Arte é o assunto menos discutido pelo cyborg do pincel

Frio como um autômato, Warhol fala de pessoas que o rodeavam como títeres de um circo de bizarrices

, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2008 | 00h00

Uma das reveladoras passagens de A Filosofia de Andy Warhol diz respeito à experiência do artista diante da morte. Ele não conta as maluquices que aconteciam na Factory, como a do italiano que forçou Paul Morrisey a praticar roleta-russa. Warhol prefere falar do atentado em que surge como heróico sobrevivente dos três tiros disparados pela radical feminista Valerie Solanas (1936-1988) contra ele há 40 anos. Já haviam se passado sete anos quando o livro apareceu, mas o trauma permanecia. "Se eu não fosse famoso, não teria levado três tiros por ser Andy Warhol" , reflete, para logo em seguida dizer que, apesar disso, tinha uma boa razão para não desprezar a fama: poder ler todas as grandes revistas e conhecer todo mundo em todas as matérias.Reflexões superficiais como essa traduzem o mecanismo do comportamento de Warhol, que age como um autômato, um cyborg pop sem culpa por não ter sentimentos e ver o mundo como um circo povoado de mulheres barbadas, travestis prostitutos, gigolôs atores e falsos artistas. A respeito de um filme que produziu para Paul Morrissey, Mulheres em Revolta (Women in Revolt), agora lançado no Brasil pelo selo Magnus Opus, Warhol comenta que os três travestis envolvidos nesse precário libelo do movimento de liberação feminina deveriam ser até mais reverenciados que as próprias mulheres, por terem de trabalhar tanto para ser livrar dos traços masculinos e assimilar os femininos.Convertendo solidariedade em fria misoginia, Warhol fala desses travestis como "hiperestrelas" cujos talentos eram "difíceis de comercializar", o que talvez explique a raiva de alguém como Valerie Solanas, que, na época do atentado, era fundadora e única integrante da Scum (Society for Cutting Up Men, ou, uma tradução livre, Sociedade para Castrar Machos) e havia cedido ao artista e produtor os originais de sua peça Up Your Ass, jamais produzida por seu conteúdo obsceno. De qualquer modo, os três tiros tiveram um impacto profundo na obra de Warhol, embora ele fale pouco de arte no livro. E, quando fala, é para dizer boutades como "artista é alguém que produz coisas que as pessoas não precisam ter".

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