Após sono reparador, dona de casa produz best-sellers

A americana Stephenie Meyer escreve mirando as meninas de 14 a 18 anos, mas agrada mais às de 50

Geraldo Galvão Ferraz, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

Essa, Paulo Coelho e J.K. Rowling perderam. Quem teve a sacada foi Stephenie Meyer, 34 anos, uma dona de casa de Phoenix, no Arizona, que acordou certo dia de um sonho estranho. Não se sabe o que ela comeu no dia anterior - Bram Stoker tomou uma sopa de caranguejos e, no dia seguinte, começou a escrever Drácula. Mas Stephenie sonhou com um vampiro lindíssimo e uma garota comum. Era o ponto de partida de Crepúsculo (Ed. Intrínseca, 416 págs., R$ 39,90), primeiro romance de uma série de quatro que a tornou milionária, com vendas de 15 milhões de exemplares e tradução em 37 línguas. No Brasil já foi lançado o segundo, Lua Nova (Ed. Intrínseca, 480 págs., R$ 39,90), e logo virão Eclipse e Breaking Down. Bem, e a sacada? Nada demais: Stephenie resolveu usar algumas (poucas) convenções do vampirismo tradicional em uma surrada história de amor impossível. Só que escreveu para o que nos Estados Unidos se chama de "young adults", ou seja, adolescentes de 14 a 18 anos, que lá têm escritores e livros especializados. Quem já folheou um livro da série Gossip Girl sabe do que se trata. Falando nisso, não é um grupo de leitores exigente em termos de estilo ou boa técnica literária (Crepúsculo confirma a regra).Na sua mensagem para essa faixa de público, Stephenie Meyer derrubou muitos tabus. Os vampiros, por exemplo, não têm problemas com o sol (ao contrário, os raios solares mudam sua pele para algo como diamantes faiscantes), tomam o sangue de animais, excluídos os humanos, então se chamam de vegetarianos, não têm medo de crucifixos, nem de alho. Mais para a frente na série surgem lobisomens, que se transformam em lobos sem a menor explicação. Bella, a garota comum que se apaixona pelo vampiro, é um personagem que faz a liberação feminina recuar pelo menos uns dois séculos. Desvairada pelo seu vampiro, Edward, ela é uma campeã da submissão e a certo ponto do livro é chato acompanhar seus "você é lindo!" e coisas no gênero. Herdeiro do misterioso senhor do castelo que se interessa pela plebéia nos folhetins antigos, mais cavalheiro que vampiro, Edward não chega à hora H e também não se aproxima do pescocinho de Bella, pois quer preservar a sua "alma" (da garota, claro).Como ninguém conseguiu explicar, as adolescentes adoraram, mas as maiores fãs de Crepúsculo são mulheres de 50 anos, talvez procurando um sonho de devoção que as feministas lhes roubaram. É uma série, aliás, tipicamente feminina, ao contrário de, por exemplo, Harry Potter. Stephenie imagina escrever a história do ponto de vista do vampiro, mas não por enquanto, já que suas primeiras páginas da versão pelo avesso foram roubadas e colocadas na internet. Em vez disso, publicou um livro de ficção científica, The Host, sobre aliens que invadem a Terra e tomam conta dos corpos humanos. A heroína é "possuída", mas tanto comunica ao E.T. dominador a maravilha que é seu amado Jared, que o alien se apaixona por ele e arma uma aliança para ambos buscarem o precioso.O filme Crepúsculo certamente vai ampliar a febre pela história de Stephenie Meyer, que já tem mais quatro projetos em andamento e confessa que não consegue mais parar de escrever. Prudente, seu marido Christian Meyer, o "Pancho", largou o emprego de auditor numa firma de contabilidade e se tornou pai dos três filhos em tempo integral.

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