Alicia através do espelho

Com um lento caminhar, Alicia Alonso se aprochega da boca de cena, de braço dado com o marido, Pedro Simon. Altiva e elegante, exibe um dos lenços de sua coleção, na cor azul royal, amarrado em sua cabeça, que esconde uma trança embutida. Ainda que se complete 13 anos de sua última aparição nos palcos, as calças confortavelmente largas deixam à mostra a involuntária primeira posição dos pés de uma eterna bailarina (aquela equivalente às "15 para as três" do relógio). No rosto, batom vermelho nos finos lábios e forte rímel nos olhos, que há anos não são mais capazes de enxergar nem ao menos vultos. Mas que, no entanto, nunca pareceram estar tão vivos. Prova disso foi o ensaio acompanhado pelo Estado há pouco mais de uma semana, horas antes da estreia da turnê nacional do Balé Nacional de Cuba (BNC) na capital mineira."Maria Elena!", gritou a bailarina cubana de cima do palco, sentada numa cadeira, para a professora e coordenadora de ensaios da companhia. O ensaio é instantaneamente congelado, todo o elenco se volta para ela. "Eles estão ?comendo? os movimentos! Não estão dando o tempo necessário para este trecho da coreografia." Maria Elena Llorente, que trabalha para o BNC desde 1962, quando foi aprovada na audição para integrar o corpo de baile, confirma a observação da diretora geral e endurece ainda mais nas críticas. "Ela não vê, mas sente, conhece cada movimento, sabe o que é preciso fazer e se apoia em nossa equipe para que se mantenha seu alto nível de exigência", diz Maria Elena. "Alicia conquistou admiração e respeito não só de diversas gerações de cubanos, como de todo o mundo", completa.O espetáculo em questão, que adequavam ao amplo palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e que vai passar por São Paulo amanhã e quinta-feira, é Giselle, sobre a camponesa que se apaixona pelo nobre disfarçado de aldeão Albrecht. A coreografia. criada em 1840 por Jean Coralli e Jules Perrot, foi considerada imortalizada no corpo de Alicia Alonso por grande parte da crítica.A cubana de 88 anos conhece de trás para frente, dos pliês aos passés, o clássico que considera parte indissociável de sua vida - e que garante não ter se cansado de ouvir, sentir, interpretar e, claro, ?bailar?. Nem mesmo quando foi obrigada a ficar imóvel em sua cama durante um ano inteiro de sua vida, por um descolamento da retina pouco depois de ter completado 19 anos. "Todos os dias, eu repassava a coreografia na minha cabeça e refazia os passos com os dedos das minhas mãos", conta ela, mostrando como gesticulava. Uma série de cirurgias viriam a seguir, sendo que as derradeiras já não conseguiram alcançar a correção completa desejada - a confiança depositada em seus parceiros, além de vozes saídas das coxias, foram providenciais para que sua atuação se prolongasse até os 75 anos de idade.A extensa turnê pelo Brasil do balé completo de Giselle, que ainda segue rumo a Porto Alegre no dia 23, Caxias do Sul, 25, Jaraguá do Sul, 27, e Curitiba, 30 e 31, é acompanhada de perto pela diva cubana que fez história na dança. "O papel de Giselle é ideal para uma bailarina, porque representa uma época muito linda do romantismo", opina Alicia. A transformação da menina, do primeiro ato, em um espírito no segundo, exige extrema dedicação e talento da intérprete, de acordo com a bailarina. "Ela tem de ser capaz de representar uma loucura nesse processo de transformação, que não tem nada a ver com a loucura de hoje em dia: é algo mais interior, medido. É muito diferente, muito difícil e muito belo."A preocupação com a clareza da história de Giselle quando dançada fez com que Alicia criasse uma pequena modificação na coreografia original, tornada popular com os Balés Russos, dirigido por Sergei Diaghilev (1872-1929). Um pas-de-deux no primeiro ato, que Alicia acredita que "não tinha nada a ver com a história de Giselle", transformou-se em um baile de amigos pela interpretação da cubana. "Em grandes clássicos do mundo sempre há um baile de amigos. E eu segui a versão tradicional dos grandes coreógrafos antigos", justifica.O Balé Nacional de Cuba, hoje formado somente por profissionais cubanos, é mantido por meio de subvenção desde a sua fundação, em 1948. Alicia Alonso não disfarça seu descontentamento quando o assunto diz respeito aos grandes nomes formados pela escola de Havana que partiram para carreiras no exterior, como Carlos Acosta. "É como empinar uma pipa, que despende tempo e suor para ganhar altitude e, de repente, a linha arrebenta. O governo provê educação, vestimenta, alimentação, profissão. E o que ele pede em troca é o mesmo", diz, sem meias palavras. Sobre uma possível abertura política de seu país, Alicia desconversa. Amiga pessoal de Fidel Castro e partidária do regime, não acredita numa transição de sistema. "Em sentimento e crença, somos os mesmos. Não mudamos", afirma. A bailarina, cuja carreira foi iniciada nos Estados Unidos, lamenta apenas a barreira cultural imposta durante o mandato do ex-presidente, George W. Bush, a quem considera "assassino". "Defender o diálogo e o intercâmbio permanente entre nós é direito e dever, e será um aporte à paz e à amizade entre os povos", defendeu em carta aberta aos intelectuais e artistas americanos, escrita no fim do ano passado, início da era Obama. Perseverança, definitivamente, sempre foi sua característica mais evidente. A repórter viajou a convite da produção brasileira da turnêServiçoCredicard Hall. Av. Nações Unidas, 17.955, 2846-6010. 4.ª e 5.ª, 21h30. R$ 100/R$ 160A Primeira Entre os PrimeirosO PESO DE SER GISELLE: Viengsay Valdés conhece o tamanho de sua responsabilidade. Ela sabe o significado de ser a primeira entre os quatro primeiros bailarinos da companhia cubana. Técnica apurada aliada à perfeição dos movimentos é o que busca em treinamentos de cerca de 7 horas diárias há oito anos, desde que conquistou o posto. "Alicia é muito exigente. Nutro admiração e um grande respeito por ela", diz a bailarina titular de Giselle, que vai encarnar o papel amanhã, na capital. Viengsay (vitória no idioma de Laos, onde seus pais foram embaixadores) aprendeu com Alicia que não se deve divulgar a idade. "Isso é irrelevante. Se me for permitido, quero dançar até os 75, como Alicia."

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