Leonardo Finotti
Leonardo Finotti

Arquitetura brasileira dos anos 1950 aos 80 será destaque no MoMA

Brasília e obras referenciais do país estarão apresentadas na exposição 'América Latina em Construção', a partir de março

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2014 | 03h00

“Do elogio ao descarte de Brasília” é como o arquitetoCarlos Eduardo Comas define o período a ser contemplado na mostra AméricaLatina em Construção: Arquitetura 1955-1980, que será exibida entre 29 de marçoe 19 de julho no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York. Se por um lado, dizo professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do comitê curatorialda exposição, a crítica arquitetônica estrangeira “demonizou”, até a década de1990, a capital projetada por Oscar Niemeyer (1907-2012) e Lucio Costa (1902-1998)- considerando-a “desumana, árida, de grandes vazios, sem esquinas e cujoprojeto emblematiza as desigualdades sociais brasileiras com os pobres vivendona cidade satélite e os ricos no plano piloto” -, pouca também foi, na época, aatenção dada no exterior às realizações da chamada Escola Moderna Carioca eobras de São Paulo criadas por Vilanova Artigas (1915-1985), entre outros.

“O público americano deveria conhecer uma produção do século20 de inacreditável originalidade e criatividade em muitos paíseslatino-americanos, não apenas no Brasil e no México”, afirma Barry Bergdoll,curador do departamento de arquitetura e design do MoMA. A última exposição dainstituição dedicada ao tema, Arquitetura Latino-Americana Desde 1945, ocorreuapenas em 1955. Depois de 60 anos, afinal, o museu preenche “uma lacuna”,esclarece o curador; relembra “como a América Latina foi um dos campos maisférteis de experimentações arquitetônicas no mundo”, diz Comas. “Nos anos 90,quando começa o dito episódio pós-moderno, vê-se a redescoberta da arquiteturamoderna em geral, em especial, da brasileira”, continua o professor gaúcho,citando ainda os prêmios Pritzker concedidos ao carioca Niemeyer (1989) e aocapixaba Paulo Mendes da Rocha (2006).

O Brasil - e Brasília, principalmente - são grandesdestaques da mostra, uma panorâmica alentada sobre a criação arquitetônica nocontinente, passando por Colômbia - também de exemplares vibrantes, afirma ocurador do MoMA -, Argentina, Peru, Uruguai, Venezuela, Cuba e República Dominicana,entre outros. Para enfatizar o conceito de construção, a ideia principal daequipe curatorial, formada, ainda, por Patricio del Real, curador-assistente domuseu, e por Jorge Francisco Liernur, da Universidad Torcuato di Tella, deBuenos Aires, é privilegiar a exibição de cerca de 500 documentos originais deépoca - uma das maiores dificuldades, conta Bergdoll, foi conciliar aburocracia relacionada aos tantos arquivos consultados em vários países.

“Muito material se perdeu com o tempo”, explica CarlosEduardo Comas. “Nenhuma maquete de época de Brasília resistiu e chegamos afazer consultas para levar para Nova York a que está no Espaço Lucio Costa,embaixo da Praça dos Três Poderes, mas há um problema logístico, o fato de elater 13 x 13 metros”, diz o arquiteto gaúcho sobre a peça de estruturasmodulares e criada em na década de 80. “Tomaria muito espaço da exposição”,conclui. “Mas esperamos mostrar os croquis do plano urbanístico de Lucio Costa,que são, às vezes, rabiscos em papel timbrado do Ministério, surpreendentes,pequeninos, pouco conhecidos, mesmo no Brasil”.

Em relação a maquetes, ainda, 20 peças foram criadasespecialmente para a exposição América Latina em Construção - entre elas, a daFaculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, clássico projeto de Artigas.“Nas duas salas iniciais, que estamos chamando de Prelúdio, exibiremos tambémmaquetes brasileiras que estão na coleção do MoMA, como a do MEC (Ministério deEducação e Cultura, de 1943), os guaches do Burle Marx para a Casa Tremaine,(de1948), que acabou não se realizando, mas que foi bastante influente, projetadapelo Oscar (Niemeyer) na Califórnia, e desenhos do Ibirapuera”, afirma Comas.

Mesmo que Brasília seja um “laboratório em evolução”, outrasobras-chave brasileiras serão devidamente apresentadas na mostra, como o SescPompeia e o Masp, ambos de Lina Bo Bardi (1914-1992). Segundo Barry Bergdoll,até há cinco anos, quando América Latina em Construção começou a ser discutida,a arquiteta ítalo-brasileira era, praticamente, uma desconhecida no exterior.“Nas muitas viagens que fizemos, Lina foi uma importante descoberta, assim comoLucio Costa, um intelectual formidável”, diz o curador norte-americano.

“A produção latino-americana, em geral, é de muito boaqualidade, mas na minha opinião pessoal, vejo que no Brasil, dos anos 30 aos80, há mais coesão, sistematicidade, uma referência teórica bastanteconsistente, uma busca de diversidade na unidade”, define Comas. Dessa maneira,terão presença marcada na exposição, ainda, trabalhos referenciais brasileiroscomo o Museu de Arte Moderna do Rio, de Affonso Eduardo Reidy (1909-1964); oGinásio do Clube Atlético Paulistano, de Paulo Mendes da Rocha; o projeto deurbanização de favelas de Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1943-1989); e oplano habitacional desenvolvido em 1973 pelos Irmãos Roberto para a área deAlagados, em Salvador.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.