Anistia para uma década

Esqueça a década de 30 e a Grande Depressão.A década que mais assusta em Nova York foi testemunhada por boa parte da população. São os anos 70 do abismo real da falência e do crime, imortalizados em filmes como Serpico, Um Dia de Cão e Motorista de Táxi. A década que espantou a classe média para os subúrbios, esvaziando a cidade de 1 milhão dos habitantes.O fantasma da década de 70 é convocado por expediência política e exorcizado pelo mesmo motivo - "Vote em mim e eu não deixo a cidade cair na espiral de decadência."Mas, à medida que a recessão vai se instalando na cidade, feito um parente obnóxio que bate à porta trazendo bagagem suficiente para se aboletar no sofá-cama da sala durante um longo inverno, há também a possibilidade de reorganizar as memórias da década achincalhada.Um bem-humorado ensaio da revista Vanity Fair de junho, assinado por James Wolcott, sugere que a cidade pode recuperar virtudes e não só vícios daquele período. Nova York era menos estratificada por extremos, menos definida pela cultura de Wall Street.As ruas abrigavam mais mendigos, mas também personagens coloridos, dos alaranjados Hare Krishnas aos jovens que ocuparam os prédios industriais abandonados do Soho e produziram uma cena artística vibrante.O movimento gay não teria saído da infância sem sua base no Village, onde hoje qualquer movimento cultural seria abortado pela lei da procura imobiliária.Nova York abrigava inúmeras vilas. Num raio de dez quarteirões, o morador podia atravessar um continente, cruzar fronteiras gastronômicas e se regalar com a diversidade de fachadas.A foto no jardim zoológico do Central Park mostra a adolescente com um sorriso largo, mas tenho viva a memória daquele momento num fevereiro distante, poucas horas depois do primeiro desembarque no país. O inverno desconhecido congelou a minha expressão e eu sorria de frio, susto e fascínio. Saía a pé todas as manhãs mal agasalhada e o estímulo das ruas ia me aquecendo até me fazer sentir parte daquele novo mundo.Hoje é mais difícil distinguir sua vizinhança porque a onipresença da mesma rede de farmácias, lojas da Gap, Banana Republic e Starbucks nos transformou em consumidores quase maoístas, uniformizados nas escolhas da rotina diária. Desde que me mudei para o meu bairro, desapareceu, gradualmente, boa parte do pequeno comércio que lhe dava personalidade. Fecharam, expulsos pela disparada de aluguéis, o açougue, a peixaria, a floricultura, o sapateiro, um restaurante mexicano, uma quitanda hispânica, a loja de brinquedos educativos, duas livrarias independentes e um cinema.A orgia financeira pré-2008 permitiu que agências bancárias se multiplicassem como coelhos, duas, até três por quarteirão. Graças aos gananciosos proprietários de imóveis comerciais que despejaram seus inquilinos à espera de novos bancos, hoje desaparecidos, o bairro exibe a paisagem desagradável dos cartazes com telefones de imobiliárias nas fachadas de lojas vazias.Na Nova York desta turista adolescente, era possível esbarrar em John Lennon numa banca de jornais. Encontrei Greta Garbo caminhando no Central Park. Na semana passada, na minha esquina, um punhado de paparazzi e mães de meia-idade, com seus carrinhos duplos para acomodar gêmeos, fazia ponto na frente de um trailer lustroso. Quem está aí, perguntei, diante da súbita chance de um incidente original. "Jennifer Aniston", respondeu o fotógrafo, morto de tédio. "Mas ela não vai sair de lá e eu posso ir pra casa cedo", concluiu, como um aplicado burocrata do tabloidismo.A capa da revista New York de segunda-feira passada estampava o prefeito Bloomberg nu coberto por um barril de madeira. O artigo de Jennifer Senior especulava sobre o que será desta metrópole depois da evaporação de dezenas de bilhões de dólares. Citava Kathleen Vohs, pesquisadora da Universidade de Minnesota. Vohs reuniu voluntários para um estudo. Um grupo ficou diante de telas de computador com screensavers em que flutuavam peixes. O outro ficou diante de screensavers em que flutuavam notas de dólares. Vohs perguntou a todos se preferiam completar uma tarefa sozinhos ou com um parceiro. Oitenta por cento dos que olharam para o dinheiro preferiram evitar o trabalho em grupo.Não é o caso de instalar aquários em instituições financeiras, mas a pesquisa da professora pode servir como ilustração de uma era. A recompensa a níveis obscenos por trabalho sem nenhuma relevância social transformou a cidade para pior. É claro que gostamos da arrecadação de impostos permitida pelos bônus que esgotavam os estoques das concessionárias de Ferraris. A crise vai tornar o metrô mais sujo, menos frequente e o lixo mais visível. Numa caminhada recente pela Broadway, antes das 7 da manhã, encontrei solitários mal vestidos discursando para si mesmos em vários quarteirões sucessivos. Mas não há perigo de vermos o crime e o tráfico de drogas voltarem ao nível epidêmico da década de 70.As ONGs da cidade estão registrando uma explosão de voluntários. Casais jovens começam a reocupar apartamentos por aluguéis mais baixos. Quem sabe, ao estilo dos anos 70, Nova York será reclamada por um número maior de nova-iorquinos.

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