Alex Silva
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Arte conceitual entre os livros

Exposição na Biblioteca Mário de Andrade reúne artistas históricos como Kosuth e Beuys

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2017 | 04h00

A data redonda do centenário do primeiro ‘ready-made’ do artista francês Marcel Duchamp, Fonte (1917), e do cinquentenário do manifesto pioneiro da arte conceitual, Paragraphs on Conceptual Art (1967), do norte-americano Sol Le Witt, não poderia passar em branco na Biblioteca Mário de Andrade, agora sob direção do editor e colecionador de arte Charles Cosac. Com curadoria do crítico napolitano Jacopo Crivelli Visconti e da brasileira de origem belga Olivia Ardui, a exposição Acordo de Confiança, aberta até 9 de julho, reúne 30 peças, entre obras e documentos, de 21 grandes artistas conceituais, do precursor Joseph Kosuth, norte-americano que realizou a histórica obra One and Three Chairs (1965), ao chileno Alfredo Jaar, da geração imediatamente posterior (Kosuth tem 72 anos e Jaar, 61).

Kosuth, em One and Three Chairs, faz o amálgama de diversos movimentos que antecederam o conceitual, do dadaísmo à performance, questionando a definição clássica da obra de arte como sinônimo de beleza e perícia. Ele simplesmente abandona de forma drástica essa história consagrada para propor um novo tipo de arte. Nela, a presença material é o menos importante na constituição do trabalho. Nesse pioneiro experimento conceitual, Kosuth colocou uma cadeira real entre sua reprodução (com as mesmas dimensões reais) e uma definição da palavra “cadeira”.

O conceito, claro, deriva da Fonte do dadaísta Duchamp, um urinol de porcelana que há um século foi apresentado ao público como uma obra de arte, assinada com o pseudônimo R. Mutt, colocando por terra o mandamento de que uma peça artística precisa da habilidade de um artesão para ser considerada como tal. A marca das mãos de Duchamp em Fonte se resume à assinatura. Vale o conceito. Ou, nas palavras de Sol Lewitt: “O que uma obra de arte parece não é tão importante. Não importa a forma que venha a ter, ela tem de começar com uma ideia”. E ideias não faltam na mostra Acordo de Confiança.

Há, por exemplo, um envelope amarelo com uma fotografia do túmulo de Karl Marx, no cemitério Highgate, de Londres, que só pode ser aberto uma vez por ano, em 15 de setembro, dia em que o Lehman Brothers pediu concordata após incorrer em perdas bilionárias, no fatídico ano de 2008. Foi o jeito que o chileno Alfredo Jaar encontrou de “vender” sua ideia aos colecionadores, que se comprometem a cumprir a exigência do artista.

Colocar o conceito num plano mais elevado que o objeto faz do espectador passivo um criador ativo – e, como dizia o alemão Joseph Beuys, todo homem é um artista. Muitos dos frequentadores da Biblioteca Mário de Andrade ficaram intrigados com a réplica do urinol de Duchamp instalada em março no saguão, mas certamente saíram dali buscando uma resposta para a provocação.

Há outras peças intrigantes na exposição, inclusive um vídeo com a mais famosa performance de Beuys, I like America and America likes Me (Nova York, 1974), em que o artista passou três dias trancado com um coiote. Muitos viram o ato de Beuys como um comentário político da intervenção norte-americana no Vietnã. Outros, como um desafio à hegemonia da arte americana (o coiote, para os índios, transita entre o mundo material e sobrenatural). Beuys, a propósito, se via com um xamã tentando pacificar a América selvagem.

O certo é que a mostra inaugural da gestão Charles Cosac na Biblioteca Mário de Andrade tem algo de ritualística, no sentido de incorporar obras que, em sua época, foram recebidas com desconfiança – daí a razão da palavra “acordo” no título da exposição, propondo algo que o “pai da arte conceitual”, o nova-iorquino Seth Siegelaub (1941-2013), já preconizava nos anos 1960, a substituição de um sistema que transformou a arte em 'commodity' por uma visão mais generosa dirigida ao conceito imaterial, que ele via como o futuro da arte. Seigelaub, homenageado no ano passado com uma retrospectiva no Museu Stedelijk, em Amsterdã, também está na mostra, representado por um livro xerox de 1968 com 25 páginas, que contam com a participação de minimalistas como Carl Andre e Sol Lewitt. É um material raro, como as cartas de Calder e o vídeo de Beuys. Não perca.

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