Amos Oz, caneta preta para falar de política e azul para histórias

Aos 70 anos, recém-completados, autor mostra em romance e coletânea seus dois estilos de escrita

Ethan Bronner, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

12 de maio de 2009 | 00h00

Há quatro décadas Amos Oz é conhecido em Israel e em todo o mundo por duas de suas características: sua visão política ardentemente liberal e a observação íntima presente na sua ficção. Ele sempre insistiu que se tratam de coisas distintas, e de fato assim parecem ser. Seus romances e contos não são alegorias do conflito palestino, mas histórias profundamente humanas de ambiguidade e melancolia. Os ensaios políticos, por sua vez, expõem argumentos com transparência completa.Uma das maneiras pelas quais ele mantém a separação entre as duas formas de escrita é a utilização de canetas de cores diferentes - uma preta e uma azul - que repousam na sua escrivaninha neste escritório repleto de livros na sua casa nesta cidade desértica."Eu nunca confundo as duas", diz ele a respeito das canetas. "Uma serve para mandar o governo ao inferno. A outra é para contar histórias."Nos seus 70 anos, comemorados nesta semana com um festival de três dias em Arad e uma conferência acadêmica realizada na Universidade Ben-Gurion em Bersheva, além do lançamento simultâneo da tradução inglesa do seu mais novo romance e de uma nova coletânea de obras traduzidas de ficção e não ficção intitulada O Leitor de Amos Oz, ele oferece uma oportunidade de enxergar seus dois estilos de escrita por meio de uma única lente. Ficção e não ficção emanam da mesma fonte, diz ele - a empatia. As duas tentam imaginar o próximo."É esta a minha profissão", destacou ele num inglês preciso e manso enquanto caminhava, em um recente final de tarde, sob as tonalidades rosadas do deserto de Arava e o Mar Morto reluzindo no horizonte. "Acordo pela manhã, bebo uma xícara de café, sento-me à escrivaninha e começo a me perguntar: ?E se eu fosse ele? E se eu fosse ela? Como me sentiria? Como reagiria??"Oz, cujo humor é tão seco quanto o clima, é um dos autores mais estimados de Israel - ao lado de A. B. Yehoshua, Aharon Appelfeld e David Grossman - e o seu novo romance, Rimas da Vida e da Morte, lança um olhar algo brutal sobre a vida e a sensibilidade de uma celebridade da literatura.O protagonista, conhecido simplesmente como Autor, se mostra cheio de uma camaradagem forçada em relação a figuras culturais menores, de elogios insinceros a mulheres vulneráveis e de falsa modéstia diante daqueles que o admiram. Mas ele demonstra um poder de observação especialmente aguçado para o detalhe narrativo e uma propensão quase incontrolável à invenção. Tão logo uma garçonete lhe traz café, ele cria a história dela, repleta de amores e perdas. Ao final, o Autor evoca uma compaixão surpreendente; sua jornada é compulsiva e desprovida de alegrias, mas ainda assim vital de alguma maneira.O escritor nega que o personagem tenha traços autobiográficos, apesar de ter argumentado, numa entrevista publicada em 1990 no jornal Haaretz: "Sempre existe uma parte de mim que não se envolve, que se senta à parte e observa. Às vezes é um olhar que se mantém distante, quase hostil. Muito frio." O novo livro discute, tanto explícita quanto implicitamente, os méritos de se escrever ficção, sugerindo que se trata menos de um nobre esforço do que de uma compulsão, como o sexo e o sonhar."A necessidade de se contar uma história é algo elementar, primevo", acrescentou Oz quando a questão foi levantada. Mas isso não significa que se trate de uma tarefa simples, especialmente num lugar como Israel. Como ele destacou: "Não é fácil escrever romances e contos no coração de um drama político."Como ele lembrou outro dia. "Quando meus amigos e eu começamos a defender a solução de dois Estados em 1967, éramos tão poucos que seria possível realizar nossa assembleia nacional dentro de uma cabine telefônica."Esta perspectiva é hoje amplamente difundida: a administração Obama disse estar firmemente comprometida com esta solução, apesar de ela ter perdido apoio entre israelenses e palestinos, conforme cada um dos dois lados enxerga o outro com mais suspeita, desconfiando das suas pretensões guerreiras. A campanha militar israelense na Faixa de Gaza, alguns meses atrás, realizada para impedir o disparo de foguetes do Hamas contra cidades israelenses próximas a esta, só fez aumentar esta desconfiança mútua.Amos Oz apoiou o ataque, considerado por ele uma resposta apropriada aos disparos de foguetes, mas segundo ele a ofensiva deveria ter sido suspensa depois de alguns poucos dias, em vez de ter prosseguido por três semanas. Ao mesmo tempo, ele se mostrou entristecido com o comportamento dos soldados israelenses em Gaza.O novo governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu representa uma posição bastante à direita de Oz. A administração não se comprometeu com a solução de dois Estados e diz que jamais partilhará Jerusalém com os palestinos. Oz guarda esperanças apenas modestas de que o governo possa surpreendê-lo.Ser um israelense de 70 anos, segundo ele, é como ser um americano de 250 anos. Ele testemunhou o nascimento do seu país há 61 anos. "Eu participei da Festa do Chá em Boston", disse o autor, piscando. "Conheci George Washington e Abraham Lincoln pessoalmente." TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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