Aquele outro ano que não terminou

Jornalista americano defende que os marcos iniciais das transformações da década de 1960 estão, na verdade, em 1959

Patricia Cohen, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

A impressão que temos dos anos 1950 como plácidos, suburbanos e conformistas pode ser raspada facilmente com o toque de uma unha. Ao longo dos últimos 15 anos, historiadores e escritores têm revelado que muitas das grandes explosões políticas, culturais e tecnológicas dos anos 1960 tinham raízes em pequenos rastros de pólvora da década anterior. Agora, Fred Kaplan, jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer, tenta ir um pouco além e resumir esse período em apenas um ano em seu novo livro, 1959: The Year That Changed Everything (John Wiley & Sons). Citando Lunik 1, a espaçonave soviética que atingiu a atmosfera da Terra, e as declarações de Herman Kahn sobre como vencer uma guerra nuclear, Kaplan escreve que ''esse precipício duplo - o prospecto de possibilidades infinitas e da aniquilação instantânea - deu a 1959 papel fundamental no lançamento de energia criativa''.Seja lá como os jovens rebeldes dos anos 60 amplificaram as transformações nas relações raciais, na música, na política e no comportamento sexual, Kaplan insiste: esses cataclismos vieram das revelações e revoltas de 1959. Para provar sua teoria, ele nos oferece pequenos e envolventes retratos dos principais inovadores dos anos 1950, como Miles Davis, Norman Mailer e Gregory Pincus, um dos inventores da pílula anticoncepcional; e também de outros menos conhecidos, como George Russell, teórico do jazz, John St. Clair, inventor do microchip, e Barney Rosset, dono da Editora Grove, que entrou na Justiça pelo direito de publicar O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, após o correio americano ter confiscado cópias não censuradas do livro, afirmando que elas violavam leis contra a obscenidade.O que fica claro ao longo da leitura, no entanto, é que qualquer outro dos eventos dessa década poderiam servir tão bem - e, em alguns casos, até melhor - como pontos de virada. A História raramente se ajusta ao calendário gregoriano. E em alguns instantes Kaplan acaba esticando sua teoria até dimensões pouco naturais. Sim, 1959 pode afirmar que viu Fidel Castro chegar ao poder, a criação da Motown, a venda do primeiro computador funcional. Mas emblemas de uma nova geração, como o filme Rebelde Sem Causa, apareceram antes. E por que, por exemplo, escolher Lunik 1 como o ponto de partida da corrida espacial e não a viagem ao redor do globo feita pelo Sputnik em 1957, que levou os Estados Unidos a criarem a Nasa? Por que falar nas palestras de Kahn e não na maneira como o sucesso do teste de um míssil intercontinental soviético em 1957 fez com que o governo americano criasse uma comissão para discutir estratégias para uma guerra nuclear? Como explicar a ausência de leituras públicas da poesia de Allen Ginsberg, a partir de 1956, em São Francisco? On The Road, de Jack Kerouac, a propósito, foi lançado em 1957.Nesses casos, e em muitos outros, a resposta parece ser simplesmente porque não aconteceram no ano escolhido pelo autor. É uma pena, afinal, o foco constante em 1959 acaba deixando de lado a discussão mais importante de como músicos, escritores, pintores, atores e outros dividiam preocupações similares. Na arte ou na sociedade, o impulso era similar: abandonar convenções, regras, tradições. Essa necessidade ajudou a realização dos eventos dos anos 60. Verdade seja dita: o livro de Kaplan joga luz sobre eventos menos conhecidos e bastante significantes para a compreensão da revolução que começava a ser esboçada. Mas, no fundo, é preciso dizer: pouco importa se todos eles cabem em um só ano.

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