Tiago Queiroz|Estadão
Tiago Queiroz|Estadão

Análise: Tunga, obra germinada com a seiva da infinitude

Morto na 2ª, 6, legou uma arte de poesia, reflexão e filosofia pessoal

Sheila Leirner, ESPECIAL PARA O ESTADO

07 de junho de 2016 | 23h16

A primeira crítica que escrevi sobre o trabalho de Tunga foi quando ele estava com 29 anos. De lá para cá, os seus caminhos se diversificaram e transformaram, o artista amadureceu em reflexão, filosofia pessoal, poesia e contato com os mistérios da sua psique. Além disso, refinou o seu vocabulário técnico oriundo da escultura que foi o seu forte, estendido ao desenho, cinema e a outras linguagens. A sua fantasia, materiais, cores, formas e inspirações, tudo parece ter mudado, porém a nossa percepção de sua imensa obra continuou a mesma. Tunga foi Tunga até o final.

Em 1981, o artista já cabia inteiro naquela exposição de nove objetos com muitos metros de feltro, resistência, lâmpadas de chocadeira, exaustor e fios elétricos. Associados, os materiais formavam engenhos operantes que fabricavam fenômenos físicos como luz e calor, sem que a sua estrutura lhes fosse compatível ou que tais funções tivessem lugar na nossa lógica cotidiana.

Como em toda a sua trajetória, não se tratava de trabalhos novos no aspecto, nem originais na forma, mas possuíam – como sempre aconteceu – uma ambivalência que os carregava de interesse sensorial e estímulo intelectual.

Este caráter, contudo, nunca residiu na discussão que a alegoria geralmente provoca entre “aparência” e “realidade”, embora ambas tivessem bastante peso em sua obra. A ambivalência está no lado psíquico e físico do trabalho. A obra de Tunga é, em síntese – apesar de ela mesma dificultar esta apreensão –, simultaneamente um “estado de mente” e um “estado de fato”. Quer dizer, envolve forças físicas que possuem incontestáveis correlativos psíquicos, formando ao mesmo tempo um léxico prático – às vezes, dinamicamente descritivo, mas sempre narrativo: divisão, suspensão, energia, balanço, tensão, suporte, complexidade, saturação, estruturação, desestruturação e infinitude mesmo quando os trabalhos possuem o aspecto de “terminados”.

É por esse motivo, talvez, que a sua obra não escultórica – menos material, menos formalista, com presença menos corpórea – apenas sugere tudo aquilo que os objetos e instalações apresentam de forma literal. Mantêm o distanciamento entre o processo de feitura (que, às vezes, tem um peso exagerado) e o resultado. O grande erro, talvez, não só de Tunga como de muitos outros artistas, foi o de não ter completado a cisão definitiva. No caso dele, a colagem prazerosa de artefatos e os ensaios alquímicos acabaram enfatizando involuntariamente um belíssimo resultado plástico de “representação” em prejuízo da experiência gestual primária, o processo primordial procurado por tantos artistas contemporâneos.

Nada disso diminui, por outro lado, as complexidades ambientais do trabalho de Tunga, o balanço estável entre a sua integridade interna e as contingências do espaço, o fato de ser parte essencial do lugar onde existe.

O que o afasta radicalmente da condição de uma autoconteudística “arte de pedestal”, mas não me impediu – do alto de minha soberba (na época, tão juvenil quanto a dele) – o atrevimento de “lhe recomendar urgentemente, uma não resolução mais cuidadosa de dinâmicas”. Hoje, eu simplesmente lhe diria: Tunga, não mude em nada. Continue o mesmo. Para a eternidade.

Despedida. O velório do artista, que morreu na segunda, 6, aos 64 anos, está previsto para começar às 9 h desta quarta, 8, e o enterro para as 15h, no Cemitério São João Batista, zona sul do Rio.

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