Aquele que não pode deixar o ritmo desandar

O violonista carioca Paulão 7 Cordas é, hoje, um dos principais produtores de discos de samba

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2009 | 00h00

Paulão 7 Cordas é um homem da cozinha. Nos últimos 25 anos, o instrumentista carioca está organizando os bastidores do samba. Ele é um caso de grande artista escondido sob o brilho dos resultados de seu trabalho. Fazendo sucesso ou não, quando falta seu comando, o pagode desanda. Sem alarde, Paulão 7 Cordas entra para a história do gênero como um dos seus mais importantes produtores musicais. É dele o trabalho pioneiro de registrar o repertório das velhas guardas, como Mangueira, Portela e Império Serrano. E é dele o dedo nos principais CDs de sambas lançados no último semestre - para não falar dos últimos anos -, entre os quais Samba de Fé (Dorina), Batucando (Moacyr Luz), Versátil (Nelson Sargento) e Uma Prova de Amor (Zeca Pagodinho). Seu segredo como produtor se encontra no ouvido afiado para as sutis variações do ritmo. "Não organizei nem inventei nada, o que fiz foi estudar para ter nas minhas produções uma percussão gravada com ordem, porque ela é muito importante num CD", ele diz. Uma das principais características de Paulão 7 Cordas ao produzir um disco é a ênfase na percussão, também conhecida como a cozinha do samba. Ele tem gosto pelos detalhes. Um dos seus hábitos é escolher, segundo o que pede cada música, o instrumento certo de percussão, que pode ter estrutura de metal ou madeira. "Devemos saber bem as funções dos instrumentos percussivos", diz. "Fico atento para não misturar as frequências na percussão, o médio, o agudo e o grave têm o seu espaço em cada instrumento, e assim não embolam."O mais interessante é ele ser um músico do salão, o lugar dos instrumentistas de cordas. Tradicional, essa divisão entre instrumentos mais nobres (as cordas no salão) e menos nobres (a percussão na cozinha) nasceu quando o samba começava a se consolidar nas primeiras décadas do século passado. O batuque era coisa de bárbaros e estava vetado na sala de estar das casas e, claro, nos estúdios - por isso, aos batuqueiros tinha de ser reservado um recinto afastado da parte social do imóvel. Hoje, como mostra Paulão, a atenção ao ritmo é indispensável. Paulo Roberto Pereira Araújo, de 50 anos, teve como professores de violão José David Alves e Jayme Florence (o Meira), que foi um dos mais importantes violonistas 6 cordas do País e professor de, entre outros, Baden Powell e Raphael Rabello. "Mas passei poucos meses estudando com eles." Com o avô, o clarinetista e regente João Gonçalves Araújo, Paulão aprendeu teoria musical. Seu aprendizado se deu "andando por aí". Paulão é filho das rodas de choro, em que os mais experientes desafiam os iniciantes (leia mais abaixo). A dedicação integral ao samba se iniciou com Monarco, compositor da Velha Guarda da Portela que o apresentou a Nelson Cavaquinho, Manacéa, Mauro Duarte, Cristina Buarque, entre outros. Ali se iniciava a carreira, que ora completa 31 anos, de violonista acompanhante, arranjador, produtor e diretor musical. Paulão já participou de gravações e shows de dezenas de artistas diferentes - de Beth Carvalho a Elba Ramalho, de Zeca Pagodinho a Zeca Baleiro.Seu trabalho como produtor musical começou amador e coincidiu com mudanças fundamentais na indústria da música. A partir dos anos 1960, a função do produtor se alterou. Antes um homem que supervisionava gravações e pagava músicos e técnicos, ele passou a se responsabilizar pela criação de arranjos e engenharia sonora. Como efeito principal, aumentou sua capacidade de influenciar carreiras individuais e, por extensão, os rumos dos gêneros musicais. Respeitado como instrumentista, Paulão recebia compositores das velhas guardas que não sabiam nem o tom da música - cantarolavam a melodia e diziam a letra somente. Ele passava o dia inteiro dentro do estúdio estudando a composição a partir dessas pistas iniciais para propor a melhor harmonia e o arranjo mais adequado. Nos anos 1980, ele dirigiu os discos das velhas guardas da Portela (Doce Recordação) e Mangueira (Mangueira Chegou), feitos para o mercado japonês. Depois, tornou-se assistente musical do produtor e maestro Rildo Hora - fiel escudeiro musical de Zeca Pagodinho -, com quem trabalhou durante dez anos.Um dos seus marcos é a direção musical de Tudo Azul, CD da Velha Guarda da Portela lançado em 2000 e produzido por Marisa Monte. "Dos discos que arranjei esse é o que mais me emociona", diz. "Tudo Azul é de grande importância para quem se interessa por samba tradicional e deseja aprofundar-se no assunto." Outro CD importante é Memória em Verde e Rosa - de Tantinho da Mangueira -, ganhador do prêmio TIM de 2007 de melhor disco do gênero e cuja direção é assinada por Paulão. Quando não está dirigindo shows, como Uma Prova de Amor, de Zeca Pagodinho, que, na sexta e sábado, se apresenta no Credicard Hall (tel. 6846-6000), Paulão tem como rotina viver dentro do estúdio. Na semana passada, o instrumentista nascido no bairro do Estácio finalizou dois CDs - Fases do Coração, do novato Moyses Marques, e a estreia-solo de Mário Sérgio, ex-integrante do Fundo de Quintal, trabalho ainda sem nome. O próximo projeto é produzir um CD e um DVD da Zezé Motta."Portelense doente", Paulão toca violões de 6 e 7 cordas, além de cavaco. Tem composições próprias, que por enquanto não pretende levar ao disco, apesar dos convites insistentes para gravar tocando e cantando. Ele acredita que, atualmente, os violonistas acompanhantes estão mais valorizados. Pouco notada, a atuação dos acompanhantes é essencial. Seu som tem a função de preencher os buracos deixados por outros instrumentos, dando corpo à harmonia. "Todos devem aparecer", essa é sua crença. Paulão 7 Cordas, com desempenho longe dos holofotes, cumpre uma regra indispensável da batucada, a que diz ser proibido atravessar o samba.

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