Arte e maniqueísmo

Dois personagens apropriados da ficção saíram das telas para intervir no mundo real. Aconteceu nesta semana no interior do Estado.Em Presidente Prudente. O ajudante-geral Vandeir Máximo da Silva, o Vlad, é acusado de vampirismo por ter mordido com seus dentes caninos lixados e pontiagudos e bebido o sangue de 17 discípulos que seduziu pela internet. Conhecido como o ''''vampiro de Presidente Prudente'''', gótico assumido, ele explica que há vampiros do mal e do bem. Felipe, de 15 anos, uma das suas vítimas, ficou decepcionado, porque Vlad mordeu o seu pescoço e não virou vampiro.Em Palmeira, cidade de 2 mil habitantes. Riquelme Wesley dos Santos, de 5 anos, salvou a filha de Lucilene Córdova dos Santos, Andrieli (de 1 ano e 10 meses), vizinha cuja casa pegava fogo. As labaredas assustavam a mãe. Até o menino vestido com o uniforme do Homem-Aranha aparecer: ''''Não chora, tia, fica tranqüila que eu salvo a sua filha.'''' Ele atravessou as chamas e puxou Andrieli pela perna, porque ''''o Homem-Aranha não tem medo de nada'''', disse. A família quis recompensá-lo, mas o super-herói que arriscou a vida não aceitou.A arte não imita a vida apenas, mas serve para intervir nela. É exemplo e inspira, para o bem e para o mal. Apropria-se da invenção, para modificar o real: a realidade reloaded. Santo Apolo, quando Batman aparecerá em Brasília, para acabar com tantos Curingas?A Culpa É do Fidel, de 2006, foi um filme pouco comentado da última Mostra de Cinema. Não estava na lista dos mais badalados, nem as suas sessões lotaram. É o primeiro longa dirigido por Julie Gavras, de 37 anos, filha do cineasta Costa-Gavras, autor de filmes que carimbaram um período, como Z, Estado de Sítio e Desaparecido.Costa-Gavras não realizou um cinema de vanguarda, nem inovou a linguagem, como tentaram muitos cineastas que cruzaram arte e política. Sempre com uma narrativa linear e didática, sem negar Hollywood - até usou Jack Lemmon e Sissy Spacek -, mostrava ao público de ressaca dos anos 60 e que se embalava em discotecas, para o corpo ficar Odara, os abuso, absurdos e conseqüências cometidas por ditaduras na Grécia, no Uruguai e no Chile, peças da polaridade ideológica da guerra fria. Ele apontou a grande contradição da luta geopolítica: para combater o comunismo, em defesa do mundo livre, os Estados Unidos não se acanhavam em derrubar democracias e apoiar regimes que torturavam. O cineasta grego chamou o mundo à razão. O discurso político dos seus filmes estava na ação. Exibiam o que acontecia por trás da cortina de fumaça da censura e contrapropaganda.Desaparecido, de 1982, mudou o apoio da opinião pública e a política externa norte-americana para o Chile, ao mostrar o desaparecimento de um jovem americano, Charles Horman, que tinha provas do envolvimento da CIA na derrubada do governo socialista de Salvador Allende. Estado de Sítio foi o primeiro filme a falar da tão negada cooperação entre militares argentinos, uruguaios, chilenos e brasileiros, na caça de inimigos de esquerda, a Operação Condor. Se alguém se pergunta se a arte serve para alguma coisa, pense em Costa-Gavras, que interveio na história.A Culpa É do Fidel se passa entre 1971 e 1973 em Paris. Como foi exibido com legenda eletrônica na Mostra, suspeito que não entre em cartaz. Lembra Minha Pequena Miss Sunshine, por ter uma protagonista pré-adolescente cativante (a atriz Nina Kervel-Bey), um humor simples e inteligente.Anna de la Mesa, de 9 anos, tem uma vida pacífica e comum, dividida entre a escola católica e a família, que mora numa grande casa com quintal. Mas os pais alienados decidem fazer algo pelo mundo, depois da prisão e morte do tio espanhol, um comunista convicto perseguido pelo regime franquista. Ajudam o regime socialista e democrático recém-implantado no Chile. Tornam-se engajados políticos.Ativistas barbudos que fumam e discutem política o tempo todo começam a freqüentar o pequeno apartamento para onde o casal se muda e que vira um ponto de encontro. A mãe (Julie Depardieu, filha de Gerard Depardieu) se envolve com feministas que lutam pela liberação do aborto, enquanto a conformista Anna, apelidada de reacionária (''''múmia'''') pelo pai, tenta explicar aos intrusos de esquerda que, sem o lucro (mais-valia), ela jamais se interessaria em melhorar os produtos da sua empresa.Anna é proibida pelos pai de assistir a aulas de catecismo, o que ela amava. Através das babás, uma cubana anticomunista ferrenha e uma vietnamita exilada pelos comunistas, ela convive com algumas vítimas desses regimes. Ela tem a sua vida confortável virada do avesso. Engajamento político, altruísmo e solidariedade levam uma família à desordem: troca de babás, novos rostos e discriminação.É uma maneira bem-humorada e realista que a filha de Costa-Gavras teve para contar a sua versão da história e exibir os ridículos de uma época polarizada. Quem não teve amigos que não bebia Coca-Cola, para não dar dinheiro aos imperialistas?O maniqueísmo ridículo (bem versus mal) continua no Brasil, com a birra entre PT e PSDB: quando um está no poder, o outro o boicota, como no caso da CPMF, e o Brasil pára. Não há debate vertical sobre o imposto. Um partido não quer que o outro tenha R$ 40 bilhões a mais no orçamento. Um quer que o outro não administre com folga, nem melhore o País.O duelo é sem sentido, já que ambos nasceram na mesma época e berçário - a luta contra a ditadura e o projeto de uma nova esquerda socialista, pacifista, democrática, distante das influências do antigo PCB - e se aliam a frentes antagônicas para se degolarem.Não é segredo que José Serra tem mais afinidades com parte do PT do que com parte do próprio partido, como no caso da CPMF. Assim como Lula tem mais afinidades com a esquerda do PSDB do que com a maioria do seu ministério. Tal conflito político revela uma faceta da contradição humana: nos aliamos ao inimigo, para combater nosso amigo próximo. Será que é assim em outras atividades? Nos aliamos aos que odiamos, para competir com quem amamos?Lula defende a democracia de Chávez. ''''Por que también non te callas?''''

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