Arthur Miller: um filho em segredo

Revista revela que o dramaturgo era pai de um downiano, que escondeu em hospital e com quem quase não conviveu

Oliver Burkeman, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

Arthur Miller teve uma vida muito mais pública que a maioria dos dramaturgos. Afinal, o autor de A Morte do Caixeiro Viajante se casou com Marilyn Monroe. Entretanto, um dos momentos mais carregados de emoção de sua vida era desconhecido do público até esta semana. O fato aconteceu em 16 de setembro de 1995, nos escritórios de uma empresa de planos de saúde em Connecticut. Miller comparecera a um fórum de especialistas para falar em defesa de Richard Lapointe, um homem com danos cerebrais cuja condenação por assassinato sempre fora considerada suspeita, e um grande número de ativistas deficientes estava presente na audiência. Dizem que Miller ficou ''''chocado'''' quando um deles, perto dos 30 anos e com síndrome de Down, correu para ele e o abraçou.''''Chocado'''' é, provavelmente, um eufemismo: o homem era Daniel Miller, o filho cuja existência o dramaturgo jamais confirmara publicamente, e a quem havia internado numa instituição desde a infância, quase nunca o visitando, não falando nele, e excluindo-o de suas memórias. Mas em Connecticut, naquele dia, o pai recuperou a compostura. ''''Deu um grande abraço em Danny'''', recordou um espectador. Tiraram foto juntos. E seguiram suas vidas separadas.Esse encontro é descrito na última edição da revista Vanity Fair, numa investigação que abalou o mundo do teatro de Miller - cujas peças ferozmente morais expuseram o desespero que era o reverso do sonho americano. A existência de Daniel Miller havia sido mencionada numa biografia não autorizada de 2003. Agora, a revista aponta para a prolongada luta privada de Miller com a culpa pelo banimento do filho, culminando com o que parece uma tentativa de reparação: seis semanas antes de morrer em 2005, ele reescreveu seu testamento para tornar Daniel beneficiário junto com seus três outros filhos.Daniel foi o segundo filho de Miller com sua terceira esposa, a fotógrafa Inge Morath, que ele conheceu quando ela veio fotografar Monroe no set de Os Desajustados. Sua primeira filha, Rebecca - atriz e diretora -, se encaixou facilmente no estilo de vida glamouroso do novo casal. Mas alguns dias depois do nascimento de Daniel, supostamente em 1966, Miller teria telefonado para seu amigo Robert Whitehead, produtor da Broadway, e dito a ele que o novo bebê não era ''''direito''''. ''''Arthur estava terrivelmente abalado'''', recordou Whitehead. ''''Ele usou o termo mongolóide e disse: Vou ter de internar o bebê.''''Christopher Bigsby, autoridade acadêmica em Miller, disse que o dramaturgo havia explicado em parte sua decisão numa conversa anos atrás. Miller teve um primo com síndrome de Down ''''e vira o impacto disso na família e num garoto que se julgava contra os que o cercavam''''. A maior proximidade de Miller com seu filho na velhice parece ter sido inspirada, em parte, por Daniel Day-Lewis, que se casou com a filha de Miller, Rebecca, e que havia interpretado um homem com paralisia cerebral no filme Meu Pé Esquerdo. Day-Lewis ficou ''''estarrecido'''' com o tratamento que Miller dava a Daniel, segundo Vanity Fair, e pode tê-lo convencido a comparecer a uma das avaliações anuais do filho por assistentes sociais no fim dos anos 1990. O dramaturgo ''''ficou atônito'''', recordaram os assistentes sociais.Daniel Miller estava vivendo de maneira independente e era bom em esportes, vindo a competir nas Olimpíadas Especiais. ''''Ele ficou espantado por Danny ser capaz de viver por conta própria. Dizia e repetia: ''''Eu jamais teria sonhado isso para meu filho. Se vocês me tivessem dito quando ele começou que poderia chegar a esse ponto, eu jamais teria acreditado.'''' E dava para ver seu sentimento de orgulho.'''' TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.