Amor, morte e sombras com o violino de Kremer

Artista deu lições de musicalidade em obras de Brahms e Shostakóvitch

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

18 de novembro de 2008 | 00h00

Com a virtuosística Aurora, para violino solo, de Eugène Ysaÿe, Gidon Kremer deu início, na semana passada, ao recital de seu Piano Quartet, na Sala São Paulo. Em seguida, apoiado no sólido acompanhamento do pianista Andrius Zlabys, ofereceu uma bela interpretação do Prelúdio, Fuga e Variação Op. 18 de César Franck, peça originalmente concebida para o órgão e, aqui, arranjada para violino e piano por Ievguêni Sharlát.Mas o recital começou realmente a crescer quando a violoncelista Giedre Dirvanauskaite veio juntar-se a eles, para executar o Trio nº 2 em Mi Menor Op. 67, que Dmitri Shostakóvitch dedicou, em 1944, à memória de seu grande amigo Ivan Sollertínski, morto de um ataque cardíaco. Depois do elegíaco Moderato inicial, o scherzo Allegro non troppo é uma nervosa e infrutífera tentativa de reagir aos sentimentos sombrios, com uma falsa alegria que esbarra, subitamente, no dobre de sinos sugeridos pelas cordas marcatissimo, pesante. E tem início uma fúnebre passacalha, introduzida pelo piano, com um tom solene de celebração litúrgica do ritual pelos mortos, cujas repetições obsessivas Kremer e seu grupo executaram com grande intensidade expressiva.Com seu tema de nítido sabor folclórico judaico, o Allegretto responde ao lirismo contido do movimento anterior, de uma maneira tipicamente shostakovitchiana, com os requebros satíricos de uma sinistra dança macabra. Aqui também foi de grande efeito a maneira como piano e cordas se opuseram, num conflito que só se resolve nos compassos finais, quando os três instrumentos se unem num solene coral.Com as sonoridades ásperas, pontiagudas, perfeitamente adequadas para a execução do op. 67 de Shostakóvitch, contrastaram, na segunda parte, os tons cálidos, outonais das cordas, para realizar o mais belo e maduro dos três quartetos com piano de Johannes Brahms, o nº 3 em dó menor op. 60. Aqui, a violista Ula Ulijona veio juntar-se ao grupo, para a execução de uma das obras mais pessoais de Brahms, fruto de um período extremamente intenso de seu relacionamento com Clara Schumann, cujo marido acabara de morrer em 1856.O passionalismo introvertido do Allegro non troppo, a veemência do vigoroso Scherzo allegro desaguaram na maravilhosa melodia do Andante, um lied ternário cujo tema o violoncelo de Dirvanauskaite cantarolou de forma encantadora. E o Quarteto nº 3 com piano se encerrou com uma nobre leitura do Allegro comodo, que sintetiza a apaixonada agitação do primeiro movimento com um tom de madura resolução das tensões emocionais. O recital do Gidon Kremer Piano Quartet terminou com dois extras: arranjos para piano e cordas de duas peças de Astor Piazzolla, autor pelo qual Kremer tem demonstrado grande preferência.

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