ICP.ORG
ICP.ORG

Ariella Azoulay: 'A fotografia é uma tecnologia de extração, como muitas outras tecnologias'

Autora, curadora de arte, cineasta e teórica da fotografia e da cultura visual se aproxima do discurso de Susan Sontag nas reflexões sobre a fotografia

Entrevista com

Ariella Azoulay

Simonetta Persichetti e Laura Uliana, Especial para O Estado de S. Paulo

01 de janeiro de 2020 | 08h00

São três as grandes pensadoras da fotografia contemporânea. Três mulheres, radicais, fortes que se dedicaram nos últimos anos em inserir a fotografia na área da cultura, tentando entender seu potencial e sua força na sociedade contemporânea.

Sem dúvida começamos com Susan Sontag (1933-2003), com seus livros Sobre Fotografia e Diante da Dor das Outros; em seguida encontramos Susie Linfield que, em seu livro Cruel Radiance, questiona a visão e a iconofobia (ódio pelas imagens) criada por Sontag. Lienfield, que é professora do departamento de jornalismo da Universidade de Nova York, escreve sobre cultura e política para diversos jornais e revistas norte-americanas. Escreveu este livro em 2010 questionando as afirmações de críticos fotográficos a respeito das fotografias políticas ou de violência.

Agora, mais uma autora aparece em cena e é considerada herdeira de Susan Sontag: Ariella Azoulay, autora, curadora de arte, cineasta e teórica da fotografia e da cultura visual. É professora de Cultura e Mídia Modernas e do Departamento de Literatura Comparada da Brown University. Embora também seja crítica a Sontag, seus discursos em muito se aproximam.

Ariella Azoulay ainda é pouco conhecida no Brasil e seus livros não foram traduzidos para o para o português – talvez o mais conhecido seja Civil Imagination. Ela veio ao País para o Festival Zum, organizado pelo Insitituto Moreira Salles, para falar sobre seu novo título: Potencial History.

Em ‘Civil Imagination’, você diz que a fotografia pode devolver a cidadania a quem perdeu, mas agora você diz que não, que é uma forma de dominação. Podemos mudar o mundo com a fotografia ou somente reafirmar a dominação?

Há um limite para quanto nossos sonhos, intenções e práticas podem impactar o mundo. Nós também temos de reconhecer as estruturas nas quais agimos. Então, quando em Civil Imagination eu falei de cocidadania era sobre oferecer uma tentativa de criar um distanciamento entre nós e o Estado. O Estado reconhece alguns grupos como cidadãos e outros não, e com a fotografia nós podemos imaginar a cocidadania. Eu não mudei de ideia, mas quando eu olho para a história da fotografia tenho de pensar sobre o que é a fotografia para além da imagem. Temos de nos questionar se o tipo de fotografia criado há 200 anos ainda existe e se permite a reprodução do projeto imperialista. E é o que estou tentando fazer neste livro, mas não dizendo que nós apenas reafirmamos o imperialismo. Podemos pensar para além do imperialismo, mas reconhecendo que ele ainda existe e que ainda agimos por suas estruturas. Então, o que estou tentando fazer aqui e o que está colocado neste livro é entender a fotografia não como uma tecnologia na história das tecnologias que produzem imagens, mas, sim, entender a fotografia como uma tecnologia que separa as pessoas de seus recursos, de suas terras, de seus objetos e de suas imagens. Então eu penso na fotografia não como o ato íntimo do fotógrafo em seu estúdio, mas em maior escala. E vejo que a fotografia é uma tecnologia de extração, como muitas outras tecnologias. Quando entendemos isso, devemos nos perguntar qual é o nosso papel em evocar o poder que aparatos do Estado dizem que bancos de imagens podem continuar a manter estas riquezas, porque penso na fotografia como bem visual acumulado pelo oeste. E o material bruto deste acumulo é a presença de pessoas, é o retrato de pessoas, é o que pessoas tinham, que se tornou parte da riqueza no ocidente. Então como podemos usar isso, pois estamos envolvidos nesta estrutura. Como podemos usar nosso poder para mudar isso?

No Brasil, durante a ditadura, os fotógrafos criaram uma narrativa que ajudou as pessoas no processo de redemocratização do país.

Sim, mas eu acredito que não mudei o que penso neste livro em relação ao anterior. Eu não acho que a estética existe em si mesma ou que podemos falar na ética como inerente à fotografia. A ética é a maneira como olhamos para ela e também a maneira como continuamos a compartilhá-la. Não é algo estável. E tem algo no que é a história do que é considerada “fotografia engajada” ou “fotografia social” que é considerado “fotografia com ética”. Eu penso que isso é muito problemático. Então, estou tentando pensar na fotografia por uma perspectiva diferente. Isso é muito problemático. Considere todos os fotógrafos que têm o direito de viajar o mundo, ir à África, ir ao Oriente Médio, ir à América do Sul, e tirar fotografias para pessoas que vivem em outros lugares. Isso é parte do projeto imperialista, ainda que eles estejam dizendo “nós reportamos” ou “nós somos testemunhas das catástrofes que acontecem aqui ou ali”. A fotografia que se torna testemunha é, também, problemática. E os fotógrafos deveriam entender isso, deveriam reconhecer isso, e deveriam fazer perguntas diferentes.

Em seu livro, você diz que pessoas em áreas de desastre tendem a ser fotografadas mais do que se fotografarem. Mas você escreveu isso há alguns anos, então muitas tecnologias mudaram. Você considera que, com smartphones, há uma tendência de mudança?

Por um lado, eu acredito que mais pessoas em mais áreas de desastres podem usar suas câmeras dos celulares para tirar mais fotografias, mas tirar mais fotografias não significa que você tem o poder de resistir à situação na qual você se encontra. Então eu penso que, da forma como este discurso é formulado, na discussão sobre fotografia cidadã, é como se o objetivo em si fosse tirar mais fotografias. E nós sabemos que quanto mais tiramos fotografias mais enriquecemos as pessoas que acumulam fotografias. Então não podemos ser ingênuos e dizer que se tirarmos uma fotografia ela poderá gerar uma mudança na realidade. Temos de entender a situação em que esta riqueza foi acumulada nestes 200 anos, e quem as possui são as instituições que mandam no mundo. Os fotógrafos são os provedores destas riquezas. Então a pergunta é: como agir como provedores desta riqueza e não pensar apenas em termos limitados, de que se retratarmos a realidade de forma diferente tudo será melhor. Historicamente, quando pensamos sobre isso, que os fotógrafos tinham determinados direitos em relação às práticas da fotografia, quando nós pensamos nos fotógrafos, eles são uma comunidade forte que pode revogar este padrão de distribuição de direitos que dão a estas instituições tanto poder contra as pessoas. Então, o que estou tentando fazer neste livro é repensar termos políticos: direitos humanos, luta, arquivos fotográficos… E o que precisamos mudar neles para propor uma teoria política diferente ou uma ontologia política diferente para as pessoas usarem. Eu não posso pensar para além do que já pensei, espero que outras pessoas trabalhem com isso e façam muito com isso. Porque eu senti que era necessário mudar o significado destes termos, como direitos humanos. Os direitos humanos são parte da exploração de pessoas, então tenho de mergulhar nisso e tentar entender como a fotografia está implicada nisso. Como podemos pensar nos direitos humanos não na perspectiva do século XVIII ou dos discursos do pós-guerra, que mudaram o que consideramos como direitos.

Você disse que toda fotografia é política. Não se pode separar a estética da política. Susie Linfield é muito crítica da posição da Susan Sontag. Eu acredito que você seja também, porque a Susan Sontag nos ensina a separar… O que você pensa sobre a posição da Susan Sontag sobre isso, da Susie Linfield e da sua?

Eu não sei, eu deixo isso para outros dizerem onde nos posicionamos, mas eu posso dizer que a Susan Sontag estava olhando para a dor dos outros. Isso é parte do que estou tentando fazer de diferente. Esta posição na qual os cidadãos podem olhar para o sofrimento dos outros para sempre e outros estão condenados para sempre a viver em uma posição de sofrimento é algo que não podemos eternizar pelo título destes livros ou por esta abordagem. Então, imaginar um lugar diferente no qual pensamos contra o Estado ou contra poderes imperialistas é o meu projeto. E agora não me lembro do que discordo da Susie Linfield, mas não penso da mesma maneira que ela. Quando nos comprometemos com a fotografia, com ou sem fotografia, nós estamos em um espaço político. Mas eu penso também em contraste com Roland Barthes e sua ontologia da fotografia como morte, que a fotografia é sobre algo que já terminou. E o que estou tentando dizer é que não acabou. E se não acabou temos o direito de voltar no tempo para 1492 ou 1445 e ninguém poderia nos dizer que não temos este direito porque a realidade mudou e temos de ir para frente. Então, minha tentativa é de dizer “não, eu não quero seguir em frente”. Esta é a máquina capitalista que capitaliza a vida das pessoas. Então é uma tentativa de dizer que, se Roland Barthes falava na fotografia como morte em diferentes aspectos, o que eu estou dizendo é que a fotografia é a vida. E temos o direito de reencená-la quantas vezes quisermos e nunca deixar alguém nos dizer que o que está ali acabou.

Tudo o que sabemos sobre:
Ariella Azoulayfotografia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.