Animação adulta é destaque no Filo Tropeço, da cia. Tato

Criação Cênica, sobre a amizade entre duas senhoras, estreia na mostra internacional de Londrina

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Um canto triste, quase um lamento, se ouve ainda no escuro do teatro Zaqueu de Melo. A luz relutante de uma vela ilumina o rosto de uma senhora vestida da cabeça aos pés com um manto de rendas. Um baú, livros, uma penteadeira, mesinha e cadeiras vão sendo iluminados por outras velas acesas por ela, uma a uma, dentro de sua casa. A saudade imensa, traduzida em um suspiro profundo, é capaz de trazer à vida uma memória inesquecível que vez ou outra tenta escapar do seu pensamento - em vão.Tropeço, da cia. curitibana Tato Criação Cênica, que vem emocionando há cinco anos plateias de Norte a Sul do País, além de já começar a cativar audiências de outros países, apresentou-se pela primeira vez em Londrina, como destaque na programação do Festival Internacional de Teatro de 2009, iniciado no dia 5 e segue até o dia 21. A animação destinada ao público adulto, cuja força visual acompanhada do gramelô (dialeto próprio e facilmente reconhecido) transforma mãos em corpos inteiros de personagens reais, foi ovacionada de pé na noite de quinta-feira.A trama, sobre um relacionamento tão profundo quanto delicado e divertido entre duas idosas, foi o primeiro trabalho criado por Katiane Negrão e Dico Ferreira. A cumplicidade dos dois atores e diretores é visível na interpretação que cedem às protagonistas: a peça começou como esquete de 15 minutos, foi ganhando tempo e ?encorpando? com base no improviso em cima dos palcos. "Nunca paramos para ensaiar. Sempre combinamos, antes do espetáculo, o que estamos a fim de fazer", conta Dico. "Estabelecemos o jogo e mantemos abertura para o improviso. Nossas mãos têm de se comunicar mais do que nós."Um beijo inesperado entre as duas personagens instaurou uma polêmica velada, ao fim de Tropeço. Se, no início da animação, muitos tinham certeza tratar-se de amigas ou irmãs, após o afeto demonstrado, uma das personagens foi inconscientemente obrigada a modificar o seu sexo. "A peça nasceu com duas mulheres e continuou assim. Já ouvimos diferentes reações do público quando se dão conta que estamos também falando sobre homossexualidade. De adolescentes já ouvimos um grito de surpresa: ?Nossa, ela é lésbica!?, enquanto acredito que a maioria saia em dúvida se aquela relação é mesmo formada entre duas mulheres idosas", explica Katiane, que tomou como inspiração o relacionamento de amigas casadas e mais velhas.O título do espetáculo nasceu sob uma fase de tropeços "literais e não literais", nas palavras de Dico: em 2004, durante uma apresentação de dança, Katiane torceu o pé; pouco depois, a dupla assistiu a um acidente de moto, sendo responsável inclusive pela chamada do resgate. "A palavra tropeço está atrelada a alguma coisa que muda a sua trajetória e faz o seu caminho ser retraçado. E a morte, sem dúvida, é um dos maiores tropeços", diz Katiane, aludindo à animação.De acordo com a segunda acepção de tropeço no Dicionário Michaelis, a palavra remete também a dificuldade, embaraço e obstáculo: três significados que ilustram a acessibilidade de deficientes físicos na incipiente democratização da cultura no País. O tema, no início discutido e difundido a partir da Oficina Nacional de Indicação de Políticas Públicas Culturais para a Inclusão de Pessoas com Deficiência, no Rio, em outubro de 2008, foi foco de debate acalorado no Filo, na quinta-feira, que culminou na elaboração de uma carta, cujo destino será centenas de instituições nacionais e internacionais. "O Filo acaba de se tornar pioneiro ao incluir em sua programação espetáculos voltados às necessidades de pessoas com deficiência", afirma Paulo Braz, membro da comissão organizadora do Filo desde 1985 e coordenador do debate intitulado Acessibilidade para a Democratização da Cultura.Ninguém Mais Vai Ser Bonzinho, da Cia. Os Inclusos e os Sisos, da Escola de Gente - Comunicação em Inclusão, do Rio, é um exemplo. Foi apresentada também na noite de quinta-feira, no Teatro Vila Rica, com suporte de legendas eletrônicas, audiodescrição, material em braile e uma intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), posicionada no canto esquerdo do palco. O espetáculo em si, de humor carioca, é um tanto arrastado (com exceção das ótimas e nada previsíveis inserções de Talita Werneck, que interpreta uma garota de 25 anos com Síndrome de Down). Mas já vislumbra o futuro reservado ao teatro. A repórter viajou a convite da organização do festival

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