Amores e perdas à moda brasileira

Daniela Thomas e Felipe Hirsch falam sobre Insolação, que mostram domingo para o público da mostra paralela Horizontes

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Será coincidência? Dois filmes brasileiros presentes na mostra Horizontes, do Festival de Veneza, são dirigidos a quatro mãos. Um é Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Karin Aïnouz e Marcelo Gomes, que será exibido amanhã. O outro é Insolação, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, que passa pela mostra no domingo.

Daniela já está acostumada à parceria por seus trabalhos anteriores com Walter Salles (Terra Estrangeira, O Primeiro Dia, Linha de Passe). Felipe Hirsh faz sua primeira incursão com cinema. Mas é parceiro de longa data de Daniela no teatro, entre as quais a peça Viver sem Tempos Mortos, com Fernanda Montenegro. Nessa estreia de parceria, Insolação, a dupla conta "uma história de desertos amorosos", como definem. Leia a seguir, a entrevista com os dois codiretores.

Sobre a direção a quatro mãos: quais são as vantagens e desvantagens (se existirem) da parceria?

Felipe - Tanto tempo faz desde nosso primeiro trabalho junto no teatro que as coisas se misturaram definitivamente. A Dani, antes de tudo, antes da grande diretora de arte, é uma artista que desenvolve conceitos sobre nossas ideias e, além de tudo, é uma cineasta apaixonada. O processo de Insolação foi intenso, muito íntimo e definiu nossos caminhos. Eu trouxe minha obsessão por contos russos de amor. A Dani trouxe Brasília e sua utopia. Essas coisas dialogavam. Foi um trabalho muito bonito, precioso. Durante as filmagens eu conduzi mais, porque a Dani estava muito envolvida com o lançamento do Linha de Passe. Depois, ela montou o filme quase sozinha também, porque eu estava excursionando na Europa com a Sutil Companhia. A Dani me passou o medo e a confiança. Filmar pela primeira vez me trouxe coisas boas. A paixão e a irresponsabilidade. Lidei com a irresponsabilidade dentro do campo restrito que a minha vontade racional de saber deu a ela. Mas, no final, o que queríamos era filmar um sentimento. E como fazer isso? Por isso, Insolação é um filme tão delicado. Desculpe, falo com orgulho dele, não é? É que ele tem servido tanto à nossa vida.

Daniela - Como você pode imaginar, trabalhar em parceria é o meu métier. A com o Felipe tem 10 anos e muitas realizações. Todas em teatro. Mas a ansiedade dele - que é um cinéfilo inveterado - de fazer cinema,está na origem do projeto. E a nossa parceria foi uma consequência natural, não só pela minha experiência prévia em cinema, mas pela conversa que simplesmente migrou do palco para a tela. Acho também que, com Insolação eu diminuí a esquizofrenia das vidas paralelas (teatro e cinema). A liberdade com que trabalho há mais de 20 anos pesquisando linguagem e conceitos no teatro - e que encontrou eco nas pesquisas do Felipe - contaminou o cinema que fazemos em Insolação.

Gostaria que falassem um pouco sobre o filme.

Felipe - Insolação conta histórias de amor e perdas. Acontece numa cidade vazi. Os personagens confundem a sensação febril da insolação com o início da paixão. Eles reutilizam essa cidade que um dia foi inutilmente sonhada. Suas histórias se entrelaçam a ponto de confundirmos uns com os outros. Queríamos filmar a melancolia do amor inalcançável. É um filme sobre a paixão e outras utopias. Brasília é a imagem de uma utopia. Aquela que já falhou. Existem espaços não completados, parados, reutilizados. Paixões nascem e se perdem nesse lugar.

Daniela - Duas frases que o personagem do Paulo José fala no decorrer do filme, para mim, sintetizam Insolação. A primeira é "Amor é a única coisa. Amor e perda. Perda, principalmente...", que é perfeita descrição daquilo que queríamos tratar no filme. O amor como utopia. Aquele que falha e falha novamente, deixando o amante perplexo. A outra é "Confiem no mistério", que é o que gostaríamos para o filme: que o espectador se deixasse levar pelos caminhos que os personagens seguem, confiando no mistério do cinema. É filme que não se constroi na narrativa clássica, na trama, mas na emoção.

Qual a importância de vir a Veneza?

Felipe - É uma grande honra. Novas correntes do cinema. É claro que não realizamos um filme pensando nisso. Essa é a nossa parte despretensiosa. Nossa pretensão estava em nos mantermos fiéis aos nossos desejos. Sem concessões. Isso fez de Insolação um filme intenso emocionalmente. Tanto no processo quanto, acredito, no resultado. Estou muito curioso para perceber como ele toca as pessoas. Nosso sonho é aquele do genial Jacques Tati que queria que o seu filme começasse quando o público saísse do cinema. Esse é um sonho. Estamos ouvindo coisas lindas sobre o filme. A seleção para Veneza foi uma delas.

Daniela - Quando se faz um filme do jeito que a gente fez, com absoluta liberdade, tentando resolver a equação de cada imagem, cada inflexão, cada ritmo, a gente demora a fazer a passagem de realizador para exibidor. É um filme que não adivinha seu público. Cada momento da vida dele será uma surpresa, tenho certeza. Já começou com isso: a seleção para Veneza. Conheço o público desses festivais e sei que são ávidos por cinema.Vai ser uma maravilha e um privilégio compartilhar com eles o nascimento do Insolação.

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