Amores e mistérios em um casarão inglês do século 19

A australiana Kate Morton fala de A Casa das Lembranças Perdidas, grande sucesso na Inglaterra que chega ao Brasil

Entrevista com

Suzana Uchôa Itiberê, O Estadao de S.Paulo

09 de dezembro de 2008 | 00h00

Na Inglaterra de 1924, o jovem poeta Robbie Hunter morre à beira de um lago durante uma festa na mansão Riverton. As irmãs Hannah e Emmeline Hartford, herdeiras da propriedade e testemunhas da tragédia, nunca mais se falam. Após 75 anos, a diretora de um filme sobre os Hartfords procura Grace, antiga empregada da família, para consultá-la sobre a autenticidade da história que quer contar. Essa cutucada no passado faz com que a senhora de 98 anos relembre seus dias naquele palacete cheio de segredos e sua influência no destino de duas irmãs que lhe eram mais próximas do que imaginava.Essa trama intrincada transformou a australiana Kate Morton na atual sensação do mercado editorial inglês. A Casa das Lembranças Perdidas (Rocco, 536 págs., R$ 64,50) é seu romance de estréia e o título mais bem-sucedido do país desde O Código Da Vinci: 600 mil exemplares vendidos na Inglaterra e direitos de tradução negociados para 29 países. Aos 32 anos, a nova milionária das letras vive em Brisbane, numa casa do século 19 com o marido e dois filhos. A paixão por casas antigas a inspirou na criação de Riverton, e a trajetória de seus habitantes, os Hartfords, serve como espelho das transformações sociais, políticas e econômicas que sacudiram a sociedade britânica no início do século 20. Grace, a narradora, lança um olhar arguto sobre os traumas de 1ª Guerra, a emancipação feminina e a crise na aristocracia diante da ascensão de uma nova classe, cujo status vinha do dinheiro e não de títulos de nobreza.O retrato da época é minucioso, mas não se trata de romance histórico. Interessa à autora não só o passado, mas suas marcas no presente, certos fantasmas que fazem a obra flertar com o gótico. Kate transita com desenvoltura por diferentes tempos e desenha um complexo hall de personagens, que se fundem de forma inventiva. Uma estréia triunfal para a aspirante a atriz que virou escritora por acaso. Kate conversou com o Estado por telefone.Como descobriu que seria escritora?Minha melhor amiga é escritora e um dia fez um comentário sobre o tipo de pessoa que termina livros, pois grande parte desiste. Disse que eu seria uma *autora que iria até o fim. Nunca havia pensado nisso, mas sempre adorei o ato de contar histórias, daí a paixão por atuar. No instante em que sentei para escrever, descobri que era aquilo que tinha de fazer.O livro tem enredo cheio de surpresas, histórias paralelas e tempos que se alternam. Tinha a trama pronta na cabeça antes de escrever?A Casa das Lembranças Perdidas foi meu terceiro manuscrito. Os outros foram rejeitados por editoras, mas me ajudaram a ganhar prática no processo criativo. Estava grávida e não me saía da cabeça a imagem de um jovem poeta morto à beira de um lago e a existência dessa senhora que sabia a verdade sobre a tragédia. A obra teve longo período de gestação e só fui para o computador quando defini o caminho a seguir.Por que situou a narrativa na Inglaterra do início do século 20?Todos escrevem por diferentes razões. Como havia tido dois livros negados, e já não acreditava na publicação, decidi escrever para mim. Fiz por prazer. A Inglaterra dos anos 20 era um lugar em que adorava me imaginar. Sou fascinada por casarões antigos, meio decadentes, que exalam história por todos os cantos. Aquela foi uma época de fantástica transição. O mundo antes e depois da 1ª Guerra é completamente diferente e há muita tensão narrativa quando se retrata períodos como esse.O apuro descritivo é fruto da imaginação ou de profunda pesquisa?Um pouco dos dois. Como disse, adoro grandes casas velhas, aquelas como Riverton, em que as marcas dos dias áureos começam a se apagar, o papel de parede está opaco e o piso gasto. A locação é tão importante quanto os personagens e acho delicioso inventar um lugar, em todos os pormenores. Quando soube que o livro seria publicado, fiquei aliviada por ter pesquisado bastante.Seu estilo foi comparado ao de Jane Austen. O que as obras femininas têm que mantêm público tão fiel?Sei que meu maior público é o feminino, mas minha intenção não é escrever só para mulheres. Quero contar histórias que arrebatem a atenção. Eu lia muito quando criança e havia aqueles livros que me faziam desaparecer após a primeira página e não respirar até terminar. Como adulta, tinha dificuldade em achar uma obra que me fizesse sentir daquela forma. Então, me foquei em criar algo envolvente, que transportasse o leitor para outro mundo. Acredito que quanto mais vívida é a descrição, maior a facilidade de o leitor mergulhar naquela realidade, de se ver em Riverton, de andar por seus corredores, sentir o aroma dos quartos, a temperatura...Um grande mistério envolve a trama. Kate Morton é uma mistura de Jane Austen com Agatha Christie?Sim, sempre adorei histórias de mistério e tenho necessidade de inserir suspense na narrativa.Não é um romance tipicamente gótico, mas há fantasmas de sobra.Não queria seguir o estilo gótico, mas sou interessada por marcas do gênero, como a presença de segredos ocultos e fantasmas metafóricos. Grace é assombrada por eventos de um passado distante, do qual não consegue se libertar.Quais as suas fontes de inspiração?Ela vem de todos os lugares. São coisas que as pessoas contam, outras que leio nos jornais. Às vezes é algo que alguém me falou anos atrás e é resgatado de repente. Costumo sentar em um café e fazer anotações no caderno. Fiz isso por meses antes de começar a escrever. Idéias guardadas no inconsciente vêm à superfície e, durante a pesquisa, informações inesperadas pulam na nossa frente. É incrível quando esse material se transforma na trilha que você reconhece como o caminho para a criação.Sentiu a pressão do sucesso ao escrever seu segundo romance, The Forgotten Garden?Sim, em especial no início. Era estranha a sensação de ter um contrato e uma expectativa a cumprir. Porque o primeiro fiz para mim, sem cobranças. Quando senti dificuldade, parei tudo e tomei a mesma postura: escrever algo que adoraria ler. Assim, se ninguém gostasse, pelo menos eu teria me divertido. Parece que deu certo (a obra vendeu 75 mil cópias nas três primeiras semanas).

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