Apenas o Fim é um ótimo início

No Rio, longa de estréia de Mateus Souza mostra que o diretor tem estilo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de outubro de 2008 | 00h00

Quando Andréa Cals, que apresenta os filmes da Première Brasil, anunciou no domingo à noite que haveria segundo turno nas eleições do Rio e que Fernando Gabeira seria o oponente de Eduardo Paes, o público do Cine Odeon BR quase veio abaixo. Houve uma grande ovação e, logo em seguida, quando se apagaram as luzes, uma voz tonitruante fez-se ouvir, comemorando - "O Rio derrotou Crivella." O Festival do Rio 2008 toma partido, senão oficialmente o festival, seu público - e ele é verde. Outras ovações se fizeram ouvir na noite - na abertura e no encerramento de Apenas o Fim, longa de estréia de Mateus Souza. Aguarde só mais um pouco - Apenas o Fim está garantido na seleção da Mostra Internacional de São Paulo, que começa dia 16 para convidados e dia 17 para o público.Dominguinhos - muita gente se referia assim, carinhosamente, a Mateus Souza, estudante da PUC do Rio que fez, entre amigos e na própria Pontifícia Universidade Católica do Rio, o seu primeiro filme. Apenas o Fim fez lembrar a muita gente o estilo de Domingos Oliveira. É um filme que foge ao perfil usual do cinema brasileiro. A própria produtora Marisa Leão, dos filmes de Sérgio Rezende e do filme brasileiro de maior sucesso de público deste ano - Meu Nome Não É Johnny, de Mauro Lima -, entrou no espírito do primeiro filme e trata Apenas o Fim como uma cria muito especial. A história trata deste casal de namorados, ambos universitários. A garota anuncia logo de cara que está indo embora. O namorado quer saber o que está ocorrendo. Ela anuncia que tem apenas uma hora para discutir o fim da relação. O filme, que dura 80 min, é basicamente a história desta conversa, acrescida de flash-backs que visualizam momentos importantes da vida da dupla.Mateus Souza tem estilo, e não apenas no filme, que incorpora a urgência de falhas ?técnicas? à narrativa. Quando o filme começou a ratear, como se tivesse ?rebentado? a fita, um espectador observou para a mulher - "Xiii, a cópia está ruim." Mas não era. Um filme intensamente falado necessita de bons atores. O garoto Gregório Duvivier tem futuro. Ela, Érika Mader, sobrinha de Malu, possui um charme todo especial. Não é difícil se interessar pelo que diz a dupla, mas a pegada é principalmente para platéias de gente jovem. Em que outro filme brasileiro você vê os personagens discutindo Cavaleiros do Zodíaco e Pokémon? O próprio Mateus é fashion. Ele subiu ao palco elegantemente vestido com displicência. Paletó, gravata, calça jeans e tênis. Há um toque de Woody Allen na sua persona, tão jovem, e isso tem a ver, talvez, com outra influência sobre ?Dominguinhos? - Woody Allen.Seja como for, meia PUC devia estar no Cine Odeon BR, porque cerca de 40 pessoas subiram ao palco e o filme foi muito aplaudido antes e depois. Um filme de amigos? Pode ser, mas a nouvelle vague e o próprio Cinema Novo começaram assim. A exibição de Apenas o Fim para uma platéia não carioca - em São Paulo - vai mostrar o alcance (ou o limite) do filme. No Rio, ele leva jeito de pegar. Outro diretor jovem - embora não tão jovem quanto Mateus Souza - também participou da programação da Première Brasil no fim de semana. Se Nada Mais Der Certo é o quarto longa de José Eduardo Belmonte e o fim da sua tetralogia, que começou com Subterrâneos. Seguiram-se A Concepção e Meu Mundo em Perigo, que permanece inédito, quase um ano depois de ser premiado no Festival de Brasília de 2007. Belmonte, obviamente, está preocupado com o ineditismo de seu longa anterior. Ele promete um lançamento ?de guerrilha? para Meu Mundo em Perigo, até o fim do ano.Bem mais interessante do que A Concepção, Apenas o Fim prossegue com as pesquisas de Belmonte. A história é fragmentada e não necessariamente linear, ou não parece linear. Em vários momentos, o espectador fica em dúvida sobre a linha de tempo da narrativa e suas rupturas, mas isso faz parte do estilo do realizador. O que faz a diferença é que os personagens são mais verdadeiros e não simples marionetes para alguma coisa que ele esteja querendo dizer, como em A Concepção. Cauã Raymond faz o protagonista, um escritor (roteirista) para quem nada está dando certo. Ele se envolve com uma mãe solteira, que lhe entrega o filho para criar, e com uma menina que age e se veste como garoto. É por intermédio dela que Cauã ingressa numa vida de criminalidade, em companhia também de João Miguel, como um motorista de táxi. Entre transgressões afetivas e sexuais - e também tiroteios -, o que Belmonte constrói aqui é uma família que não tem nada a ver com o modelo biológico.O festival aproxima-se da reta final - o encerramento será na quinta à noite, com o anúncio dos vencedores do troféu Redentor nas duas Premières, a Brasil e a Latina. O cineasta mexicano Arturo Ripstein já está no Rio para receber hoje à noite a homenagem da Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, que lhe outorga o troféu Latin American of the Year, um prêmio de carreira, por sua contribuição ao desenvolvimento do cinema latino-americano. Viggo Mortensen também está no Rio para prestigiar a apresentação, amanhã à noite, do longa de Vicente Amorim, Um Homem Bom (Good), adaptado da peça de C.P. Taylor. Amorim, um cineasta brasileiro - O Caminho das Nuvens -, dirige a produção anglo-alemã sobre professor universitário que escreve um livro defendendo a eutanásia e é cooptado pelos nazistas para colaborar com o regime. O tema do filme é a responsabilidade e Mortensen segura bem um papel difícil, mas isso não é novidade. É um ótimo ator.

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