Andsnes evoca a grandeza de Schubert e Mússorgski

Com segurança e maestria, pianista norueguês explora possibilidades abertas pelos compositores

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

Última das oito sonatas de 1817, a nº 11 em Si Maior é talvez a mais livre de Schubert. E foi com essa liberdade que Leif Ove Andsnes a abordou, em seu recente recital, na Sala São Paulo, explorando as suntuosas invenções harmônicas do Allegro ma non tropo, ou desfiando a sonhadora tapeçaria do Andante, subitamente interrompida por um interlúdio que introduz um tom agitado, dramático. Ao bem-humorado Scherzo allegretto, que Andsnes desenhou com muita transparência, seguiu-se uma execução exemplar do Allegro giusto, de que o pianista extraiu todas as possibilidades abertas pelos contrastes multicores de melodia e jogos harmônicos. Em tudo a sua interpretação fez ressaltar quanto Franz Schubert - que não tocava bem o piano - foi um dos maiores compositores para esse instrumento.Tocar uma peça como a Sonata nº 14 em Dó Sustenido Menor "Ao Luar" é enfrentar a inevitável dificuldade de ter de medir-se a todas as referências que o público tem na memória. Andsnes passou muito bem por esse desafio ao construir com segurança o arco que, partindo da familiar cena noturna Adagio sostenuto, de melancólica beleza melódica, passa pelo breve Allegretto, em forma de scherzo fantasioso, para desembocar no original Presto agitato. A forma ágil como Andsnes executou esse movimento, de liberdade improvisatória, dando-lhe tanta veemência de expressão quanto fora contida a emoção do primeiro movimento, pôs um final emocionado à primeira parte de sua apresentação.Cenas populares, universo infantil, superstições, fascínio pelas glórias passadas da Rússia, todas as obsessões de Mússorgski perpassam os Quadros de uma Exposição - miniaturas para o piano em que o teclado é explorado de forma virtuosisticamente orquestral. Seja nas apojaturas e arabescos em staccato com que sugere crianças brincando no jardim das Tuileries, seja na oposição melódica com que retrata os dois judeus Shmuel Goldenberg e Schmuyle, um rico e arrogante, o outro lamuriento e pobretão, foi espetacular a forma como Leif Ove Andsnes recriou cada uma dessas vinhetas.Trabalhando o tema pentatônico da Promenade ora com delicadeza, ora de forma marcial e pomposa, de forma a sugerir as mudanças de estado de espírito no espectador, Andsnes fez-nos visualizar a carroça; o burburinho do mercado de Limoges; ou a visão da cabana da feiticeira. E chegou majestosamente, entre sons de festa e o recolhimento de um hino litúrgico, à evocação da Grande Porta de Kiev, episódio que leva a peça a um final empolgante.

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