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Artista carioca exibe obras icônicas da ditadura militar

Maleta do tipo usado pelo agente secreto com pregos no interior é um dos destaques

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2016 | 04h00

Em cartaz na Galeria Raquel Arnaud, a exposição Carlos Zilio 1973/1977, do artista carioca, um resistente que sobreviveu à ditadura, traz de volta para o conhecimento das novas gerações suas obras icônicas produzidas no período mais sangrento do regime, entre elas a peça Para um Jovem Executivo Brilhante (1973), maleta de executivo apelidada na época de 007 por sua semelhança com a do agente secreto James Bond. A mostra reúne 20 obras selecionadas pela curadora Luísa Duarte, entre gravuras, fotos e objetos.

A maleta de Zilio ganha um novo significado 43 anos depois. Se, antes, ela foi usada como representação alegórica do jovem que se mantinha à parte da discussão política, focado em segurança e ascensão, hoje ela é um alerta sobre as armadilhas do sistema para a nova geração de alpinistas sociais. Aberta, ela revela seu interior perigoso, cheio de pregos com pontas viradas para cima, alertando os futuros executivos sobre os riscos desse sonho de ascensão que desconsidera o semelhante.

Os pregos reaparecem numa série de gravuras – os melhores trabalhos da mostra – em que são agrupados igualmente como um batalhão ameaçador. A diferença na versão bidimensional equivale à distância entre as instalações e esculturas com pregos do alemão Gunther Uecker, veterano de 86 anos, e seus desenhos dos anos 1960, que usavam esses mesmos pregos para criar ilusão cinética. Mas, ao contrário de Uecker, um dos expoentes do grupo Zero ao lado de Heinz Mack, Zilio, 72, nunca teve particular interesse na op art.

Militante político nos anos 1970, ele foi ferido em confronto com policiais e, preso, retomou sua arte com poucos recursos (papel e caneta hidrográfica), trabalhos que só foram mostrados pela primeira vez há 20 anos – Zilio, professor de arte e sempre discreto, temia a glamourização de sua militância. Assim, sua mostra ganha dupla importância, não só por resgatar essas obras, mas por reafirmar seu compromisso de dizer muito com pouco.

CARLOS ZILIO 1973/1977

Galeria Raquel Arnaud. Rua Fidalga, 125, tel. 3083-6322. 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 12h/16h. Grátis. Até 14/1/2017

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