Arte africana: pedigree e estilo em questão

Autenticidade nem sempre pode ser comprovada, mas presença em galerias de prestígio e leilões garante valores elevados

Rogério Cezar de Cerqueira Leite, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Maubert é o nome de uma pequena e alegre praça, bem no meio do Quartier Latin, ao lado do antigo prédio da Polytechnique, a poucos passos do College de France, da École Normale, da Sorbonne, do Museu de Cluny, do Instituto Poincaré, etc. Talvez por isso não parece reter a memória de seu passado lúgubre como hospedeira de cadafalso para execuções públicas da Paris antiga. Nas alegres manhãs dos sábados, acolhe a diminuta praça uma festiva feira. Lá encontramos verduras, frutas, gourmandises de toda espécie, além de vestimentas baratas, sebos de livros antigos e, mais recentemente, e por paradoxal que seja, uma banca com objetos de arte africana. Não são estes daqueles produzidos para turistas que encontramos em shoppings e aeroportos, embora por vezes realizadas por competentes artesãos, mas destituídas de qualquer conteúdo histórico, artístico ou espiritual.Não muito distante, em Saint-Germain-des-Prés, nas proximidades do cais dos Grands Augustins, encontram-se seis ou sete galerias de prestígio especializadas em arte africana. Enquanto na Feirinha da Praça Maubert os preços de oferta variam entre 250 euros e 1.600 euros para diferentes objetos, na região "nobre", em Saint-Germain os valores vão de 5.000 a um milhão. Um destes antiquários relata o faturamento do semestre: 132 peças, totalizando 6 milhões de euros (R$ 18 milhões, uma média de R$ 136 mil por peça). Uma única peça, uma estatueta Kwele, alcançou 971.950 em leilão da Sotheby?s e uma máscara Chowke foi leiloada por 420 mil euros na Christie?s neste mesmo período. O que impressiona não são os valores elevados, pois no passado recente houve peças vendidas a esses preços, mas a quantidade de negócios nestas alturas, o que demonstra o avassalador ressurgimento da arte tradicional africana.Antes de tentarmos entender a diferença entre os preços das peças aparentemente autênticas da feira de Maubert e aquelas das galerias de prestígio e de leilões da Sotheby?s, Christie?s, etc., é preciso esclarecer os conceitos de autenticidade e de antiguidade, específicos para a arte africana. Em geral, dizemos que uma obra é autêntica quando a origem a ela atribuída é comprovada. Assim, se podemos provar que um quadro atribuído a Picasso foi mesmo realizado por ele, então o quadro é considerado autêntico. Com uma cerâmica pré-colombiana, a autenticidade pode ser determinada seja por tecnologias, tais como datação de Carbono 14 (por meio de inclusões ou resíduos de material orgânico), termoluminescência, etc., pois essas produções cessaram antes que falsificadores e imitadores, etc., surgissem. Ou, alternativamente, pela comparação com peças autenticadas e identificação de características, tais como estilo, materiais, etc.Ora, a grande maioria de objetos africanos é feita de madeira, material altamente perecível nas condições de ambiente e uso vigentes na África. As peças encontradas no Ocidente ou mesmo na África raramente têm mais que um século de existência. A deterioração da madeira poderia ser um indício. Entretanto, em décadas recentes, técnicas primitivas, mas eficientes, de envelhecimento vêm sendo usadas. Por exemplo, no passado, como estátuas de maior dimensão eram colocadas diretamente no solo, seus pés eram corroídos. Hoje, são as imitações colocadas, por tempo curto, sobre termiteiras, com o que se "fabrica" antiguidade e, consequentemente, autenticidade. Por outro lado, como consequência do fato de que objetos africanos raramente eram confeccionados apenas como ornamento, mas quase sempre com finalidades rituais e importantes funções religiosas, exige-se que para serem autênticas tenham sido produzidas para essas ocasiões específicas. Alguns especialistas exigem ainda que também tenham sido utilizados nessas ocasiões. Ou seja, para ser considerado autêntico um objeto de arte africana precisa ser feito na região da etnia a ele atribuída, por artista local, para a cerimônia ou outro acontecimento que a tradição determine e que tenha sido usado para este propósito específico. Esta última condição é, obviamente, raramente verificável.Assim sendo, por causa da crescente ocidentalização das etnias africanas e destituição de suas crenças originais ocorridas durante e após o período colonial, quanto mais recente é a obra, menor é o seu provável grau de autenticidade. É claro que é possível encontrar peças produzidas ainda hoje absolutamente autênticas, embora raras, mas à medida que passa o tempo e a África se moderniza, a arte tradicional africana desaparece. Aliás, é bom saber que jovens artistas africanos vêm produzindo belíssimas esculturas modernas, mas são incapazes de manter as tradições de suas etnias, pois já não vivenciam as experiências existenciais de seus antepassados.Como consequência, erigiu-se progressivamente um quadro em que os pedigrees desses objetos passam a ser os principais determinantes dos valores atribuídos por especialistas. Quanto mais exposta uma peça, quanto mais antiga é a sua presença em coleções particulares ou em museus, maior será o seu preço no mercado. É claro que os especialistas vão mencionar outros fatores, tais como, raridade, expressão, originalidade, etc. Todavia, o fator preponderante é o pedigree e este, obviamente, é uma consequência em parte das características mencionadas acima, mas também de uma série de fatores ocasionais. E a prova disso é a insistência com que são mencionadas questões exógenas à obra de arte, como quem a encontrou, quem a comprou, por quais leilões passou, etc. Existem, portanto, dois mercados paralelos de objetos de arte africana. O primeiro é o que passa por galerias de prestígio e leilões internacionais e no qual o pedigree da obra é o que conta, e o segundo, em que estilo, originalidade e esta intangível espiritualidade que somente a verdadeira arte exprime é que determinam a sua importância. Rogério Cezar de Cerqueira Leite é professor emérito daUnicamp e membro do conselho editorial da Folha de S.Paulo

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