''Após era Bush de homofobia, uma nova saída do armário''

Gus Van Sant diz que, apesar da força da história real, o que o levou a fazer o filme foi o roteiro escrito por Dustin Lance Black

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

É interessante que Milk se abra com imagens de arquivo mostrando a erupção de policiais em bares gays de Nova York, nos anos 70. Esses bares eram verdadeiros guetos e os frequentadores procuram preservar suas identidades, tapando o rosto. Oito anos mais tarde - o tempo da pregação de Harvey Milk -, agora é o próprio personagem, interpretado por Sean Penn, quem protege o rosto, no desfecho do filme. Ele está na mira do revólver de seu assassino. As balas que o atingem o fazem rodopiar e a última imagem que Milk vê é a da casa de ópera de São Francisco, uma licença poética de Gus Van Sant.Razão e sensibilidade. O Milk das primeiras cenas - o relato tem o formato de flashback, um depoimento que o próprio personagem deixa gravado, pois teme ser assassinado - é um homem consciente de que chega aos 40 anos sem nada ter feito. Ele abandona Nova York com o amante - James Franco - e em São Francisco inicia sua militância política. O filme contrapõe a ficção e o documentário, por meio de imagens de arquivo em que aparece a verdadeira Anita Bryant, oponente de Milk e da causa gay em geral, uma ex-cantora que virou porta-voz dos puritanos, com seu brado de que era preciso matar homossexuais "por amor a Cristo".Em Berlim, Van Sant lembrou que tinha 26 anos quando Milk foi assassinado em São Francisco. Por sua militância, ele fora alçado a um cargo político, desempenhando uma função legislativa - espécie de vereador - na Câmara local. O fato não o marcou particularmente, nem foi determinante para que ele quisesse fazer agora o filme. O que o seduziu foi o roteiro de Dustin Lance Black. "O assassinato, na época, foi uma coisa muito local. Só depois adquiriu a importância que possui hoje." Narrar essa história justamente quando a presidência de Barack Obama inicia nova fase nos EUA, após a homofobia da era George W. Bush, equivale, como ele diz, a "uma nova saída do armário".Van Sant conta que, anterior ao projeto sobre Milk, havia seu desejo de fazer um filme sobre Castro, o bairro de São Francisco em que Harvey foi morar, ao abandonar Nova York. Castro possuía uma alta concentração de gays e foi lá que Milk iniciou sua luta por direitos civis. O projeto sobre Castro aproximou Van Sant de Dustin Lance Black, mas era uma relação superficial. Van Sant sonhava com uma abordagem antropológica e, quem sabe, teria feito um filme de linguagem mais ousada, como Last Days e Paranoid Park. O roteiro de Dustin Lance deu um centro dramático ao que estava muito vago na sua cabeça. Mas ainda havia um problema - o ator para fazer o papel.Van Sant agradeceu a Sean Penn por sua generosidade. Ator engajado, ele se interessou pelo assunto quando o diretor o encontrou num festival e ambos conversaram vagamente. Van Sant pensava que Penn até já se havia esquecido da proposta. A entrega do ator é total - "Eu quero você!" (ou "Eu te recruto!"). O duelo de domingo no Oscar promete ser emocionante - Mickey Rourke, ou a segunda chance, o retorno, em O Lutador. Sean Penn, o glamour, a transformação, em Milk. Penn é melhor. Se ganha, é outra história. A estatueta de melhor ator promete arrombar a festa.

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