Áreas de convivência se destacam

Entre uma exposição e outra, vale a pena conhecer os segmentos que valorizam a paisagem e o descanso do olhar

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

A visão do Rio Guaíba à frente dos Armazéns do Cais do Porto, ponto de mostras fundamentais da 6ª Bienal do Mercosul, é um convite para descansar o olhar entre uma exposição e outra. Ainda mais em se tratando da mostra Conversas, já uma das primeiras com as quais os visitantes vão se deparar. Como ela é toda feita de módulos ou pequenas salas fechadas, pode-se dar um tempo entre uma e outra. É um segmento interessante da curadoria de Gabriel Pérez-Barreiro, feita também em conjunto com Alejandro Cesarco. Eles convidaram oito artistas para liderarem cada uma das salas ,numa espécie de mini-curadorias que nos apresentam diferentes olhares.A própria museografia coloca em diversos galpões do Cais do Porto oito cubos brancos fechados - cada um deles tem tamanho diferente dependendo do projeto - entre diversas áreas de convivências. Dentro desse projeto, sempre o artista convidado coloca um de seus trabalhos em diálogo com os de mais dois outros criadores - e, por fim, Pérez-Barreiro e Cesarco propõem uma quarta obra, ainda de outra autoria, para fechar grupos de quatro autores em cada sala. O núcleo 4, liderado pelo carioca Waltercio Caldas, é pura sofisticação formal e no campo do sensível.Waltercio mesmo está representado por seu trabalho O Ar Mais Próximo, de 1991, em que ele coloca poucas linhas de lã entre o vão de uma parede e outra. Elas fazem desenho mínimo no espaço da sala. Para dialogar com suas linhas soltas, Waltercio escolheu três pequenos quadros concretos do brasileiro Milton Dacosta (1915-1988) e ainda música do compositor Steve Reich - composição mínima, a música também parece formar linhas mentais com os arranjos das notas musicais (Waltercio também usou esse diálogo em seu trabalho para esta atual 52.ª Bienal de Veneza, ainda em cartaz). Por fim, Pérez-Barreiro selecionou uma peça do mestre da arte óptica, o venezuelano Jesús-Rafael Soto (1923-2005) - nesse trabalho da década de 1960, linhas de fios de nylon brancas e negras ficam flutuando na vertical, formando um círculo no centro aos nossos olhos. ''''São exercícios'''', diz Pérez-Barreiro: exercícios que pedem a relação mais íntima com os espectadores.Outra brasileira também é responsável por um núcleo, a mineira Laura Belém. Para dialogar com sua instalação Ainda Outono, em que coloca uma série de vasos de cerâmicas com plantas nas quais ela acopla folhas artificiais marrons que remetem às folhas de outono, Laura selecionou um vídeo de Sara Ramo (nascida na Espanha, vive e trabalha no Brasil) e fotografia de Jennifer Allora & Guillermo Calzadilla. Na obra de Sara, a artista está em um ambiente onde começam a despencar do teto e das paredes flocos de papel; na imagem fotográfica da dupla, uma figura está no contra-luz. Para integrar o tema das estações e da paisagem, a curadoria escolheu vídeo de Walid Raad, em que o foco é o pôr-do-sol.A paisagem também dá a tônica da sala do chileno Pablo Chiuminatto. Em sua tela do ano passado, o artista representa uma paisagem quase abstrata usando uma espécie de recurso de esfumaçamento. Ao mesmo tempo, ele escolheu colocar uma estante de livros abertos em páginas que apresentam conhecidas pinturas da galeria de artistas que o influenciou: Gerhard Richter, Caspar David-Friedrich, Hopper, Monet, Morandi e Turner. A passagem singela do tempo pela ótica da pintura também é o tema das telas do chileno Adolfo Couve (1940-1998) e da paisagem pintada pela brasileira Katie van Scherpenberg.Enfim, vale a pena se dedicar a descobrir as questões e as poéticas presentes em cada um dos oito microcosmos dessa seção da Bienal do Mercosul. Cada uma das exposições que formam o evento terá um catálogo dedicado a elas, inclusive um guia pedagógico como parte do programa educativo.

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