Ambição é tema de escritores na Granta nacional

Número 4 reúne brasileiros e estrangeiros como Annie Proulx, autora do conto O Segredo de Brokeback Mountain

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Quando o número 58 da revista Granta foi publicado, em 1997, a escritora norte-americana Annie Proulx ainda não era tão popular junto ao público como autora do conto que deu origem ao filme O Segredo de Brokeback Mountain, publicado naquele mesmo ano. Ela, portanto, não dividia o espaço da revista com Paul Auster, Doris Lessing e J.M. Coetzee, ausentes na compilação do quarto número da edição brasileira de Granta (264 págs., R$ 39,90), que trata do tema ambição. Nela, Annie Proulx é um dos destaques ao lado de Joyce Carol Oates, George Steiner e Haruki Murakami.O texto de Carol Oates, Amante, e o de George Steiner, Heráldica, já haviam sido publicados na Granta inglesa, mas todos os demais depoimentos da edição brasileira são inéditos - e estão incluídos nela dois deles, assinados por cronistas do Caderno 2, Luis Fernando Verissimo e Milton Hatoum, além de uma reportagem de Elena Lapin sobre o suíço que forjou ser um sobrevivente do Holocausto, Binjamin Wilkomirski. Ele registrou suas falsas memórias com tanta clareza que seu livro Fragmentos (Memories of a Child 1939-1948) conseguiu comover muita gente. Para seu azar, era pura ficção. Wilkomirski foi desmascarado.A ambição cega e o propósito da Granta é provar que dela não estão livres nem mesmo escritores. Annie Proulx, por exemplo, sempre teve a consciência de sua grandiosidade como autora e usou a literatura para falar justamente de perdedores numa sociedade que não perdoa os que não têm ambição, a americana. Seu conto Homem de Família acompanha as reminiscências de um idoso que descobre ser sua companheira de asilo a mulher para quem perdeu a virgindade na juventude. Um pouco à maneira de Wilkomirski, ele bravateia, mas logo conclui que o passado não perdoa, que ele persegue a todos no presente e decidirá o futuro, caso a morte não chegue antes, como chegou para Forrie Wintka. Essa senhora, que rola montanha abaixo numa excursão ao Grand Canyon, é a mesma garota que passou a infância com o idoso Ray Forkenbrook nas minas de carvão da Union Pacific.Na Granta inglesa, o escritor norte-americano Paul Auster revelava a seus leitores que sempre teve a ambição de ficar rico num jogo de cartas. Na brasileira, o poeta Eucanaã Ferraz diz que sua ambição é mesmo a de ser poeta. E explica a razão: "A ambição de Manuel Bandeira era imensa, e daí sua obra irradiar uma grandiosidade proporcional ao que parece ser uma espécie de desapego." Um dos belos textos do quarto número da Granta é o relato do escritor de origem austríaca George Steiner, que emigrou para os EUA, sobre sua fixação na heráldica como forma de preservação da memória. Descendente de judeus, esse acadêmico, definido pelos colegas como o "último renascentista", prova que o deslumbramento pelas medalhas não traduz um gosto excessivo pelo material, mas, antes, persegue certo ideal iluminista - em seu caso, transmitido por hereditariedade.Surpreendentemente, o escritor brasileiro Milton Hatoum revela que sua ambição não era ser escritor, mas cantor. Pensava vagamente em ser arquiteto, mas teve um "surto de ambição" quando seu primeiro livro, Relato de Um Certo Oriente, foi resenhado no New York Times. Mas, ambicioso mesmo é o ladrão, segundo o fotógrafo João Wainer, que registrou as últimas imagens do Carandiru. Durante 46 anos, lembra, "todo tipo de ambição circulou por aqueles prédios". Se o Carandiru fosse alguém, "seria ambicioso como o diabo", conclui, assinando as expressivas imagens que ilustram a Granta nacional.

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