Arsenal coeso e poderoso de idéias

Primeira leva de relançamentos do autor resume os caminhos amplos e complexos de sua temática

Samuel Titan Jr., O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Num dos ensaios de Outras Inquisições, Borges afirmava que não é clássico o livro que contabiliza tais ou quais méritos: clássico ''''é um livro que as gerações dos homens, urgidas por diversas razões, lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade''''. Passados pouco mais de 20 anos de sua morte, pouca gente lhe recusaria o título de clássico da modernidade latino-americana e mundial. Assim sendo, o leitor do século 21 bem pode recorrer aos dois termos-chave da definição acima para tentar uma primeira aproximação a Borges.No mesmo ensaio, Borges vincula ''''fervor'''' a um ato de fé prévia que atribui valor ao que, de outro modo ou em outro momento, talvez pareça apenas uma das ''''formas do tédio''''. Esse espírito dá título ao primeiro livro de poemas de Borges, Fervor de Buenos Aires (1923), e preside aos outros dois que publicou na década de 20: Lua Defronte (1926) e Caderno San Martín (1929).Nesses três livros, agora reunidos num volume de Primeira Poesia, o jovem Borges, recém-chegado de seus anos de escola suíça e vanguardismo espanhol, tenta reconquistar poeticamente - fervorosamente - a cidade e o país de sua infância e de seus antepassados criollos. Ele o faz no mesmo momento em que ambos parecem a ponto de se dissolver sob o impacto da modernização urbana e da imigração maciça.São poemas em que Borges flerta com a dicção criolla do idioma, num tom ora barroco, ora whitmaniano. Mais tarde, o autor maduro tomaria distância dessa primeira leva poética, o que nem de longe diminui seu interesse - muito pelo contrário, pois é fascinante ver como o jovem autor vai aos poucos mapeando aquele que será seu âmbito espacial e literário pelo resto da vida.Para dar dois exemplos apenas, os primeiros versos do primeiro poema de Fervor de Buenos Aires (''''As ruas de Buenos Aires / já são minhas entranhas'''') inauguram uma identificação vital e poética que constitui um dos grandes veios da obra de Borges, ao passo que O General Quiroga Vai de Coche para a Morte (de Lua Defronte) prenuncia a dicção de poemas narrativos da maturidade, como o grande Poema Conjectural (de O Outro, o Mesmo, livro de 1964).Do mesmo modo, esse criollismo inicial não se confunde sem mais com o patriotismo conservador ou com a idolatria do gaúcho como penhor da nacionalidade argentina, à maneira do que acontece no romance Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes (1926). O espaço que o jovem Borges percorre não é o pampa, é o arrabalde, são as orillas da cidade, as ''''ruas sem calçada em frente'''', no limiar entre cidade e campo; e a figura que captura sua atenção não é o gaúcho de outrora, mas, cada vez mais, o compadrito, o suburbano que vaga por esse espaço equívoco.Esse gosto incipiente pelo limiar onde o outro e o mesmo se confundem será decisivo para Borges. Ele se faz notar em seus livros de crítica dos anos 20 (mais tarde excluídos das Obras Completas) e se torna programático nos experimentos meio ficcionais, meio ensaísticos da década seguinte: Discussão (1932), História Universal da Infâmia (1935) e História da Eternidade (1936), que ficaram para outra entrega da Biblioteca Borges. Nesses livros, o autor argentino aperfeiçoa um tom singular, em que a dicção ensaística absorve algo da tertúlia, da charla à maneira de Macedonio Fernández, ao mesmo tempo que desemboca numa escrita propriamente narrativa - e vice-versa.O resultado dessa década de maturação estilística e compositiva surge em 1944, nos contos de Ficções, certamente o livro central da obra de Borges. Ali estão relatos já clássicos, como O Jardim de Caminhos Que se Bifurcam, Pierre Menard, Autor do Quixote, A Biblioteca de Babel ou Funes, o Memorioso. Mas ali estão, igualmente, todos os temas de que Borges vinha se ocupando até então.Livro-suma, portanto, ou livro-enciclopédia que enfeixa o passado e o presente, mas que o faz borgianamente, isto é, no registro do artifício (termo que dá título à segunda parte do volume). Um dos alvos favoritos da muita crítica literária que Borges publicou ao longo dos anos 30 era justamente a escrita linear e mimética do romance oitocentista. Agora, o Borges narrador inventa contos que nascem de verbetes de enciclopédia (Tlõn, Uqbar, Orbis Tertius) ou de documentos fantasmais (O Jardim de Caminhos Que se Bifurcam), que se apresentam como resenhas de autores inexistentes (como Pierre Menard ou Herbert Quain) ou que flertam ao mesmo tempo com a metafísica e com o gênero policial (A Morte e a Bússola).Assim, cada um dos contos se apresenta menos como ''''fatia de vida'''' que como um caso que se resume e se submete à investigação, uma ''''situação filosófico-narrativa'''' (na expressão de Beatriz Sarlo) cujo resultado final não é de ordem puramente fantástica ou artificiosa. Pois esses contos publicados durante uma guerra mundial e sob uma ditadura latino-americana sabem dar um nó ao próprio artifício, para fazê-lo falar tanto de si como do outro, desse outro radical que é a história violenta do século e da Argentina.Daí os motivos centrais da traição em Tema do Traidor e do Herói, da sordidez em A Morte e a Bússola ou do arbítrio em A Loteria na Babilônia. Daí, sobretudo, a grandeza de um conto tão breve e tão poderoso como O Sul, em que tantos veios da história e da literatura argentina vêm se cruzar numa vendinha perdida no pampa, lugar de caminhos que se encontram.Completam esta primeira remessa Outras Inquisições e O Livro dos Seres Imaginários.As ''''inquisições'''' de Borges, reunidas em livro em 1952, merecem ser lidas na seqüência de Ficções: uma ligeira mudança de tom faz que o leitor transite da narrativa ao ensaio - mas a um ensaio que se faz por meio de histórias. Num típico ensaio borgiano dessa fase, o autor colige um certo número de casos, idéias ou citações e se põe a meditá-las como que diante dos olhos do leitor, cotejando suas fontes (sempre muito díspares) e indagando a gama de respostas possíveis, sem muito afã de uma conclusão terminante. É o caso de ensaios célebres como Magias Parciais do Quixote, A Flor de Coleridge ou Kafka e Seus Precursores.Num dos ensaios desse livro (O Idioma Analítico de John Wilkins), menciona-se uma ''''enciclopédia chinesa'''' que prima por ser tão precisa quanto caótica. A realização borgiana desse gênero impossível talvez esteja em O Livro dos Seres Imaginários (1967), antes publicado como Manual de Zoologia Fantástica (1957). Trata-se de uma coleção de 116 seres implausíveis que, no dizer de Alexandre Eulálio, ''''Borges acaricia passando preguiçosamente a mão complacente do dono''''. A par do horror gracioso de cada uma das criaturas, o leitor que percorre os relatos é convidado ainda a desfrutar do espetáculo de uma ordem (alfabética, enciclopédica) que parece se constituir apenas para logo se desfazer.Resta esperar, para voltarmos aos motes do ensaio citado de saída, que não se desfaça o fervor com que novas ''''gerações de homens anônimos'''' se preparam a ler ou a reler a obra borgiana - e que encontra seu correlato na ''''lealdade'''' com que Borges perseguiu, em vários gêneros e por múltiplos artifícios, um conjunto coeso e poderoso de idéias, inquisições e metáforas, em sua vigência universal como em sua entoação latino-americana.Samuel Titan Jr. É tradutor e professor de Literatura Comparada da Universidade de São Paulo

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