Antonio Vieira, um mestre maranhense

Compositor, que morreu dia 7, teve reconhecimento tardio

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2009 | 00h00

Faz uma semana que morreu o veterano compositor maranhense Antonio Vieira. Infelizmente, a notícia passou meio batida nos meios de comunicação. Ironicamente, o reconhecimento tardio faz parte de sua história. Mestre Vieira só ganhou notoriedade fora do Maranhão quando teve uma deliciosa canção gravada pela conterrânea Rita Ribeiro em seu álbum de estreia, de 1997. A graça, a sensualidade e o magnetismo de Cocada a fizeram um clássico de seu repertório. Outras faixas seguiam na mesma linha, Tem Quem Queira e Banho Cheiroso, esta incluída por Rita em seu segundo CD, Pérolas aos Povos.E pérolas nunca faltaram no cancioneiro de Vieira, um sambista que teve discos lançados de forma independente. Rita e o também maranhense Zeca Baleiro foram os grandes responsáveis por promover a música de mestre Vieira, também conhecido como o Cartola do Maranhão. Zeca produziu o álbum O Samba É Bom, gravado ao vivo num teatro de São Luís, com honras de gala, quando Vieira fez 80 anos, em 2001. Sivuca, Elza Soares entraram como convidados, além de Rita e Zeca.Em 2004, Vieira participou de um projeto de samba no Sesc Vila Mariana, dividindo o palco com outro veterano, o baiano Riachão. Na ocasião, o Estado reuniu os dois para um bate-papo sobre música, sobre sua trajetória e outros assuntos. Sempre sereno, Vieira fez comentários do tipo: "O pobre quer ser rico, o rico quer ser nobre, o nobre quer ser artista, o artista quer ser Deus. Depois de Deus, só pode ser artista."Criado por uma família tradicional, Vieira mostrou-se na entrevista um homem reservado, comedido, o oposto do fogueteiro Riachão. Sua formação musical começou com Chopin, depois vieram os grandes cantores brasileiros. Sereno, mas provocador, Vieira fez críticas que os polianas da MPB atual não ousariam: "Na minha época não tínhamos esse aparato tecnológico de hoje. Mas, pelo menos na minha terra, noto que os antigos tinham mais talento que os novos", desafiou."Uma vez ouvi Djavan cantando Correnteza e minha sobrinha me disse que a música era dele. Não podia ser, ele não tem qualidade musical para fazer uma coisa dessas. Fui pesquisar e descobri que era de Tom Jobim e Luiz Bonfá." E recomendou que os jovens cantores pegassem a discoteca antiga e fossem analisar Donga, Pixinguinha, Noel Rosa, Assis Valente, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Vadico. "Aí iriam ver que estão longe dessa gente." Mestre Vieira sabia o que era bom e dava aulas de cultura maranhense. Deixou mais de 300 canções. Seu legado merece ser amplamente explorado.

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