Arte popular à espera de um museu

No Estado do Rio, 500 obras brasileiras aguardam negociação com prefeitura

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2009 | 00h00

Distante 180 quilômetros da capital do Estado do Rio, Barra de São João, pequeno distrito de Casimiro de Abreu, orgulha-se de ser a terra natal do poeta romântico que dá nome ao município. Em breve, poderá também se gabar de ter um museu de arte popular digno de cidade grande. As 500 obras destinadas a ele, reunidas durante 50 anos por um professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e compradas após sua morte por um megacolecionador português, estão guardadas, à espera de um teto. Um casarão do século 18 já foi escolhido e poderá abrigá-las. Agora tudo depende da liberação da prefeitura local. A ideia partiu do produtor cultural francês Romaric Büel, ex-adido do Consulado da França no Rio, que se apaixonou pelo bucolismo da paisagem de Barra de São João cinco anos atrás. Amigo do bilionário português Joe Berardo, Büel o apresentou à coleção do professor Paulo José Pardal há dois anos, três depois de sua morte. Berardo, dono de Picassos, Mirós, Dalís, Pollocks, e Mondrians, entre muitos, muitos outros mestres da pintura mundial, não conhecia a arte popular brasileira. Ficou encantado - não só pela qualidade dos trabalhos, mas especialmente pela dedicação de Pardal à formação da coleção. "Foi uma surpresa muito agradável. Se ninguém comprasse, a coleção acabaria sendo vendida em leilões, dividida. As obras fazem parte da história do Brasil e devem permanecer no País, juntas", diz o mecenas. Ele tem particular apreço pelas carrancas do Rio São Francisco, também o xodó de Pardal, autor de um livro sobre elas. São cerca de 50 imagens em madeira retirada das proximidades do rio. Os autores são o artista baiano Francisco Guarany (1884-1985), apontado por quem entende como um de nossos mais notáveis carranqueiros, e seu filho Ubaldino. As carrancas eram originalmente utilizadas por barqueiros para proteger suas embarcações de seres sobrenaturais que habitariam o rio - têm feições assustadoras e longos caninos à mostra. "Fiquei fascinado. Na Europa o que se vê é a figura de uma mulher, pois o objetivo é encantar o mar", conta Berardo, que tem título de comendador.Tido como o maior conjunto do gênero - que desde a segunda metade do século 20 passou a ser também apreciado como obra de arte, com peças expostas em museus e usadas na decoração de residências -, está atualmente na casa de veraneio de Büel em Barra de São João, vizinha à da família Pardal. Outra parte relevante da coleção, as esculturas de Francisco Moraes da Silva (1936- 2007), o Chico Tabibuia, se destacam pela imponência - algumas têm dois metros de altura, sendo que as peças são inteiriças, sem encaixes. Tabibuia é um artista da região de origem paupérrima, cuja fama deixou Barra de São João, correu o Brasil e chegou a Paris, durante o Ano da França no Brasil.Foi na década de 70 que Pardal conheceu o homem simples, autodidata, lenhador por profissão, que entalhava em grandes peças de madeira tabibuia (daí o apelido), extraídas com as próprias mãos da Mata Atlântica, e que dizia que só representava "o que Deus fez". Logo o professor percebeu o talento que mais tarde seria reconhecido pelos críticos de arte. Comprou mais de cem obras, de conotação ora religiosa, ora erótica, como as de pênis de grandes proporções. Tabibuia morreu pouco depois da ida de Berardo a Barra de São João para conhecer o acervo de Pardal. Na casa de Büel também estão guardados dois anjos de mais de dois metros de altura, datados do século 18. Eles carregam a assinatura do baiano Manuel Inácio da Costa (1763-1857), considerado o maior escultor baiano do século 18 e apelidado de "Seis dedos" por sua habilidade fora do comum. Os anjos já pertenceram à Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em Salvador (muitas obras de Costa estão em templos católicos da cidade), acabaram no Rio ao serem compradas por donos de fazendas e foram mais tarde adquiridas pelo professor."Meu pai viajava muito à procura de obras de arte, aproveitando as palestras sobre produtividade industrial que dava. Costumava dizer que, um dia, nada daquilo iria mais existir, então era preciso preservar", lembra Maria Vittoria Pardal, sua filha, responsável pela venda a Berardo.Os valores nenhum dos envolvidos na transação divulga, receosos que estão quanto à segurança da coleção, que também é composta de arte sacra dos séculos 18, 19 e começo do 20; ex-votos (pés e cabeças de madeira esculpidos por artesãos anônimos e outros modelados em ouro e prata); obras de barro do Vale do Jequitinhonha e de Mestre Vitalino. Uma pequena parte é de peças de origem africana.Pelo projeto apresentado à prefeitura de Casimiro de Abreu, o Museu de Arte Popular teria uma área de 500 metros quadrados. Alugado pelo município, o casarão colonial branco de janelas azuis, à beira do Rio São João, ocupado por uma biblioteca pública, foi o escolhido, mas precisa passar por uma grande reforma. As instalações hidráulica e elétrica têm de ser revistas, o piso de madeira, original, tem de ser refeito. Há infiltrações nas paredes e infestação de cupins. "O Ministério do Turismo já tinha liberado R$ 700 mil. O problema é que agora a prefeitura condicionou a liberação do casarão ao restauro de um outro imóvel, pelo comendador. Ele está desapontado, e eu também", diz Büel. Seu sonho é criar um polo cultural no distrito, que incluiria o museu, a Casa de Cultura de Casimiro de Abreu, na qual o poeta passou a infância contada em seus versos (já restaurada pelo governo do Estado); a praça ao lado, onde fica sua estátua, de bronze, "olhando" para as águas do São João ; a Capela de São João Batista, de 1619, que tem nos fundos um cemitério onde o autor de Meus Oito Anos foi enterrado, em 1860. A cidade, de cerca de 30 mil habitantes, fica entre Búzios, Cabo Frio e Rio das Ostras, conhecidos destinos praieiros que atraem visitantes brasileiros e estrangeiros. Caso não se chegue a um acordo, a coleção sairá de Barra de São João - outros municípios já estão interessados. Ou pode seguir para Portugal. A prefeitura ainda não se pronunciou sobre o assunto.

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