Antônio Nóbrega e sua vocação para o sacolejo

Por quatro dias, ele estará ''estripuliando'' em Naturalmente, sua obra-legado

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

13 de agosto de 2009 | 00h00

A ambição não é pequena e, felizmente, ele possui as credenciais necessárias para dar conta dela. Antônio Nóbrega estreia hoje, no Sesc Vila Mariana, uma curta temporada de quatro dias de Naturalmente - Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira, uma obra-legado que tem como objetivo propor uma dança contemporânea brasileira de matrizes populares. Estará dividindo a cena com oito músicos e duas bailarinas, Maria Eugênia Almeida e Marina Candusso, que participaram da composição das coreografias, com Rosane Almeida. A luz é de Marisa Bentivegna, e os figurinos, de Eveline Borges.Toninho Nóbrega ri quando diz que essa é a sua "tese": "Não sou da academia e não sei pôr em livros um pensamento que gostaria de tornar mais público, daí decidi acondicionar nesse espetáculo, de uma forma lúdica, os conhecimentos reunidos em quase 40 anos de convívio com os artistas populares, mas não sem um temor", declarou ao Estado, em entrevista realizada no seu espaço, o Teatro Brincante, que fundou com Rosane Almeida em 1992, na Vila Madalena, em São Paulo.Mais conhecido por sua carreira de sucesso na música, afeiçoou-se à dança cedo, quando tinha 18 anos, mas a ela dedicou apenas três de seus 21 espetáculos: Reino do Meio Dia (1989), Figural (1990) e Passo (2008), sendo que, neste último, atuou mais como um olhar de fora do que como intérprete. "Tenho uma história muito ácida com a dança, pois não tive nenhuma formação, mas ter conseguido chegar aos 57 anos estripuliando com o corpo, já revela um saldo positivo. A música inibiu meu desenvolvimento na dança, mas me trouxe uma compreensão dela que talvez eu não tivesse, se não fosse músico."Isso se confirma quando revela ter encontrado algo em comum na variedade das danças regionais brasileiras: "Não são os passos, mas algo de uma ordem mais intensa e musical: é a presença da síncope, a valorização do tempo fraco. Existe um corpo sincopado, que se realiza no tempo fraco."Essa pode ser considerada a hipótese da sua "tese". Explica que as danças de extração europeia, como a pavana, são do tempo forte, marcadas no chão, e que o baião, o maracatu e o samba, por exemplo, são marcadas para cima. "A gente tem um corpo que tende para a traquinagem, que faz meneios, sacolejos, volteios, que ginga. Não se luta capoeira sem movimento de dança, ou seja, sem fazer um movimento sincopado na luta. Esse é o atestado do corpo sincopado."Para explicar melhor a dominância cultural da síncope, diz que ?até logo? é do tempo forte, e ?um supergrande beijo? é sincopado. E que os ritmos urbanos como o xote, o frevo e o samba foram construídos na sincopação. "A polca virou choro, o dobrado militar virou frevo, e foi o povo da cidade, já misturado, que fez isso, não foi o do meio rural."Identifica a nossa civilização com o primado do masculino, e o masculino, com o tempo forte, mas vê que se caminha para tornar o feminino mais presente.Para ele, no corpo popular, o inconsciente, na sua manifestação coletiva, se mantém com mais inteireza. "O corpo da dança brasileira contemporânea e o corpo popular brigam um pouquinho. E eu me pergunto se não é possível uma justaposição entre os dois, do tipo que já se realizou na música popular brasileira com o uso das matrizes populares, como Villa-Lobos e Radamés, Gnatalli, dentre outros, fizeram."Quem lembrar que o início de sua carreira profissional se deu no Movimento Armorial, lançado oficialmente no Recife no dia 18 de outubro de 1970, por um grupo de artistas e escritores liderados por Ariano Suassuna, vai poder localizar aí o embrião do seu discurso de agora. O Movimento Armorial advogava que o erudito deveria se apropriar do popular para construir uma linguagem brasileira."Abro o espetáculo com uma colagem de passos apresentados desordenadamente para mostrar como saio do caótico e, ao final, vou tocar e cantar, propondo um bailão com canções de Caymmi, Jackson do Pandeiro e mais alguns outros, que fazem da dança o seu tema."Toninho preparou um texto, que vai ler no palco, para evitar ser prolixo em cena. "Quis esclarecer o processo dessa dança que faço para quem não a conhece, mas não vou contar histórias. Serão quatro falas entremeando solos, duetos e trios."Como se vê, traz uma proposta séria e importante. "Não temos ainda uma dança brasileira. Só as folclóricas, ou as vigorosas transposições delas são identificadas com esse nome. Mas talvez haja um outro caminho. A visão nacionalista atrapalha muito, porque o que interessa é se apropriar de um conhecimento patrimonial para construir uma mesma sonância, uma linguagem de fundo coletivo."Faz questão de esclarecer que a linguagem que busca não é a da junção de passos, mas a da estruturação a partir de princípios comuns - o que o aproxima mais de Laban do que dos modernos que buscaram organizar seus códigos por meio de técnicas. O húngaro Rudolf Von Laban (1879-1958) caminhou em outra direção, quando criou um método e não uma técnica de dança, e Toninho Nóbrega parece ter tomado o mesmo rumo.Para a construção dessa dança brasileira contemporânea, Toninho Nóbrega tem investigado o que se faz necessário para que o corpo se dilate. Percebe que o dançarino precisa fabricar energia dentro dele, e que as danças que codificaram seus passos em uma técnica cuidam disso. Mas está interessado em criar esse mesmo tipo de circulação de energia, por exemplo, no ponta-de-pé/calcanhar, um passo do frevo. Por isso, tem se dedicado a explorar as oposições."Meu caminho, até aqui, é o da construção do vocabulário para falar com mais facilidade e dinamizar um processo onde há muito ainda por fazer. É o da recriação particular de um universo usando o léxico para sair dele e absorver outros léxicos, porque não se dança para mostrar vocabulário. A minha questão é descobrir em que medida o universo periférico da dança, nutrido por outros ingredientes, tem algo a dizer. Para responder, fui avançando, até construir uma dança brasileira contemporânea de matrizes populares. Não é uma dança de aproximação com o folclore, mas de transgressão dele."Essa dança se faz a partir de pequenas estruturas que dialogam com outras danças, como a clássica hindu, ou o balé. Ela está presente no corpo das duas bailarinas. "Cada uma tem a sua história. Maria Eugênia teve uma formação formal mais tardia, tendo começado com as danças populares. Marina partiu do balé clássico e da ginástica olímpica e só depois veio para o Brincante. No corpo de ambas, por trajetos opostos, está a marca da minha "tese", confidencia. ServiçoAntônio Nóbrega. 90 min. 12 anos. Sesc Vila Mariana (608 lug.). Rua Pelotas, 141, V. Mariana, 5080-3000. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 20. Até 16/8

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