Rômulo Fialdini/divulgação
Rômulo Fialdini/divulgação

Ana Maria Tavares revisita sua obra em mostra

Na Pinacoteca, artista exibe trabalhos mais importantes e traz novas montagens com base em instalações antigas

Celso Filho, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2016 | 05h00

Nas gravuras de Carceri d’Invenzione, Piranesi (1720-1778) criou prisões imaginárias, com corredores e caminhos que se desdobram. São esses cárceres em expansão, e sem pontos de fuga aparentes, que inspiraram Ana Maria Tavares para a instalação montada no octógono da Pinacoteca. Ela faz parte das mais de 150 obras da mostra No Lugar Mesmo: Uma Antologia de Ana Maria Tavares, que será inaugurada neste sábado (19), às 11h.

Na instalação, Ana Maria cobre as paredes do vão central do edifício com grandes espelhos. O reflexo cruzado gera a sensação de que o próprio octógono se reproduz em muitos. E esses movimentos de releitura e expansão parecem seguir o projeto da retrospectiva.

Sem ordem cronológica, a exposição recupera obras antológicas da mineira e traz novas montagens com base em instalações antigas. “A preocupação foi olhar para essa trajetória e tentar articulá-la sem fazer uma linearidade em sequência temporal. É a ideia de fazer o trabalho se dobrar sobre ele mesmo e se atualizar para a exposição”, explica a curadora Fernanda Pitta. No próprio octógono, por exemplo, os espelhos de Parede Niemeyer estarão acompanhados das obras Carrossel (Para Duchamp), de 1997, e Exit, de 1999 – uma escada de avião com áudios de narrações do radialista Jair Rafael sobre o trânsito para a Rádio Eldorado nos anos 2000.

No corredor, também há novas ‘traduções’. As paredes foram cobertas por faixas negras, uma referência à arquitetura de Adolf Loos, que já tinha feito parte de uma intervenção em 2014, no Museu Vale, em Vila Velha, no Espírito Santo.

“Minha obra tem quase uma estratégia de autofagia, ela vai engolindo ela mesma. Aqui, eu não estou reinstalando, isso tudo é novo. Ela carrega a própria história do trabalho para dentro dela”, explica Ana Maria. E nesse movimento, é possível encontrar questões que são frequentes na trajetória da artista.

O ponto de partida da mostra é a primeira individual da mineira na Pinacoteca, em 1982. Naquela época, enquanto havia um movimento artístico pela retomada da pintura, Ana Maria buscava, em seus objetos escultóricos e desenhos, trabalhar com questões como a posição do sujeito diante da obra. Assim, em Tapetes Pretos para Paredes Brancas, criação apresentada pela primeira vez em 1982, ela cria formas em capacho de borracha, conectados para formar uma faixa que circunda a sala quase como uma instalação. “Você não consegue ver a obra toda se não anda. Ela depende da arquitetura e do olhar do sujeito em movimento”, define a artista.

Esse exercício de ornamentação em objetos aparentemente banais é uma constante de seus trabalhos. Assim, a Mesa Curva, de 1989, representa uma mesa de aço despida de sua funcionalidade tradicional. Ou Chuveiro, de 1987, com grandes cabos de metal que parecem se expandir pelo espaço como tentáculos. E estruturas de aço cromado que criam um pequeno mirante para Alguns Pássaros (Those in Flight), de 1991.

Dos metais industriais da década de 1980, principalmente após seu mestrado na The Art Institute of Chicago, entre 1984 e 1986, a artista passa a levar essas contaminações para outros materiais e recursos. É o caso de seus trabalhos mais recentes, como Dominó XXI, da séria Forgotten Mantras, deste ano. Como peças de um dominó, ela produz caixas metálicas espelhadas, com inscrição de palavras em diferentes línguas. Ou em labirintos digitais dos Airshafts para Piranesi – de novo, inspiradas nos cárceres do italiano.

NO LUGAR MESMO: UMA ANTOLOGIA DE ANA MARIA TAVARES

Pinacoteca. Pça da Luz, 2, tel. 3324-1000. 4ª a 2ª, 10 h / 17h30. R$ 6 (sáb., grátis). Até 10/4

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