Nilton Fukuda
Nilton Fukuda

Anna Maria Maiolino ganha três mostras em 2019

A artista abre amanhã, 14, exposição na Galeria Luisa Strina, além de uma retrospectiva em Milão, em março, e outra mostra na Whitechapel de Londres, em outubro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2019 | 03h00

Artista reconhecida no meio internacional, Anna Maria Maiolino abre amanhã, 14, uma exposição na Galeria Luisa Strina e segue em março para Milão, onde vai inaugurar a grande retrospectiva dedicada a ela pelo Padiglione d’Arte Contemporanea, espaço da Via Palestro que já organizou mostras de Lucio Fontana e Richard Long, entre outros. E, finalizando o ano, ela expõe também na galeria Whitechapell de Londres, que mostra agora telas de Jackson Pollock.

A exposição de Milão tem um significado especial para a artista, que nasceu na Itália (em Scalea, na Calábria) há 76 anos e veio para a América do Sul com apenas 12 anos. Anna Maria desembarcou na Venezuela em 1954, fugindo da escassez de alimentos no pós-guerra. Lá estudou artes e chegou ao Brasil em 1961, logo se integrando ao grupo de artistas ligados à Nova Figuração. Em 1967, fez parte da histórica exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM do Rio, da qual participaram Lygia Pape (1927-2004), Hélio Oiticica (1937-1980) e Antonio Dias (1944-2018), entre outros.

Alguns trabalhos dessa época estarão na retrospectiva da artista em Milão. São obras figurativas carregadas de metáforas políticas que remetem à arte popular do cordel. Hoje, dividindo espaço na galeria Luisa Strina com o artista paulista Beto Shwafaty, de 42 anos, Anna Maria revê com bons olhos essa retomada de ação política numa época marcada pela intolerância e o irracionalismo. Tanto que projetou para a retrospectiva de Milão uma performance, Al di la di, que toma emprestado o título de uma canção romântica de Emilio Pericoli para tratar do tema das migrações.

Anna Maria conhece bem o drama. Ela e a grande família (dez irmãos) emigraram para a Venezuela com passagem paga pelo governo venezuelano. Como era muito jovem, sua ligação com a América Latina é mais forte que com seu país de origem. A performance programada para Milão, de certa forma, é uma resposta à tragédia de imigrantes em solo europeu. Nela, um garota enrolada em panos vermelhos dramatiza a situação de uma criança morta.

Há tempos que o trabalho da artista deixou de ser figurativo ou evocar eventos políticos, como na época da ditadura (o super-8 In-Out Antropofagia, de 1974). A exposição na galeria Luisa Strina reúne apenas obras recentes (de 2012 em diante), desenhos e esculturas em que a gestualidade predomina. Essa concentração no trabalho manual, em que o gesto repetido fica registrado na argila, conquistou o público alemão na instalação Here and There, que a artista montou na Documenta de Kassel de 2012, ocupando a casinha de um jardineiro num parque com peças de argila que tanto lembravam pãezinhos como dejetos. “Tinham a ver com ambivalência, com a correspondência entre o lado externo e interno da casa, o conceito de Deleuze de identidade e diferença”, diz a artista, reafirmando o valor da diferença por sua natureza rebelde em relação ao pensamento clássico.

Obras populares de Anna Maria Maiolino são marcadas por essa introspecção caseira, pelas relações familiares, de Anna (1967), xilo em que duas figuras evocam lápides (os pais), a Por um Fio (1976), em que ela, a mãe e a filha são unidas por um fio de macarrão. Criou, enfim, um léxico feito de linhas e formas embrionárias que guardam a memória da ancestralidade. Quem pensou na argila bíblica não está de todo errado. 

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