ADRIANA MOREIRA/ESTADÃO
ADRIANA MOREIRA/ESTADÃO

Aos 40 anos, o Centro Georges-Pompidou é uma casa de cultura de importância mundial

Centro cultural em Paris foi muito contestado na sua construção, mas se tornou referência das artes moderna e contemporânea

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2017 | 03h00

CORRESPONDENTE / PARIS - Uma das maiores casas de cultura do mundo, o Centro Georges-Pompidou, em Paris, acaba de completar 40 anos de sua abertura ao público. Muito contestado no momento de sua construção, o espaço se tornou uma referência das artes moderna e contemporânea de todo o mundo, com um acervo de mais de 100 mil obras. Ao completar quatro décadas, o centro é um estrondoso sucesso de público, com filas diárias que podem superar uma hora para assistir a suas exposições, sessões de dança ou cinema – um repertório multidisciplinar que prova que seu criador era de fato um visionário.

O centro foi imaginado no final dos anos 1960 pelo ex-presidente da França Georges Pompidou, que peitou a desconfiança da opinião pública para tornar concreto o espaço que acolheria sua própria visão das artes. “Eu queria apaixonadamente que Paris possuísse um centro cultural como criaram nos Estados Unidos com um sucesso até então inigualável, que fosse ao mesmo tempo um museu e um centro de criação, onde as artes plásticas se avizinhariam com a música, o cinema, os livros, a pesquisa audiovisual”, justificou o chefe de Estado após o lançamento do projeto.

Em 1969, após a decisão presidencial, a ideia de um estabelecimento “policultural” começou a deixar os gabinetes do Palácio do Eliseu e vir ao mundo. Em dezembro de 1970, o grupo de trabalho criado para viabilizar a iniciativa lançou o edital de um concurso internacional de arquitetura para escolher o projeto que seria construído em Beaubourg, região do bairro de Marais, então em decadência após a 2.ª Guerra Mundial. A exigência do Estado seguia à risca a instrução do presidente: um centro aberto às artes moderna e contemporânea, sem um objetivo preciso além de abrigar um acervo internacional de prestígio e de se tornar uma “casa comum” para acolher toda forma de experiências. E para tanto sua arquitetura deveria acompanhar o desafio da inovação.

A corrida mundial para desenhar o então denominado Centro Beaubourg acabou em 1971, quando os vencedores foram conhecidos entre os 681 candidatos: os jovens Renzo Piano e Richard Rogers – que se tornariam mais tarde estrelas mundiais da arquitetura – e Gianfranco Franchini. O projeto do trio era tão iconoclasta quanto a proposta que Pompidou queria construir no coração de Paris: um gigantesco espaço de arquitetura pós-industrial de estruturas aparentes, marcado por seus tubos de aço coloridos e por uma escadaria panorâmica que percorre toda a fachada. “Trata-se do sonho de uma relação extraordinariamente livre entre a arte e as pessoas, em que respiramos a cidade ao mesmo tempo”, definiu Piano, que se dizia pronto a “demolir a imagem de um prédio cultural que dá medo”.

A reação a tanta modernidade foi imediata: parte da opinião pública gritou “Não!” ao gigante que emergiria no centro da capital. Mais uma vez, Pompidou foi o fiador para garantir a viabilidade do projeto, só concluído após sua morte, graças a uma outra personalidade política: o então premiê Jacques Chirac, que ameaçou se demitir caso as obras não fossem retomadas após a paralisação. 

Em 31 de janeiro de 1977, o Centro Georges-Pompidou abriu suas portas com 100 mil obras de arte catalogadas e se tornou o maior dos dois gêneros na Europa, com uma das três mais importantes coleções de artes moderna e contemporânea do mundo, ao lado do MoMA de NY e o Tate Modern, de Londres. “Em 31 de janeiro de 1977, eu estava em meio à multidão para assistir de longe à inauguração do Centro Georges-Pompidou, no bairro em que eu morava. Em 2 de fevereiro, eu estava entre os primeiros visitantes a descobrir, inebriado, esse brinquedo cultural de um novo gênero”, conta Jean-Jacques Aillagon, três vezes presidente da instituição, entre 1996 e 2002. “Organizei o 20.º aniversário da instituição e continuo muito ligado”, conta o executivo, uma das autoridades da França em patrimônio artístico.

Nos 40 anos do Pompidou, exposições e eventos de artes plásticas se confundem com festivais e espetáculos de música, dança, leituras, vídeo, cinema. Na sua biblioteca, estudantes do mundo inteiro fazem fila para estudar até em sábados e domingos à tarde. Mais de 3,3 milhões de pessoas visitam o prédio todos os anos, com picos de até 5,2 milhões, como em 2013.

Nesse período, um dos maiores méritos do Pompidou foi reiterar ao mundo que as artes dignas de um museu não são apenas as clássicas ou suas derivadas, e que o público também é apaixonado pela descoberta do novo. A prova veio logo em 1977, quando a célebre exposição A Obra de Marcel Duchamp, que o curador Jean Clair tratou de apresentar de forma revolucionária, à altura do artista. Desde a época, o top 10 de maiores exposições inclui desde Dalí, em 1979 e 2012, passando pela Trilogia Histórica de Pontus Hulten – Paris/New York, Paris/Berlin e Paris/Moscow, entre 1977 e 1979, até Koons, em 2014, em homenagem ao artista plástico americano Jeff Koons, célebre não só por seu culto ao kitsch, como pela polêmica que provoca por onde passa.

Para Philippe Artières, historiador da arte e diretor de pesquisas na Central Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), Beaubourg – como os parisienses ainda chamam com carinho o Centro Pompidou –, o espaço tornou-se desde sua abertura uma obra de arte em si. “O efeito Beaubourg continua muito forte.” Para o acadêmico, cada novo artista exposto é um hóspede efêmero de algo perene. “Não viemos ver Magritte”, diz ele, referindo-se à mostra hoje em cartaz. “Nós viemos a Beaubourg.”

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