''Anticristo relê contos góticos de terror''

É como Lars Von Trier define, ao Estado, seu filme depressivo e ousado

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2009 | 00h00

Houve uma explosão incontrolável de riso, durante a sessão de imprensa de Anticristo no Festival de Cannes, em maio, quando a raposa diz a frase decisiva - ?Chaos reigns?. O caos instalou-se a partir daí. Risos, vaias. A coletiva foi uma das mais tensas da história recente do festival. Lars Von Trier foi agredido verbalmente. Misógino foi a mais leve das definições desaforadas que recebeu. A imprensa, de maneira geral, caiu matando. Não admira que dois dias depois, durante a entrevista realizada numa cabana do Hotel Du Cap, em Cap d?Antibes, Lars, como prefere ser chamado - não o chamem de Mr. Von Trier !- ainda estava tenso. Mas, dessa vez, o grupo reduzido de jornalistas não era hostil. Revelou-se o ideal para o repórter do Estado. A maioria dos participantes era formada por orientais, e eles, além de polidos, raramente fazem perguntas. Lars foi se descontraindo e terminou falando abertamente sobre o novo filme - a nova provocação.Você esperava uma reação tão violenta da plateia de Cannes?Tinha a fantasia de que a plateia seria aberta, receptiva ao que estávamos tentando mostrar. Cannes, afinal, é o maior festival do mundo. Imagina-se que seja frequentado por espectadores adultos, capazes de encarar os desafios da arte (e da realidade). Sabia que as cenas de sexo e sado-masoquismo poderiam incomodar, mas não imaginava que a recepção seria aquela.Não é a primeira vez que o acusam de ser misógino, mas a mutilação da própria vagina pela personagem de Charlotte Gainsbourg parece excessiva. Não foi, aliás, a primeira vez, que uma cena parecida foi vista em Cannes. Houve o precedente de Gritos e Sussurros, de Bergman...Pois é e não creio que Bergman tenha provocado reação similar. As pessoas estão acostumadas com a banalização da violência no cinema atual, o cinema norte-americano. Quando se trata de violência interna ou de demônios interiores, a aceitação é mais difícil. Quanto a não gostar de mulheres, mas eu as adoro! As mulheres são sempre as personagens mais fortes e interessantes de meus filmes. Sou casado com Bente Froge, que faz o melhor wafle do mundo. Como não gostar delas?Você tem essa fama de irônico...Que, presumo, seja justificada.Deixe-me fazer uma provocação. Muita gente se pergunta quem é, ou o que é o Anticristo em seu filme. Eu diria que é você - o Anticristo do cinema tradicional, e não apenas pelas novas tecnologias, que você incorporou e consolidou aqui mesmo em Cannes, com a Palma de Ouro atribuída a Dançando no Escuro.O livro de Nietzsche estava na minha cabeceira há anos, diria há décadas. Terminou me fornecendo um título intrigante. Tenho uma amiga psicanalista que diz que o Anticristo é a própria floresta, como representação dos demônios internos das pessoas. Só que não serei eu a dizer como o público deve ver o filme. Mas o fato de eu ser o Anticristo de Hollywood... Me agrada. As mudanças são irreversíveis. Não se pode voltar atrás. Se depender de mim, e do meu cinema, elas serão acirradas, cada vez mais.Você diz que fez o filme abaixo de suas possibilidades. Não é só uma frase de efeito?Escrevi o roteiro durante uma fase crítica, em que estava depressivo. Filmei-o rapidamente, porque senão não faria sentido. Num certo sentido, acho que é meu filme mais infantil. Voltei-me mais uma vez, após Ondas do Destino e Dançando no Escuro, para o cinema de gêneros. Busco formas para fazer de jeitos diferentes sempre o mesmo filme. Aqui é o conto gótico de terror, mas não o terror tradicional, como não foram antes o melodrama e o musical. Meus gêneros são revisitados, tenho de dar minha contribuição.Há algo de Cenas de Um Casamento, você concorda?De Bergman? Gosto do filme. Gosto de Bergman, mas eu diria que é mais Strindberg, não o dramaturgo, mas o homem. Existem detalhes da vida de Strindberg que determinaram sua relação complicada com o feminino e que sempre me perturbaram. Criei esse terapeuta que não sabe lidar com problemas da mulher e muito menos com os dele. A perda da criança agrava a crise.Liberar demônios dos personagens é para encarar os próprios?É a vantagem de ser diretor. Os demônios são quase sempre muito dolorosos, quando você tem de lidar com eles. Mas se tornam amigáveis quando você os coloca nos filmes. Tornam-se co-autores.Claro, pois você os controla. A propósito, por que a raposa fala?Quem disse que controlo? Veja a raposa. Não a fiz falar, foi ela que reivindicou a palavra. Mas vou dar uma pista. O caos reina, mas o cerimonial do desfecho, a invasão da floresta, fornece a chave para uma reificação. Pronto, agora estou querendo sugerir como ver o filme (risos). O que dizem"Não sei se conseguiria passar de novo por essa experiência. Entreguei-me nas mãos de Lars como nunca. Antes, ele me disse que não tentaria nada que fosse desagradável ou humilhante. E que estaria do meu lado. Dei-lhe controle total sobre mim. Devia estar masoquista, naquela época. Não foi prazeroso, mas me sentia bem, internamente."CHARLOTTE GAINSBOURG"Na verdade, nunca precisei representar (para Lars). Apenas liberei o animal dentro de mim." WILLEM DAFOE

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