Arte construída com sentimentos profundos

Com temores, angústias, laivos de alegria e conhecimento das misérias humanas, moldou os personagens mais emblemáticos

Maria Thereza Vargas, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Em uma revista editada em São Paulo chamada Teatro Brasileiro, (nº 1, novembro de 1955), Cacilda Becker declarava: "Sinto-me no começo de uma carreira apaixonante (...) Obtive duas medalhas de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, no Rio de Janeiro, em 1951 e 1954. Dou-lhes o valor daquilo que representa: a vitória sobre meus temores, minhas angústias e sofrimento a cada vez que se levanta a cortina para uma nova estreia. Estou definitivamente comprometida com o Teatro."Seus mestres, até então, tinham sido: Esther Leão, Sadi Cabral, Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jacobbi e por que não? - Décio de Almeida Prado que, em seu Teatro Universitário, lhe mostrou ainda nos anos 40 que o teatro, além de divertimento fácil, poderia conter momentos de aprendizado.Não que desdenhasse do repertório ligeiro. Este lhe havia exigido paciência, perseverança e, paradoxalmente, a certeza - já que não fugira, nem se amedrontara - de que realmente tinha escolhido a profissão exata, na qual, passo a passo, iria construir o seu destino, na vida e no palco, entre realidade e ficção, assumidas como inseparáveis. Da vida das personagens não conhecia muito. Havia pressa em construí-las, da noite para o dia, na troca incessante de repertório. A jovem praiana que viera de Santos para o Rio de Janeiro cheia de sonhos e encantos pela Capital Federal tinha que se acostumar ao ritmo acelerado, aos textos incompletos e às "deixas" que recebia dos companheiros para levar adiante a representação. Coisa muito estranha para ela, habituada à dança e seu fraseado completo. Mas de qualquer modo esse início de carreira ensinou-lhe atenção, aguçou sua vivacidade e argúcia, possibilitando, nesse primeiro estágio profissional, encontros com atores mais experientes e, num certo sentido, modernos na interpretação, tentando uma naturalidade em cena: Sadi Cabral, Raul Roulien e Laura Suarez, que já não enfatizavam palavras nem cantavam o texto.O encontro com Ziembinski deu-se em 1947, no grupo Os Comediantes. E aquilo que intuía ser uma realização perfeita materializou-se: a ela foi oferecido um texto inteiro e uma leitura explicativa de sua personagem, suas relações e significados. Encontrara um guia, muito embora ele tenha dito, em um momento de exasperação: "Você nunca será uma atriz!" Isso porque ela esquecera algumas frases de uma ?fala? mais longa. Verdadeiro sacrilégio para as novas concepções da época. A advertência de quem tanto admirava e a quem elegera seu primeiro mestre foi, na verdade, um desafio. Perdoando-a, Ziembinski fez dela uma atriz.A partir de 1948, entrando para o Teatro Brasileiro de Comédia, estava consciente de que das artes do teatro conhecia ?truques de cena? (mistérios dos palcos humildes) e mais do que isso, que havia aprendido com Ziembinski e Turkov, nos Comediantes que só o cultivo de uma verdade interior conseguiria tirar das sombras almas apenas esboçadas, transformando-as em ato artístico. Treinada nas agruras da antiga vida profissional, empenhava-se e cumpria - não sem discussões - o que lhe propunham os quatro diretores da casa, também eles com suas especificidades: comédias, dramas e tragédias, gêneros então bem definidos. Textos conflitantes reforçando seu aprendizado tornando-a uma atriz de vários matizes. Com Ziembinski aprendera a beleza dos gestos e o segredo da musicalidade das palavras; com Luciano Salce, a sutileza nos textos cômicos ou dramáticos; com Adolfo Celi, o dilaceramento, a angústia que precede a criação e que por vezes se insinuavam no trabalho final; com Ruggero Jacobbi, a vastidão do saber que a fascinava desde a infância.Mas o que a tornava verdadeiramente grande? Qual o cerne de suas melhores criações? Estudos de voz e corpo, conhecimento de estilos, de uma certa forma, seriam exterioridades, à espera de serem moldados por sentimentos profundos, formadores de seu verdadeiro eu: temores, angústias, laivos de alegria e um profundo conhecimento das misérias humanas. Com tudo isso construiu sua arte a caminho das últimas personagens emblemáticas: Floripes, Marta e Estragon. Ajudada por Walmor Chagas, Maurice Vaneau e Flávio Rangel pressentia que havia encerrado um ciclo, iniciado com alegria e esperança, em Dias Felizes com o Teatro do Estudante carioca. Maria Thereza Vargas é pesquisadora de artes cênicas e autora em parceria em Nanci Fernandes do livro Uma Atriz: Cacilda Becker (Perspectiva)

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