André Toral vai fundo nos ritos do canibalismo

Historiador e antropólogo lança Os Brasileiros, em que revê a antropofagia no século 16, e diz que não quer fazer papo-cabeça

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Historiador e antropólogo, professor da Faculdade de Comunicações e Artes Plásticas da Faap, o paulistano André Toral diz que só tem um medo quando vai dormir: é de que confundam suas histórias em quadrinhos com HQs acadêmicas, com papo-cabeça de historiador."Quero fazer algo que lide sempre com o prazer da leitura de HQs. Estou mais preocupado com uma verdade gráfica do que com um conjunto de informações coerentes", afirma. É um medo bobo. Os Brasileiros, novo e fabuloso álbum de Toral, não corre o menor risco de ser confundido com uma tese ilustrada. Dinâmico, envolvente, com histórias não raro violentas - mas de uma violência assustadoramente natural -, o álbum pode até ser lido como um "antimanifesto Sérgio Buarque de Holanda".Isso porque o exame da identidade brasileira, em Toral, passa léguas da tese da cordialidade do brasileiro. "O que eu quero mostrar é essa duplicidade do brasileiro. Porque eu não acredito que existe uma condição brasileira, mas uma identidade que se constrói, que está em movimento. É essa condição plural que eu ilustro", diz.Esse conceito sempre em transformação começa com muita violência no Brasil do século 16. O primeiro traço distintivo da cultura brasileira, o canibalismo, praticado entre inimigos rituais (tupinambás e tupiniquins) é a matéria-prima das histórias."Nessa guerra de vingança, a violência sistematizada aparece num conjunto cerimonial. Os índios consideravam que ser comidos pelos vermes era uma morte de covardes. A morte gloriosa era ser devorado pelo inimigo, era a melhor morte, era o destino ideal para um guerreiro."As histórias que se sucedem vão mostrando como os europeus utilizaram essa característica para obter escravos e em seu proveito. A naturalidade da violência vai se incorporando à natureza nacional a partir dessas situações. "Sou contra essa história de ficarem vitimizando os índios", diz o desenhista. "O que pretendo é jogar a pessoa, o leitor, para uma outra realidade, deslocar sua visão. Aqueles brasileiros do século 16 também fomos nós, e é por isso que a identidade é um conceito sempre em transformação."Parte das histórias do álbum Os Brasileiros é feita em nanquim (especialmente os desenhos mais antigos); a outra parte a lápis. André Toral considera que é a própria manifestação de sua evolução como artista de quadrinhos - o nanquim é mais sério, requer mais cuidado; o lápis é menos comprometido, representa mais a descontração do meio.Ele diz que vê o seu leitor como um cidadão que começou a ler HQs com as histórias da Mônica, do Super-Homem, as aventuras Marvel, "e agora não consegue mais ler isso".Ele próprio é personagem de uma de suas histórias, a mais curta de todas, A Alma que Caiu do Corpo. Ele está em um trabalho de campo, na pele de antropólogo, e escuta uma história de uma mãe indígena, e resolve ir tirá-la a limpo.André Toral considera que o quadrinista é um "diretor de cinema em miniatura", que vive da obsessão hitchcockiana de "controlar tudo, cada pulga de uma cena". Ganhador de dois prêmios HQ Mix, ele nos reapresenta o Brasil em seu novo trabalho. Perfil André Toral, 51 anos, estreou nas HQs em 86, com a história Pesadelos Paraguaios, na extinta revista Animal. Em 99, ganhou o HQ Mix de roteirista por Adeus, Chamigo Brasileiro.

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