizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2017. “Mesmo na exposição de Lasar Segall que houve antes, muitos trabalhos ainda estavam voltados para o impressionismo, com um teor de novidade que não chegou a incomodar.”

O futuro da mostra de Malfatti - assim como o futuro de toda a arte moderna brasileira - ganhou um novo rumo quando Monteiro Lobato visitou a exposição e escreveu, para o Estado, no dia 20 de dezembro de 1917, o texto crítico A Propósito da Exposição de Malfatti, mais tarde transformado em Paranoia ou Mistificação?, no livro Ideias de Jeca Tatu, lançado pelo escritor em 1919.

Com críticas pesadas ao conteúdo da mostra, o texto é considerado o estopim para a reunião dos artistas e críticos do modernismo brasileiro, que culminou com a Semana de Arte Moderna de 1922. 

“Os críticos, como Mario de Andrade, alavancaram muito o modernismo por conta dessa crítica, transformaram a Anita num mártir”, acredita Teixeira de Barros, que, no entanto, vê a crítica a Malfatti com outros olhos. “Se você ler com calma, ele fala muito mal da arte moderna, mas elogia Anita, reconhece nela um grande talento.”

Para Barros, Anita era uma mulher autônoma e consciente de seus passos no mundo da arte. “Não entendo a pintura dela como o resultado de uma fragilidade de uma moça de classe média com problemas.”

A curadora acredita que a ideia de fragilidade da figura de Anita foi erroneamente perpetuada por historiadores. “Se apoiam muito na crítica brasileira, muito calcada no Mario de Andrade, que tem seu mérito, mas sem olhar para o trabalho dela.”

Registro no 'Estado'

A histórica mostra de Anita Malfatti em 1917 teve registro no Estado. Nas edições do jornal em 23 e 25 de dezembro, foram publicadas a lista de visitantes da exposição. As publicações, disponíveis no Acervo do Estado, que pode ser acessado pela internet, confirmam também o local em que foi realizada, na Rua Libero Badaró, número 111.

Também no site do Acervo, é possível ler, na íntegra, ao texto original A Propósito da Exposição Malfatti, escrito por Monteiro Lobato em 20 de dezembro de 1917, em que opina sobre a mostra da pintora. Apesar de ter sido, inicialmente bem elogiada, a exposição não encantou o autor. Suas críticas, no entanto, conforme ele diz no texto, são também um elogio. “Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma opinião sinceríssima.”

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