Andy Warhol
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Andy Warhol ganha retrospectiva no Whitney Museum

'Vivo, Warhol' foi um mito; morto, é um mito ainda maior”, resume Donna De Salvo, curadora do Whitney

Hilarie M. Sheets, The New York Times

06 Agosto 2018 | 18h21

“Vivo, Warhol foi um mito; morto, é um mito ainda maior”, resume Donna De Salvo, vice-diretora e curadora chefe do Whitney Museum of American Art. “Não é fácil humanizá-lo e mostrar às pessoas quanto ele realmente fez.”

De Salvo está encarando o desafio com Andy Warhol – From A to B and Back Again, a primeira retrospectiva sobre o artista organizada por um museu dos Estados Unidos desde 1989, com inauguração prevista para 12 de novembro. A exposição anterior, no Museum of Modern Art, ocorreu dois anos após a morte do artista, aos 58 anos, e centrou-se em suas famosas imagens pop de celebridades e cenas de tragédia dos anos 1960. 

Ao discutir pela primeira vez detalhes da exposição, De Salvo informou que pretende mostrar em sequência esses silk-screens muito conhecidos e trabalhos de conteúdo abertamente homossexual de Wahrol dos anos 1950, menos vistos, e experimentações mais abstratas e menos aclamadas dos anos 1980. 

Influenciado por seu trabalho inicial de ilustrador da empresa de calçados I. Miller, Warhol desenhou sapatos com colagens de aplicações douradas. Um par feito para a transgênero Christine Jorgensen, de 1956, tinha desenhos de pênis de gravata borboleta. Fez também uma tela com garotos se beijando que seu namorado de faculdade, o artista Philip Pearlstein, tentou expor na prestigiada galeria Tanager, mas conseguiu que a obra fosse ridicularizada. 

A fase dos anos 1950, disse De Salvo, “é de um Warhol antes de Warhol,um garoto gay católico de Pittsburgh, filho de operários imigrantes, que teve seu primeiro emprego em Nova York em 1949”. De Salvo conheceu Warhol quando ela trabalhava numa exposição das primeiras imagens pintadas à mão pelo artista, como jovem curadora da Dia Art Foundation, em meados dos anos 1980. “Percebi que havia nele algo de muito confiante”, lembra ela. 

Para outra exposição sobre o artista que organizou na Grey Art Gallery, pouco depois da morte de Warhol, “Success Is a Job in New York”, De Salvo entrevistou antigos colegas do artista. Eles disseram que o que mais admiravam em Wharol era sua atitude desafiadora nos anos 1950, uma época em que artistas como Jasper Johns e Robert Rauschenberg ainda não havia saído do armário.

Como o conteúdo gay de seu trabalho foi rejeitado pelo establishment da arte, Warhol “maquilou-o”, embutindo, porém embuindo, porém uma dualidade na escolha de temas durante os anos 1960. Marlon Brando é mostrado tanto como arrasador de corações quanto como ícone gay. E Marilyn Monroe “passaria bem por drag queen”. Na fachada do Pavilhão do Estado de Nova York na Feira Mundial de 1964, Warhol apresentou retratos baseados em fotos sem retoque da galeria de criminosos do FBI, com o título de duplo sentido “Os Homens Mais Procurados”.

“Sua inserção de trabalhos com acentuado toque homoerótico num espaço público muito visível foi algo bastante radical”, avalia De Salvo. 

A ambiguidade deliberada foi mais persistente nas últimas obras de Warhol, incluindo os quadros “chiaroscuro” salpicados de pó de diaman te, suas imagens baseadas no teste de Rorschach e uma de suas derradeiras telas – um padrão de camuflagem militar aplicado a um silk-screen de A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. “Ele estava entrando num terreno totalmente novo”, diz De Salvo.

Após quase sair de moda nos anos 1980, Warhol voltou a ganhar força com trabalhos realizados em colaboração com artistas mais jovens, como Jean-Michel Basquiat. Uma das colaborações com Basquiat foi o quadro Paramount (1984-85), uma referência codificada ao namorado de Wharol da época, Jon Gould, que era vice-presidente da Paramount Pictures e mais tarde morreu de aids.

“Wharol não falava muito em aids”, diz De Salvo, salientando que o artista nunca abandonou o catolicismo e tinha pavor de morrer da doença, tendo testemunhado a morte de vários amigos e amantes.

Durante a exposição será também exibida, no teatro e nas galerias do quinto andar do Whitney, uma seleção de filmes de Wharol.Um filme mostra outro namorado do artista, John Giorno, lavando pratos nu e enquanto Warhol pintava no ateliê um retrato de Mao Tsé-tung. Ver Wharol manejando um pincel , diz De Salvo, “desafia a percepção que alguns têm dele de que é apenas um cara com uma peruca engraçada”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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