Aprender a ver com olhos livres

Em A Visão em Paralaxe, Slavoj Zizek se vale de múltiplas referências para analisar a contemporaneidade

Ricardo Lísias, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2009 | 00h00

Ao contrário de Mike Davis e Edward Said, por exemplo, Slavoj Zizek é o tipo de intelectual que deve ser pesado livro a livro. Não resta dúvida de que, dentro do panorama contemporâneo, alguns de seus ensaios estão entre os mais intrigantes e lúcidos. Outros, porém, parecem-me um tanto precipitados e indicam que o filósofo às vezes ou é inconsequente demais ou não percebe que o resultado de suas brincadeiras é só a oferta de munição, de grosso calibre, para o conservadorismo que, infelizmente, está de novo crescendo no Brasil. O livro de Zizek sobre Mao Tsé-tung, em tudo inaceitável , é um exemplo disso.Já A Visão em Paralaxe, que a editora Boitempo acaba de colocar no mercado, faz parte do lado absolutamente interessante da obra de Zizek. Às vezes complexo, outras iluminado, sempre denso e rico, o livro exige cuidado, talvez mais de uma releitura, e é cheio de nuances e detalhes. Zizek manipula uma quantidade enorme de referências, ligando a psicanálise ao cinema, unindo um ficcionista contemporâneo como Juan Jose Saer a Hegel e discutindo neurociência com política.A princípio, pode parecer que um referencial tão variado prejudique uma possível unidade ou, acusação mais clichê ainda para esse tipo de ensaio, impeça mergulhos em profundidade. Não é o caso: sendo incontornavelmente contemporâneo, tendo o nosso mundo como alvo exclusivo, Zizek sabe que a multiplicidade é obrigatória. Um viés apenas, seja qual for ele, já não dá mais conta da nossa sociedade.É muito difícil resumir em poucas linhas a proposta do livro, ou seja, o que é "a visão em paralaxe". Em termos gerais, trata-se de uma espécie de maneira alternativa (ou nova) de enxergar objetos que, por estarem às vezes comprometidos, outras em ligação muito íntima, ou que às vezes são idênticos, mas ocupam tempos e espaços diferentes, em alguns casos não são visivelmente apreensíveis. Simplificando muito, é uma mudança no olhar. A crise no marxismo, por exemplo, será melhor compreendida se for observada em paralaxe.O que não pode escapar ao leitor é a agudeza com que Zizek constrói o seu conceito: para apresentar a paralaxe ele adota um viés em... paralaxe! Assim, o humor, que quase nunca aparece em livros de filosofia, está sempre presente, bem como inesperadas alusões a sexo, arte moderna e tortura em Abu Ghraib. Aliás, o tópico sobre a célebre cadeia iraquiana (que agora virou presídio-modelo, o que exigirá uma visão em paralaxe de sua realidade...) é um dos mais bem acabados do livro e talvez mereça continuação.Entre parênteses, eu tenho a impressão de que a fama de Zizek no Brasil também exigiria uma visão em paralaxe, já que ele é em tudo diferente do nosso padrão de intelectual: não pratica o corporativismo, discorda dos colegas citando-os nominalmente e, o tempo inteiro, relativiza o próprio lugar. O trecho a seguir é exemplar disso: "Hoje, a ameaça não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser ?ativo?, de ?participar?, de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, ?fazem alguma coisa?, os acadêmicos participam de ?debates? sem sentido e assim por diante, mas a verdadeira dificuldade é dar um passo para trás, é se afastar disso tudo."Mesmo esse esforço de constrangimento talvez faça parte do projeto de Zizek: expor a precariedade do próprio meio, não ter essa tentativa sequer notada e ser celebrado por inteiro, denunciando assim, outra vez e de forma ainda mais aguda e violenta, o grave problema das instituições intelectuais, ou de qualquer instituição. Se for mesmo isso, então o parágrafo inicial do meu texto deve ser relativizado: não devemos dividir a obra de Zizek, mas observá-la em paralaxe.Aqui, então, Zizek de fato entra em um grupo muito restrito de pensadores que adotam na forma do texto a hipótese que pretendem desenvolver. Trata-se de um procedimento raro e muito sofisticado. No caso dele, ainda, o artifício vai além e engloba a sua própria postura intelectual. Levar um intelectual como Zizek a sério (como merece um ensaísta de sua estatura) é então observá-lo mudando o olhar. Ele está tentando fazer o mesmo com a filosofia. Com um projeto muito agudo de oferecer ensaios em graus variados de importância, e com possibilidades maiores ou menores de ser aceitos, talvez às vezes até apelando para ser advertido (na internet é possível achar vários vídeos em que ele se comporta como um ator cômico e canastrão), Zizek procura a todo custo trazer a paralaxe para o centro do debate e, assim, tentar de fato empreender uma mudança. Por enquanto, inclusive e talvez sobretudo no Brasil, ele tem fracassado: a postura de Zizek e sobretudo A Visão em Paralaxe demonstram como por aqui está cheio de gente que pensa que pensa.Ricardo Lísias, escritor, é autor de, entre outros,Duas PraçasA Visão em ParalaxeSlavoj ZizekTradução de Beatriz MedinaBoitempo, 251 págs., R$ 74

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