Apaixone-se por Jericoacoara

Você até pode tentar, mas vai ser difícil, muito difícil, resistir à certeira mistura de clima rústico e natureza nota 10

O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2008 | 00h00

Há um lugar na costa brasileira onde o salto agulha não existe, o asfalto está a pelo menos 15 quilômetros de distância e não há iluminação na rua, a não ser em noites de lua cheia. Um raro lugar onde o sol se põe no Atlântico, num espetáculo que pode ser visto do alto de uma duna de 30 metros. Um cosmopolita e democrático lugar, que une europeus e brasileiros, mochileiros e milionários, atraídos pelas belezas naturais e pelo clima rústico daquela que foi considerada uma das dez praias mais bonitas do mundo pelo jornal Washington Post. Um lugar que se chama Jericoacoara. Se ainda não ouviu falar, prepare-se para se apaixonar. Se nunca foi, cuidado, pois não vai mais querer voltar de lá.Não dá para explicar exatamente em que reside o encanto de Jericoacoara, que faz com que inúmeros turistas decidam abandonar tudo para viver na antiga vila de pescadores. Fato é que esta parece ser uma epidemia por lá. Talvez seja a combinação do mar azul com a areia branca, das impressionantes dunas com as lagoas de água doce, dos coqueiros com redes penduradas. Ou o fato de o sol reinar o ano todo e o vento oferecer mais do que a sensação de liberdade, sendo um aliado de praticantes de wind e kitesurfe. É possível que seja o maravilhoso espetáculo do anoitecer visto da duna do Pôr-do-Sol, enquanto rodas de capoeira se espalham pela praia principal. Ou ainda o clima tranqüilo, quase alternativo, de noites agitadas pelo forró, que toma conta da vila de 5 mil habitantes. Mais provável que seja a combinação de tudo isto.Dizem por lá que todos os dias são iguais em Jeri, como é carinhosamente chamada. Injustiça. A duna da temporada passada já mudou de lugar, o riacho da semana anterior encontrou outro rumo. Mais justo seria dizer que todos os dias são embalados pelo mistério da vila de ruas de areia, que não tem postes de transmissão de energia e mantém longe qualquer estresse de cidade grande - embora seja fácil achar um cibercafé e ótimas opções gastronômicas e de hospedagem. A cada ano, Jeri tem ficado mais internacional, aconchegante, sofisticada e simpática. Estrangeiros que invadiam a região no segundo semestre para aproveitar o sol e os ventos, agora estão decididos a ficar e a montar seus negócios. De cinco anos para cá, as pousadas investiram no layout e nas acomodações e a entrada do hotel Mosquito Blue acelerou este processo. De crepes e pizzas a comidas típicas regionais, como as peixadas e o robalo, além de bares, a vila está bem servida de opções. E o melhor: você pode ir para estes lugares bacanas com um confortável chinelo de dedos. Durante o dia, no entanto, o melhor é contratar um buggy ou um veículo com tração 4x4 para descobrir outros paraísos locais. No sentido sudeste, passando pela pitoresca e deserta praia do Preá, onde é possível ver pescadores e wind ou kitesurfistas em ação, siga para a Lagoa Azul, a cerca de 20 km dali, em Cruz. Em anos de muita chuva, com céu azul, a lagoa de água doce exibe uma coloração comparável à do Caribe. Não dá para deixar de fazer o passeio à Nova Tatajuba, vilarejo de Camocim que teve de ser totalmente reconstruído após ser soterrado pelas dunas. Competindo com as atrações naturais, está a quase folclórica Delmira Silvestre das Chagas Silva, uma espécie de Maria Bonita da região, mais de 50 anos, que não deixa a história do povoado morrer. "Quando comecei a criar entendimento, as dunas já tinham começado a vir da praia para cá. Quando chegaram, as casas caíram com o peso da areia", conta ela, que morava ao lado da igreja, a última construção a desaparecer no início dos anos 80. Delmira diz que as dunas levaram 15 anos para soterrar as 150 casas. Dá para passar uma tarde inteira de papo com a moradora, que é cheia de causos de assombração na duna Encantada, local de onde os turistas descem sentados em pranchas de madeira quando a duna do Funil está inacessível. Mas o melhor mesmo é seguir viagem para a Lagoa da Torta, para um banho refrescante em águas doces e de razoável infra-estrutura, com restaurantes rústicos e pratos bem servidos.Sair de Jeri sem visitar a Pedra Furada, na Praia Malhada, é desrespeitar um maravilhoso clichê. A pé ou a cavalo, pela praia ou pelo morro do Serrote, passando por um sem-número de jegues soltos, dá para alcançar a formação rochosa que virou símbolo da vila - a melhor época para vê-la é entre 15 de junho e 15 de julho, quando o sol encaixa-se perfeitamente no furo da pedra, explica o guia Waldemar Justo do Nascimento Filho, o Marzinho. Faz parte da tal magia que atrai, em alta temporada (de julho até o carnaval), 35% de turistas estrangeiros. Nesta época, é bom reservar o pacote com dois meses de antecedência, pois o vilarejo fervilha de gente bonita - de casais em lua-de-mel a solteiros e famílias. Afinal, se Jeri foi um lugarejo hippie nos anos 70, agora virou hype. "Jeri mexe espiritualmente com a gente, proporciona uma paz e uma tranqüilidade que não se encontra na maior parte das praias", define Sheila Sousa, 26 anos, gerente Mosquito Blue. Há oito anos, ela foi a passeio para a vila, com o marido e dois filhos, e nunca mais voltou: ligou para a mãe e pediu que ela comunicasse seu chefe sobre sua demissão. É a epidemia do encanto de Jeri.

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