Angelina rumo ao Oscar

A Troca, novo filme de Clint Eastwood, estreia amanhã, mostrando que o xerife de Hollywood foi atropelado pela atriz, que sonha com o segundo prêmio da academia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

08 de janeiro de 2009 | 00h00

Houve uma época em que Clint Eastwood era o machão mais odiado do planeta - pelas feministas, que não lhe perdoavam pegar em armas, nos filmes da série Dirty Harry, marcados pelo sexismo. Clint há muito enterrou essa imagem de fascista para se converter num dos mais respeitados diretores (e astros) de Hollywood, mas ainda lhe faltava aplacar a própria consciência convertendo uma mulher em heroína de seu cinema quase sempre dominado pela presença dos homens - sejam fortes ou fracos. A menina de ouro era outra coisa. Não era propriamente um Dirty Harry de saias. Isso, finalmente, ocorreu. Mas A Troca, que estreia amanhã, não é um grande Clint. Um Clint médio? Um Clint a serviço de sua estrela, Angelina Jolie.Berlim, em fevereiro do ano passado, teve as presenças de Madonna e dos Rolling Stones. Cannes, em maio, teve Madonna e a bela Angelina Jolie, com direito a duas ?montées des marches? da maior estrela de Hollywood na atualidade. A ?montée des marches? é o símbolo do glamour de Cannes. Pisar naquele tapete vermelho e subir a longa escadaria, com direito a ser recepcionada pelo presidente e pelo diretor artístico do evento, Gilles Jacob e Thierry Frémaux, é privilégio que Angelina não apenas usufruiu, como repetiu. Ela subiu a escadaria para a sessão especial de Kung Fu Panda, de braço dado com o marido, Brad Pitt. Voltou, de braço dado com Clint Eastwood, para a exibição de A Troca.Havia um clima de já ganhou. Antes mesmo da exibição para a imprensa, o comentário dominante era que Clint iniciava ali a trajetória que deveria levá-lo de novo ao Oscar. Angelina Jolie, há quase nove meses, já surgia como provável indicada - quem sabe vencedora - do Oscar de melhor atriz de 2008. Estamos a poucos dias das indicações para o prêmio da Academia de Hollywood. Muito dificilmente ela deixará de ser indicada. Sua interpretação é a própria razão de ser de A Troca. O filme baseia-se numa história real ocorrida em Los Angeles, em 1928. Christine Collins, uma trabalhadora cujo filho é sequestrado, luta pelo sagrado direito de uma mãe de reaver sua cria. Lembra um pouco Patrícia Pillar, lutando contra a ditadura militar pelo direito de enterrar o filho em Zuzu Angel, de Sérgio Rezende. Mais do que uma nova versão de Mystic River (Sobre Meninos e Lobos), Clint fez aqui o seu Zuzu Angel, mesmo que não conheça o filme de Rezende (nem a história da estilista).Christine enfrenta a polícia corrupta, os políticos, o sistema manicomial como Zuzu enfrentava a ditadura. Com apoio de um líder comunitário que tem um programa de rádio, John Malkovich, ela parte para a pressão. O ?sistema? responde de forma autoritária. Simplesmente arranja um menino qualquer para entregar a Christine numa cerimônia que vira show para a mídia. Quando ela protesta, é enviada para o manicômio judiciário, com direito a choques elétricos. Lembrem-se de que Angelina já ganhou o Oscar de coadjuvante, na fase pré-Lara Croft, por outro filme de maluquinha, Garota, Interrompida.Em Cannes, Clint disse que a história de uma mãe que enfrenta o mundo por seu filho é daquelas que merecem ser contadas. Ironizou - "Como sou muito jovem para fazer um dos rapazes, não havia papel para mim." Clint, aqui, é somente diretor. Ele anunciou que é inevitável. O tempo, a idade, sua disposição de se concentrar somente na direção, tudo isso fará com que apareça cada vez menos nos próprios filmes. O que afirmou em maio, Clint desmentiu em seguida e já dirigiu e interpretou Gran Torino, com estreia anunciada para daqui a algumas semanas. Angelina, grávida de gêmeos - os bebês nasceram dois meses depois, na França -, disse que havia se inspirado em sua mãe para fazer a personagem. A mãe havia morrido pouco antes do festival. "Ela era doce e dedicada, mas tinha uma personalidade de ferro, quando o assunto eram seus filhos."A mãe sofredora - e lutadora - de A Troca vira sinônimo de integridade e luta. Talvez Clint tenha querido contar essa história porque essas virtudes, afinal, andaram em baixa nos EUA de George W. Bush. Só que, embora real, a heroína é de ficção no roteiro de J. Michael Straczynski. Não existe muita nuança. As áreas cinzentas viram preto no branco. Christina representa o bem, a polícia e os políticos representam o mal. Uma subtrama desvia o roteiro do seu trilho maniqueísta quando um tira que persegue a trilha de um garoto desaparecido no Canadá topa com um cemitério de crianças, numa fazenda abandonada. Mystic River volta com força, mas o tema dessa vez não é o efeito que o abuso infantil produz nos adultos que sobrevivem à experiência. O tema é a mãe e sua luta, a necessidade de reconstrução interior - e como uma mulher conseguiu superar os limites que a sociedade lhe impunha para virar um exemplo (o prefeito e o chefe de polícia não foram reeleitos, informou Clint). Não falta um twist final para aplacar a dor dessa loba ferida.O clima era de festa, mas, no final, o júri presidido por Sean Penn - ator, premiado com o Oscar, de Sobre Meninos e Lobos - ficou com uma batata quente nas mãos. Já que Clint insistia em concorrer - "Se o festival é competitivo, qual é o sentido de passar fora de concurso?", ele perguntou -, a questão era que prêmio atribuir a A Troca. O de melhor atriz foi descartado e entregue à brasileira Sandra Corvelone, por outra mãe, em Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. A Palma de Ouro, com justiça, foi atribuída ao filme francês Entre les Murs, de Laurent Cantet. Os prêmios de direção e do júri foram para os italianos Matteo Garrone e Paolo Sorrentino, por Gomorra e El Divo. Sobrou um prêmio especial para Clint, que ele recebeu de má vontade, senão com desconforto. Onde os Fracos não Tem Vez também foi mal em Cannes e abafou no Oscar. Pode ser que, com a academia, o novelão de Clint tenha mais sorte. ServiçoA Troca (Changeling, EUA /2008, 140 min.) - Drama. Direção de Clint Eastwood. 12 anos. Cotação: Bom

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