Análises excluem anedotário

Para Tatit, estudo parte da letra e música e não do estado de ânimo do autor

Entrevista com

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Na continuação da entrevista, Luiz Tatit fala da relação entre a análise teórica e a inspiração do compositor e analisa os caminhos atuais da canção brasileira. Os modelos independem do objeto. E das intenções do autor?Isso a gente nunca vai saber. A menos que o autor diga e, quando diz, não é verdade. Quando entrevistam um autor, eu não acredito em nada do que diz. Eles adoram fazer anedotas a respeito do que criaram. Eles não escrevem a música inteira no guardanapo de um botequim, escrevem talvez um verso, e o resto fazem em casa. Isso é interessante como folclore. Mas durante muito tempo as análises se basearam nessas anedotas. No dia mais alegre o compositor faz uma canção cheia de dor de cotovelo. O que temos é a melodia e a letra para analisar e não o estado de ânimo do compositor. Os seus estudos ajudam os apreciadores da canção a fruí-la melhor? Uma boa apreensão da canção é sempre espontânea. Os melhores ouvintes que conheci não sabem absolutamente nada dos procedimentos de composição. A análise é outra coisa, você leva em conta o que te passa a canção e tenta ver como foi construído o sentimento. Para quem ouve leigamente basta a emoção. A semiótica te explica por que você sente o que sente. Mas para quem sente só interessa o que sente. Na academia existe uma aceitação maior dos seus modelos teóricos?Sim. Nas grandes capitais as nossas pesquisas não são mais novidade. Agora é interessante que a maioria das pessoas, mesmo as mais bem informadas, ainda não sabe que a canção não é música nem literatura, ela é elo de melodia e letra, uma outra habilidade. Deveria por isso haver uma faculdade da canção. Uma faculdade da canção?A canção é uma outra linguagem. Normalmente uma letra de canção lida é uma bobagem, mas com a melodia fica sublime. Há letras que transformam melodias simplórias em sucessos que acompanham a vida das pessoas durante anos. Isso se alcança com o elo entre melodia e letra, que resulta num sentido homogêneo. Quero Que Vá Tudo Para o Inferno, do Roberto Carlos, tem uma letra simplória, mas foi o maior sucesso de todos os tempos.As canções do Roberto Carlos são simples, sem complexidade harmônica, mas de muito bom gosto. Outra coisa, não podemos chamar o Chico Buarque, considerado o nosso melhor letrista, de poeta. Ele sabe que nunca fez poesia. Poeta é o João Cabral de Melo Neto, que até dizia não gostar de música. Mas essa não é uma noção arraigada nos interessados no assunto.Por quê?A semiótica tem duas vias. Ela é ótima porque permite que você pense coisas que sem ela você não pensaria na análise. Mas tem uma origem elitista, muito acadêmica. Ela é incompreensível para quem não é do ramo, afastando os leitores. Foi um risco calculado que corri. Com a semiótica pude chegar aonde cheguei. Sem ela teria menos descobertas e mais leitores. Para quem você escreve?Quando os textos são ligados à semiótica, estou preocupado com os estudiosos da canção. Quando são mais diretos, como O Século da Canção, penso num público maior. O Cancionista foi um manifesto para falar de uma atividade que não era nem literatura nem música. Elos de Melodia e Letra tem duas caras. Tem boas dicas de como apreender uma canção, abandonando critérios musicais e literários, apesar de achar que os iniciados em semiótica têm melhor aproveitamento.As canções de consumo são um universo para debate dos grandes temas do Brasil?Sim, mais até do que dos outros universos porque contam com a cumplicidade de todo mundo. Atualmente nas faculdades existem mais análises de canção, ainda que sejam as impressionistas, do que de poesia e prosa. Porque os alunos conhecem as canções. Caetano Veloso pôs Joaquim Nabuco em Noites do Norte e com isso debateu história e escravidão. Você não encontra fora do País cancionistas com a capacidade de reflexão do Caetano, do Chico e do Gilberto Gil. Nem John Lennon e Bob Dylan, que se preocupavam com a letra, conseguem uma análise da realidade como esses autores brasileiros conhecidos mundialmente. Mas sabemos de outros músicos que, sem essa capacidade reflexiva, fazem canções excelentes, como o Jorge Ben Jor, um dos maiores compositores da história.Jorge Ben Jor?Ele consegue um dos resultados mais interessantes na relação entre melodia e letra. Suas obras, com temas míticos, são muito próximas da fala. W/Brasil, um dos seus últimos grandes sucessos, é um monumento, parece uma epopeia. A letra é caótica, mas a melodia costura tudo. Jorge Ben Jor tem uma capacidade de composição fora do comum: com três acordes, ele faz combinações inesgotáveis de melodia e letra. Para onde vai a canção brasileira?Desde os anos 90, existe uma heterogeneidade, não há mais gênero dominante. O axé e o pagode se diluíram. O que acontece em São Paulo é representativo. A rede de Sescs tem programação variada. A Internet também abriga essa diversidade. As canções de consumo, como as da Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho, que não anulam isso. Elas não estão tomando o lugar de ninguém, embora tenham tomado o poder num momento em que falaram que a música norte-americana reinaria sozinha. Hoje os músicos vivem da própria produção, diferentemente da minha época, em que você tinha de fazer outra coisa junto com a música para sobreviver. Está muito melhor do que antigamente. Você só tem que ir atrás.COMO MÚSICA E POESIA SE CASAM E VIRAM CANÇÃOLETRA E SOM: Palavra (En)Cantada é o novo documentário de Helena Solberg (cineasta do ótimo Carmen Miranda - Bananas Is my Business). É um dos raros casos de filmes conceituais, mas que não se perdem jamais no labirinto de teorizações. A ideia central é ver como a música insufla vida à poesia e ambas se transformam em canção. Partindo de versos do trovador medieval Arnaut Daniel, o filme enfeixa depoimentos (Lenine, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto, etc) e canções num trabalho de grande sensibilidade. Fica a impressão de que as relações entre palavras e sons foram muito bem resolvidas no Brasil, como atesta a riqueza do cancioneiro local.

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