Ari Folman reinventa a animação

Diretor israelense fala de Waltz with Bashir, que explora formatos e gêneros

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2008 | 00h00

Ari Folman é um diretor israelense que durante mais de 20 anos trabalhou como roteirista no Exército. Ele escrevia, como diz, "aqueles filmes chatos de propaganda, ou documentários informativos que ninguém quer ver, do tipo o que fazer no caso de um ataque nuclear". Depois de tanto tempo nesse serviço burocrático, Folman, alegando cansaço, pediu férias. A chefia disse que, tudo bem, ele poderia requerer uma licença, mas antes seria melhor se passasse pelo atendimento psiquiátrico do Exército, para uma avaliação. Folman foi. Participou de mais ou menos 20 sessões. Sua vida mudou - e o resultado mais evidente desta mudança é a animação que passa somente hoje, em duas sessões simultâneas, na 32ª Mostra.Por melhor ou mais defensável que seja Entre les Murs, o longa de Laurent Cantet que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em maio - e representa a França na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro -, havia críticos torcendo para que o principal prêmio do maior evento de cinema do mundo fosse para o longa de ari Folman, Waltz with Bashir. O filme é uma animação autobiográfica que mistura documentário e ficção. Folman vira personagem, escavando em lembranças reprimidas de sua experiência na Guerra do Líbano, no começo dos anos 80, quando ocorreu o massacre no campo palestino de Chatyla. Durante as sessões de terapia, Folman foi-se lembrando de coisas que havia apagado da memória. Com elas veio outra descoberta - a de que ele não era o único a sofrer desse tipo de comportamento pós-traumático. Inclusive, no filme, o que deflagra o relato - e a ida à terapia - é o sonho recorrente que um de seus amigos tem, e no qual ele é perseguido por cães.Em Cannes, o repórter do Estado participou de um grupo que entrevistou o diretor. Naquele momento, para o repórter, pelo menos, a fórmula do documentário de animação não causava tanto espanto porque pouco antes, em abril, no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, havia sido premiada a animação Dossiê Rê Bordosa, que já adotava o formato. Ari Folman contou porque quis inovar. "Se tivesse feito um documentário tradicional, com entrevistas e imagens de arquivo, o filme teria se tornado tão chato como aqueles que eu estava cansado de escrever para o Exército. O formato de animação me pareceu atraente, e além do mais criava problemas que seria estimulante tentar resolver."Foram anos de trabalho - primeiro a crise que levou o diretor à terapia e, depois, os que ele demorou para levantar o projeto. Neste processo, Folman, já quarentão, foi pai e isso fortaleceu seu desejo de contar essa história. "Imaginei que poderia ser um legado para meus filhos." Waltz with Bashir é antimilitarista, claro, mas não é só sobre a guerra nem sobre o massacre de 1982. É também sobre a capacidade do cérebro humano de ser seletivo e se ajustar, apagando da lembrança o que pode ser prejudicial para o equilíbrio psíquico do indivíduo. Neste sentido, pode-se fazer uma ponte entre Waltz with Bashir e o clássico Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, cuja protagonista também sepulta velhas emoções que, de repente, voltam, evocadas por um simples gesto. "Bem lembrado", diz o diretor de Israel.Essa amnésia consciente, como a ela se refere Ari Folman - uma medida de autoproteção do cérebro humano -, levou-o a consultar familiares e amigos para reconstruir essa história que parecia perdida no tempo. Os cães de guerra que insuflavam os pesadelos do amigo de Folman ganharam sua dimensão real - durante a guerra, uma vanguarda do Exército israelense, avançando sobre território inimigo, era destacada para eliminar os cães, impedindo que eles anunciassem sua presença, à noite. Agora, todos esses cães, transformados numa matilha, caçam seu carrasco.Tecnicamente, Waltz with Bashir segue fórmulas originais e criativas que diferem de procedimentos habituais na animação contemporânea. Ari Folman fez seu filme com atores, mas não utilizou os sensores com que Peter Jackson animou personagens importantes da série O Senhor dos Anéis e de King Kong. Também não fez uma animação em cima desses desenhos, como o Ralph Bakshi de American Pop. O que Folman e seus desenhistas fizeram foi único. O filme em ?live action? serviu somente como referência para a animação. Foram dois anos e meio de trabalho e a partir de determinado momento os animadores já trabalhavam sobre o trilha definitiva, o que, segundo o diretor, contribuiu muito para que lograssem a atmosfera que ele queria.Existem cenas de hard rock que evocam Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola - que Folman, como autor e cinéfilo, reverencia. Tudo isso é fascinante, mas a força do filme vem das derradeiras imagens, quando o diretor abdica da animação e faz com que imagens reais de Chatyla invadam a tela. É duro. Ninguém passa incólume pela experiência de Waltz with Bashir. ServiçoUnibanco Arteplex 1 - Hoje, 23h30Unibanco Arteplex 2 - Hoje, 23h30

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