Arte sacra na rota dos navegantes

Caminhos da Fé reúne 70 peças adquiridas em países de colonização cristã, na Ásia e nas Américas

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2009 | 00h00

Inspirado pelas Grandes Navegações, durante cerca de 40 anos, o casal franco-brasileiro Jacques e Maria Helena Boulieu empreendeu uma rota de viagens pelo Brasil, pela América Latina e Ásia, com específico interesse no testemunho artístico das colonizações portuguesa e espanhola, surgidas a partir do século 15. Jacques, radicado no País desde 1953, lembra que a busca por novo caminho para as Índias, e mais tarde por metais preciosos, resultou em novas e riquíssimas civilizações convertidas ao catolicismo. A paixão pela arte sacra fez com que o casal Boulieu acumulasse ao longo das décadas milhares de peças representativas dessa fé cristã, adquiridas entre as décadas de 1950 e 1990 em diversos Estados brasileiros, nos vizinhos latinos do continente e em outras nações, como Índia, Sri Lanka e Filipinas.Como parte das comemorações do Ano da França no Brasil, uma representação desse expressivo acervo foi pinçada para a exposição Caminhos da Fé, aberta na segunda-feira no Centro Cultural e Turístico da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), em Ouro Preto (MG). A mostra, na verdade, é a introdução de um projeto bem maior. Num gesto de desprendimento, Jacques e Maria Helena decidiram doar à Arquidiocese de Mariana aproximadamente mil peças da rica coleção, para que a antiga Vila Rica abrigue um novo e inédito museu sacro no Brasil - também com o nome de Caminhos da Fé, sugere o francês -, que contemple toda a diversidade da arte religiosa garimpada nas ex-colônias europeias. Atualmente, o casal Boulieu realiza um minucioso inventário das peças que serão cedidas. Ao mesmo tempo, realizou um trabalhoso processo de concisão para selecionar as cerca de 70 peças dos séculos 16 ao 18 que compõem a exposição, uma amostra do extenso acervo. Estão expostas imagens esculpidas em diferentes materiais, que retratam o caráter nativo que se imprimiu ao padrão europeu da arte sacra. Entre elas, Jacques destaca as feitas em marfim na Índia e uma pequena Pietà produzida com o mesmo material no antigo Ceilão, atual Sri Lanka, que ficou um século e meio sob domínio português. Santos católicos esculpidos por artesãos filipinos, pratarias do Equador, Bolívia e Guatemala, além de imagens da Escola de Cuzco, um centro colonial de pinturas religiosas do Peru, cuja originalidade está na mescla da tradição barroca com a influência indígena, também integram a mostra.A exposição é uma oportunidade para se comparar a influência das tradições colonizadoras nesses países e no Brasil, mas Jacques observa que em nosso território as diferenças também são significativas. Se a madeira era um elemento comum, nas Minas Gerais, por exemplo, floresceu a arte em pedra-sabão e, no Nordeste, a confecção em terracota (argila levada ao forno). "Uma imagem baiana e uma imagem mineira costumam ter estilos bem diferentes", ressalta. "Este patrimônio, de origens tão diversas, fato raro no Brasil, forma um conjunto rico e coerente."Para ilustrar a ideia dos caminhos da fé, o visitante terá como recepção um mapa de oito metros, que identifica as rotas dos grandes navegantes. Outro mapa menor destaca os territórios que os europeus conheciam em 1450, antes da expansão marítima. "O restante, que é enorme, eles não conheciam. Em 100 anos de navegação, eles praticamente alcançaram o mundo inteiro."Jacques e sua mulher, de origem mineira, iniciaram a coleção com duas imagens baianas, adquiridas no fim dos anos 1950. Ele, ainda jovem, havia chegado ao Brasil para passar "três meses". Encantou-se com o país tropical e estabeleceu-se em São Paulo. Trabalhou por 15 anos como produtor de documentários do jornalista e fotógrafo francês Jean Manzon. Depois, tornou-se representante para a América Latina de uma grande empresa francesa, tendo percorrido o continente da Terra do Fogo, na extremidade sul, até sua fronteira no norte. Foi justamente nos intervalos ou folga dos compromissos de trabalho, em viagens nos fins de semana a diversas regiões do País, ou em incansáveis férias pela Ásia, sempre ao lado de Maria Helena, que o acervo sacro - que já chegou a 5 mil peças - foi formado."Nossa coleção é formada principalmente por oratórios, de tamanho médio e pequeno. Algumas peças são maiores, mas em geral são peças domésticas, adquiridas em Minas e no Nordeste", salienta. Caminhos da Fé conta com apoio da Associação Franco Brasileira para Cultura e Cooperação e Fiemg e fica aberta até 21 de junho.

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