Amy se esfacela, mas emociona

Passo a passo, como foi a apresentação da mais polêmica cantora pop da atualidade no Rock in Rio Madri, sexta-feira à noite

Jotabê Medeiros, Madri, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2008 | 00h00

Amy Winehouse terminou um show sem bater em ninguém, sem cair no palco no meio da apresentação e sem bater com a cabeça no microfone. Não é pouca coisa para ela, que, aos 24 anos, enfrenta problemas de toda ordem nos últimos tempos: anorexia, crises depressivas, três ou quatro encarceramentos, um enfisema pulmonar, internação hospitalar forçada e alguns excessos com álcool e drogas. Uma fila de problemas que não se dá necessariamente nessa ordem.Mas o mais importante é que o show de Amy em Madri foi uma de suas melhores apresentações no último ano. ''Amy Winehouse está viva!'', manchetou o diário espanhol El País. Pelo menos de inanição artística ela não sofre: tem um punch, um jeito de amarfanhar as palavras das canções que raras cantoras conseguem ou conseguiram, e que a projeta como uma artista única em seu métier.Nos bastidores, até sexta à tarde não havia como confirmar que ela realmente cantaria. ''Você a viu em Lisboa? Não? Bom, é porque ela não cantou realmente em Lisboa. Estava toda cheia de feridas, machucada, caía no palco, não terminava as músicas'', disse Roberto Medina, organizador dos festivais Rock in Rio. Ele conta que chegou a procurar o agente da cantora para saber se não seria melhor cancelar o show seguinte, em Madri, mas o agente lhe garantiu que ela viria. ''Não duvidei. Depois dos últimos shows dela, acho que sabia que teria de dar uma virada, recolocar-se no cenário como a grande artista que ela é.''A chegada de Amy só foi confirmada por volta das 16 horas da sexta-feira, quando colocaram na área de imprensa os dados do seu plano de vôo: ''Llegada a Madrid: 20 h. Vuelta a Londres: 23 h.'' Ao contrário de Shakira, que andava com uma entourage de 50 pessoas pela cidade, Amy nem sequer dormiria em Madri. O boletim de Amy era acompanhado das exigências da cantora para seu camarim: gengibre, lima, limão, mel, frutas, saladas, iogurte de soja e natural, pão de pita, homus e pão de cebola.Por conta dessas exigências quase naturebas, foi uma surpresa quando Amy subiu ao palco, às 21 h, à frente de 75 mil pessoas (muitas delas trajadas exatamente como seu ídolo trôpego), e logo pediu uma taça gigante de vinho. ''Trouxe de casa'', escreveu o crítico do diário Mundo. ''Sangria! Sangria'', gritava o público. No meio do seu famoso coque e do cabelão armado, havia um broche vermelho almofadado que tinha estampado o nome do marido de Amy, Blake, que está preso. O diretor de TV Jodele Larcher, que filma os shows do Rock in Rio mundo afora e adora a cantora, comentou, feliz: ''Eu tinha certeza. Ela é maluca, mas não rasga dinheiro.''Ela parece uma taça de cristal esquecida na beirada de um balcão de pub - a qualquer momento vai se espatifar. Mas a voz quebradiça não é empecilho para ela cantar de um jeito cortante, viral, essencial - na voz e no olhar bêbados de Amy dá para ouvir um monte de outras coisas, da insolência de Nina Simone ao desespero de Billie Holiday.No começo, há desconfiança. Amy parece que faz teatro com sua pose de bêbada do Zorra Total, mas logo se vê que o teatro dela tem algo de errado, é muito bem ensaiado, muito angustiante. Ela demonstra uma fragilidade extrema em público. Parece pedir que a ajudem. Num dado momento, abraçou com carinho o vocalista de apoio que usa dreads depois de cantar Love Is a Losing Game.Sua performance é insana, fora de controle. Ergue a barra do vestido como se se segurasse para não cair. Sugere um strip-tease que nunca se consuma. Está muito magra, os seios fartos escapando num aparente contra-senso. Após beber o primeiro gole da segunda taça que lhe serviram (de um líquido mais claro, parecia conhaque), ela lambeu como uma criança o líquido que transbordou nos dedos.A banda, cheia de branquelos ingleses nos metais, parece que não terá autoridade para segurar a alternância de soul, funk, reggae e black music setentista que é a essência da música de Amy, mas ela, ironicamente, é o elemento de equilíbrio, o amálgama da coisa toda. Amy toca com certa displicência sua guitarra branca e vai debulhando seus hits, até que a platéia (majoritariamente shakirista na noite) se deixa conquistar definitivamente: de Addicted, que abriu o show, até Just Friends, Tears Run Dry e Cupid. Back to Black, Wake up Alone, Unholy War, Love Is a Losing Game, Hey Little Rich Girl, Rudy, You''re Wondering Now, You Know I''m no Good, Rehab, além de Me & Mr. Jones e uma versão de Valerie, do grupo The Zutons.POLICEOstentando uma barbicha bem cultivada e grisalha, o cantor Sting iniciou no sábado à noite, no palco principal do Rock in Rio Madri, para um público de 70 mil pessoas, a nova despedida do Police. Foi um show que (visivelmente) já parece ensaiar a nova retirada de cena do trio formado por Sting, pelo baterista Stewart Copeland e pelo guitarrista Andy Summers: morno, mecânico, enfadonho.O Rock in Rio Madri, que terminaria com Bob Dylan ontem, anuncia amanhã sua nova edição aqui, em julho de 2010, já com patrocinadores fechados. Deve também fazer sua primeira edição em São Paulo, no mesmo ano, em janeiro - o local deve ser definido por Roberto Medina em agosto. Em Madri , a mostra revelou-se um sucesso financeiro, movimentando cerca de ? 50 milhões.O repórter viajou a convite da organização do evento

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.