''''Antônia foi inspirada em minha vida''''

A diretora Tata Amaral fala sobre o filme que acaba de sair em DVD e da segunda temporada da série na Globo que estréia sexta

Leila Reis, leilareis@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 00h00

Qual foi a isca que puxou a audiência na Globo?O estouro de 30 pontos de média no ibope se deu, acho, pelo fato de se retratar a periferia de São Paulo de forma humanizada. Nas noites em que era exibida não se via um gato nas ruas de bairros como Brasilândia, Parque Bristol, etc. E também por mostrar a história de pessoas de talento artístico, que trabalham em outros setores: as personagens são cobradoras de ônibus. As quatro garotas negras querem se impor pela música, mas só vão fazer sucesso agora nesta temporada e também não é aquele sucesso...O que você foi buscar na periferia?O cotidiano de pessoas comuns que batalham a vida. Ao falar de música, do rap, quero falar de pessoas que querem transformar o lugar onde moram, que lidam com a música e com o tanque de roupa ao mesmo tempo.Uma história que não falasse da aspiração ao show biz funcionaria?Não há show biz na série nem no Brasil. No Primeiro Mundo, a vida dessas meninas e a minha estariam feitas, eu não estaria com escritório dentro da minha casa.Como o filme surgiu?Quando comecei a escrever Antônia, havia ganho um prêmio em Santo André para fazer um documentário sobre hip-hop: Vinte e Dez. Esse trabalho me mostrou a função organizadora da música, porque os jovens nada mais fazem do que reconstruir a representação do negro na periferia por meio do rap. Escrevi o primeiro argumento de Lila Raper que mudei depois para Antônia (homenagem ao bisavô dela, contador de histórias). Ao pesquisar na periferia, encontrei meninas que tinham um sonho a realizar. Vi que a inspiração de Antônia era a minha própria vida: eu queria fazer cinema, mas tive minha filha com 18 anos e três meses depois estava viúva. Como elas, tive de fazer as duas coisas: cuidar de filho e batalhar o cinema.Por que você escolheu o bairro da Brasilândia?É o bairro mais cinematográfico de São Paulo, tem uma vista estonteante de 360 graus, porque é mais alto do que a Avenida Paulista. Não é à toa que todo mundo faz filme lá: Eles não Usam Black-Tie, O Invasor... Eu queria marcar o bairro em Antônia, da mesma maneira que marquei a Moóca com Céu de Estrelas.Regina Casé reclama muito de preconceito. Você também teve restrições à TV?Não sei o que é trabalhar na TV porque Antônia é feito de forma independente pela O2. Gostei de aprender o ritmo, porque na TV não há espaço para planos gerais e silêncios. Nunca tive uma formação de TV, ela entrou na minha casa quando eu tinha 9 anos e minha mãe só deixava ver um programa e nada mais. Caru, a minha filha, só ganhou uma TV quando estava com 8 anos. Só vejo noticiário e séries, mas não tenho preconceito. É um grande desafio fazer TV. Jorge Furtado me ensinou uma coisa: o telespectador é desatento e desinteressado. Se no cinema é preciso renovar o pacto com o espectador a cada dez minutos, na TV é a cada minuto. A história não pode parar, o telespectador não contempla, quer som e imagem o tempo todo.Dá para ser autoral na TV?A série Antônia é mais autoral do que o filme e mais do que Cidade de Deus. A obra não se descaracteriza porque foi para a TV. Vejo muitas coisas autorais: Boca de Cena, A Pedra do Reino, Cidade dos Homens.O que a nova temporada de Antônia promete?As meninas ficarão mais conhecidas. O foco será nos bastidores do show biz do grupo, elas farão turnê pelo interior de São Paulo, com mil trapalhadas. No episódio Pobres e Famosas, são convidadas para uma festa chique e não têm roupa. Em outro, vão decidir o que fazer com R$ 10 mil que cada uma ganhou. Quando estiverem bem famosas, vão se incomodar e buscar privacidade.Por que nem o filme nem a série melhoraram a carreira de cada cantora?Como não? São contratadas da Globo. Fazem shows em lugares melhores, mudaram de casa.

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