Jason Redmond/REUTERS
Jason Redmond/REUTERS

Análise: Alquimia de Pierre Huyghe se processa no terreno da experiência total

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2016 | 06h00

PARIS – Se fosse apenas para que o seu nome prestigiasse ou fizesse “figuração” na 32 a edição da Bienal paulista, seria uma grande pena que um artista da qualidade de Pierre Huyghe comparecesse pela primeira vez em nosso país com apenas um vídeo de 12 minutos e 35 segundos, de 2014, e uma sala de insetos. É no fecundo e variado conjunto de sua imensa obra, pouco conhecida do grande público, mas que hoje representa um fenômeno na esfera da arte contemporânea, que se processa a alquimia. Teria valido a pena abrir mão de parte da extensa (e discutível) lista de escolhidos, e trazê-lo muito melhor representado.

Quanta coisa poderia fazer in loco, caso fosse convidado a vir se inspirar em algum ecossistema brasileiro! Raros artistas entram na realidade física do planeta, como ele, trazendo ideias, imagens, objetos e linguagens que aproximem, de tal maneira, a arte da vida.

Não que Huyghe seja um artista fácil. Muito ao contrário. Tudo em suas elaborações e montagens é espinhoso, sem favores, não atraente, às vezes até mesmo repulsivo e, aparentemente, incompreensível. Elas são antípodas de tudo que conhecemos de belo, linear e agradável na arte ou em exposições de arte. Pertencem mais ao terreno transcendente, instável e misterioso da experiência total e do desconhecido, do que ao espaço seguro do reconhecível.

As obras de Pierre Huyghe são para quem não teme as sensações fortes, mas sobretudo para quem sabe que, no seu caminho tortuoso, é preciso um bom esforço para merecê-las. Apesar de nós, e graças a nós. E sob o risco de um desregramento da percepção. A obra dele é um teatro, ou um gabinete de curiosidades, invertido. Somos nós que ficamos expostos.

O que é o este trabalho? A retrospectiva, apresentada pelo Pompidou, em Paris, há três anos, conseguiu dar-lhe um corpo, talvez, pela primeira vez. As salas de exposição se transformaram, durante dois meses, em uma espécie de microcosmo orgânico vivo e caótico, com seu microssistema um pouco úmido, rochas seculares, um tríptico em três dimensões que oferecia chuva, neblina e neve, objetos e traços das exposições precedentes.

Havia fragmentos, obras de (e referências a) outros artistas, vídeos, esculturas, ambientes, instalações feitas de diversos materiais como gelo e areia, aquários surrealistas, personagens vivos e muitos bichos. Caranguejos-eremitas, abelhas (na mesma obra que esteve na última documenta de Kassel, com a colmeia que envolvia a cabeça de uma escultura clássica), aranhas, formigas e o indefectível Human, o famoso cachorro branco com a pata cor-de- rosa que dorme em casacos de peles.

É bom lembrar que insetos milenares também estarão presentes, enclausurados numa belíssima pedra de âmbar, nas microcenas do filme De-extinction a ser apresentado pela Bienal. Também haverá uma sala com moscas. De-extinction, ou “biologia da ressurreição”, ou ainda “revivalismo da espécie”, é o processo controvertido de criar um organismo que seja um membro de (ou que pareça com) espécies extintas, como a clonagem, por exemplo. Esta é uma das questões que interessam Huyghe, artista que, desde 1990, trabalha na redefinição do estatuto da obra de arte.

Mas ele empenha-se também na contrassignificação do formato de exposição, que ambiciona tornar um espaço sensível, a dimensão viva, orgânica e não orquestrada de propostas. A mostra de arte, como um mundo recriado que se autorregenera, vivendo os próprios ritmos, onde os componentes são sempre superpostos, como se fossem um “diário”, uma escritura em três dimensões.

Para certas tribos indígenas, entrar no mar - universo estranho e completo no qual não vivemos - não pode ser uma coisa corriqueira. É preciso, antes, um ritual pedindo “permissão”. Para cruzar a porta do labirinto pessoal de Pierre Huyghe, também é necessário uma certa contensão. Mesmo que não haja um caminho certo para a visita e que tudo seja permitido - tocar as obras, acariciar o seu cachorro, deitar na areia ou sentar no chão - não se ingressa no seu “mar” onírico desabusadamente.

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade, fazer pessoas de qualquer classe social, cultura e idade, crianças inclusive, reconhecerem certos elementos que lhes são familiares e - mesmo sem saber exatamente a razão - sentirem que estão vivendo uma experiência excepcional, e em comunhão. Como na recepção de um sacramento, não divino mas, de alguma forma, sagrado. O que mais pedir de um artista?

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