All that Matisse

Não existe nenhuma revisão da obra de Henri Matisse (1869-1954), como se tem dito; há muito tempo já vigora a clareza de que ela não pode ser reduzida nem ao decorativo nem ao gráfico. E a exposição aberta ontem na Pinacoteca de São Paulo está longe de ser uma retrospectiva ou ter mais que três ou quatro dos trabalhos mais importantes. Mas ver ou rever Matisse é sempre bom, sobretudo porque em seu caso rever ainda é ver, ainda é como nos deparar pela primeira vez com uma pintura que julgávamos conhecer (com trocadilho) de cor. Esse frescor, essa espontaneidade, essa alegria ao mesmo tempo serena e sensual não é para qualquer um. É preciso muita exigência para ser livre assim.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Matisse, sozinho - mas também poderia ser ao lado de Miró, ou do Mondrian do Boogie Woogie, ou de certas telas de Picasso -, é o melhor argumento contra a equivalência entre modernidade e desencanto (na expressão de Max Weber), contra essa ideia de que a razão e a ciência nos cortaram a intuição, a sensibilidade, o dom da grandeza. E isso não porque ele faça uma exaltação sentimental da beleza, muito menos uma crônica nostálgica sobre algo que teríamos perdido na agitação das cidades. Matisse, repare, não é emotivo nem saudosista. Seu tempo é o presente, é aquele específico momento em que a luz produz aquela vibração cromática; suas mulheres não são "dóceis", pois simultaneamente fazem parte e estão à parte do todo; seus interiores, mesmo quando não vemos as janelas, sempre trazem o sopro de fora, recusando a textura homogênea de tinta, não raro aguada por guache ou aquarela.

Na exposição há pinturas como Odalisca com Calça Vermelha, no auge de sua capacidade de jogar com o fundo e a figura, envolvendo e destacando aquela "maja" ou "Olímpia" - desafiadora e convidativa - num banho de luz vermelha e arabescos; ou como Natureza Morta com Magnólia, em que os elementos parecem flutuar no espaço livre da marcação perspectiva, que entretanto remete à geometria tátil de Cézanne; ou como a série Jazz, uma festa pensada de azul e amarelo. Há desenhos, gravuras e esculturas, sempre interessantes, sempre vitais em sua simplicidade - como a capela que ele decorou em Vence e que eu visitei, ateu enlevado, há 15 anos. Há ainda homenagens e releituras por artistas contemporâneos, mas quase todas vendo Matisse por apenas um de seus aspectos - em especial o que há de abstrato em sua linguagem, como se ele não fosse um grande mestre da figura, a começar pela figura humana.

Tecnicamente, Matisse fez com o espaço circular o salto modernista que Picasso fez com seus ângulos cubistas; se não tem a mesma gama e gana de expressões, abriu igualmente a superfície pictórica, de modo dançante, modulado, multifocal, sem ilusões de totalidades e dogmas. Matisse pode ser fácil de gostar, mas não cabe em explicações fáceis. Por saber que todo encanto é fugaz, sua arte emana ainda mais encanto.

A ARTE DE VER

Outra bela exposição é a de Christian Lacroix na Faap, Trajes de Cena. A montagem é de dar inveja em certas cenografias "barrocas" que fazem por aqui às vezes, porque o mais importante são as roupas e os croquis que ele fez para óperas, coreografias e peças. Os figurinos também deveriam servir de exemplo, já que mostram como é possível combinar o funcional e o pessoal; há sempre uma referência forte na história, mas também uma liberdade grande em fazê-la dialogar com a atualidade. Se Iago usa jaqueta de couro de motociclista, é porque ela se parece com um gibão da Renascença, não porque "passado é coisa de museu"; se a dançarina de Offenbach parece uma "cocotte", é porque Lacroix bebeu em Toulouse-Lautrec, que tanto retratou o cancã. A pesquisa na tradição o leva a pensar numa paleta de cores e só depois ele cria as roupas, em trabalhos que vão dos dramáticos Don Giovanni e Fedra aos líricos balés de Balanchine. O caráter cênico parte da obra; não é show-off do estilista.

RODAPÉ

Faltou espaço na semana passada para comentar Z, a Cidade Perdida, de David Grann (Companhia das Letras), jornalista americano da New Yorker que refez em 2004 a expedição feita por Percy Fawcett pela Amazônia em 1925. O coronel Fawcett foi mais um desses naturalistas românticos, como Euclides da Cunha, que viram na Amazônia a realização de um ideal. No caso, porém, ele acreditava piamente na existência da mítica Eldorado e desapareceu no norte de Mato Grosso. Grann observa que os novos poderes da ciência no final do século 19 para revelar forças invisíveis fizeram algumas crenças, como o "vitalismo" (todo homem tem um élan vital), parecerem mais plausíveis, não menos. Atrás de todo cientificista há alguém em busca de uma nova religião.

CADERNOS DO CINEMA

Amantes, de James Gray, é um filme de ator. Não que Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw não sejam boas atrizes, mas Joaquin Phoenix fez de Leonard, jovem judeu do clã têxtil do Brooklyn, um personagem tão único e crível ao mesmo tempo que não paramos de prestar atenção nele, prestes a explodir e não explodindo nunca, mantido sempre próximo ao trilho por pais que não são autoritários, movendo os ombros como se não pudesse tirar o peso mesmo com todo seu bom humor. O enredo mal consegue ultrapassar o clichê do rapaz dividido entre a "certinha" e a "saidinha"; sendo Hollywood, adivinhe com quem ele termina, depois da velha cena à beira do mar. Nesse formato binário, porém, Phoenix - que dizem ter desistido de atuar por um tempo depois desse filme - faz um perturbado tão veraz que atinge a terceira dimensão.

DE LA MUSIQUE

Se você só tem dinheiro para um CD de gravação recente daquilo que as gôndolas e os sites chamam de "música clássica", invista em The Berlin Recital (EMI), com a pianista Martha Argerich e o violinista Gidon Kremer. Em realidade são dois CDs: o primeiro traz a Sonata para Violino nº 2 de Schumann e a Sonata para Violino Solo de Bela Bartók; o segundo, as 13 Cenas Infantis de Schumann, a Sonata para Violino nº 1 de Bartók e duas composições de Fritz Kreisler. O estilo de Kremer, tenso, descontínuo, não agrada a todos, mas é perfeito para Bartók; e Argerich o contrapõe com estrutura, melódica e harmônica, e o leva até as levezas das Kinderszenen.

Vale comemorar a volta de João Bosco a um canto e voz mais controlados, menos acomodados no exibicionismo de síncopes e efeitos. O bom gosto está em todas as faixas do novo CD, Não Vou pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão (Universal), especialmente em Sonho de Caramujo, em que diz "eu moro dentro do meu violão", e em Navalha, cuja letra lembra Cartola ou Nelson Cavaquinho ("Teu sorriso é uma navalha/ Que abre meu coração") em batida de bossa nova. O curioso é que, na soma dessas referências, reaparece João Bosco em sua essência.

MINICONTO

Emília morava numa cidadezinha do interior, tinha sete anos de casamento e trabalhava satisfeita no escritório de sua tia arquiteta. Até que conheceu "um cara no orkut", largou tudo e foi morar em São Paulo. Mas não com ele por enquanto. Começou a nova vida abrigada no apartamento de uma prima, que logo lhe arranjou uma vaga num escritório. O marido culpou a prima, dizendo em dezenas de emails diários que ela é que tinha apresentado o amigo virtual e colocado aquelas ideias na cabeça de Emília; na cidadezinha e no orkut, espalhou mentiras e verdades sobre ela. Até que se cansou e jamais procurou de novo Emília, que hoje já nem vê o cara do orkut.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Só não se pode acusar o governo Lula de incoerência. Nestes dias ele manteve os juros na mesma taxa, a quinta maior do mundo, mesmo sem risco de inflação e com a queda de investimentos; propôs a volta da CPMF, disfarçada de CSS, com a alegação de que a arrecadação caiu por causa disso, não da crise, e como se não tivesse subido acima do PIB desde 2003; mandou orçamento ao Congresso para criar mais de 40 mil novos cargos para servidores públicos; e anunciou a Petrobras como operadora única de um modelo de partilha do óleo pré-sal, além de uma nova estatal, em regime de urgência, sem ter feito nem ao menos uma audiência pública (sobre uma mudança que alguns juristas dizem inconstitucional). Como diz o próprio presidente, é o Estado-mãe: seu coração perdoa todos os pecados dos filhos - e nele sempre cabe mais um.

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Andando pelas ruas de São Paulo, noto o aumento expressivo de três coisas: lixo nos bueiros, buracos no asfalto e seguranças na calçada, sob guarda-sóis, pagos pelos prédios que já têm vigias nas guaritas. É isso que chamam de cidade limpa?

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